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Olá. Já faz bastante tempo que não escrevo um texto, assim, sobre o Flamengo. Em outro momento da vida escrevia sob o nome Rondi Ramone, no Urublog do Arthur Muhlenberg. Provavelmente ninguém lembra, ainda bem, e essa informação só é importante pra eu mesmo me acostumar novamente com esta função. O pessoal me fez o convite para escrever aqui muito provavelmente por conta dos meus excessos na conta do tuíter. Como o ambiente dá forma para a coisa, um texto assim será menos histérico. O que é uma pena, a histeria é muito importante e veio para tirar a paz mórbida dos não-histéricos, dos acomodados. Não sou um grande fã de patologizar as coisas, mas é possível que o Flamengo caiba dentro de alguma dimensão da histeria, da mania, da melancolia, a depender da rodada. Do fundo depressivo da luta contra o rebaixamento até a checagem de voos internacionais rumo a Tokio, com i mesmo, é um palito. O amor próprio, narcísico, muito importante para cada pessoa exista, é excedido também por nós.

Não tem jeito, o Flamengo tem essas qualidades. Está na encruzilhada onde Exu encontrou Eros, o deus do amor. E é por isso que cabe dizer que o Flamengo contemporâneo precisa acabar. Já está morto, falta o enterro. O Flamengo de planilhas, o Flamengo da expulsão do povo em sua própria casa, o Flamengo que se transformou em máquina de venda de tudo, que deixa o mercado contente demais, e a torcida contente de menos. Esse Flamengo não pode se naturalizar.

Sequer entrarei na cilada, no labirinto ideológico do resultado, da eficiência. A eficiência é um relógio e o Flamengo é o tempo não mensurável, é o que acontece entre um jogo e outro. Vocês sabem que isso é verdade, não preciso lhes dizer. Não somos Flamengo apenas durante as partidas. Somos, principalmente, entre elas. E já há alguns anos foi vendida uma promessa impossível de cumprir: fazer de uma coisa profunda da alma popular brasileira um negócio. A crença na fatalidade do sucesso do mercado encontra neste Flamengo seu limite. Dinheiro não é suficiente. É preciso outra coisa, aquela palavra que nos orgulhamos, a raça. O dinheiro pode ajudar, é verdade. Deveria, até. Mas a distância entre o “Flamengo Campeão do Mundo” e a realidade de “Flamengo campeão do Youtube” é insuportável.

A falta de talento e vibração do departamento de futebol, que transformou o amado Zé Ricardo num sujeito amedrontado e apático, é um inferno. Um inferno. A militância anti-crítica não será capaz de fazer a realidade se tornar melhor, mesmo com as conquistas em estrutura. Não dá para ser Flamengo e ter arena McFla ao mesmo tempo. Não dá para ser campeão do mundo com jogadores entediantes, com “bons números” incapazes de nos encher de tesão mesmo. Lembram disso? Tesão de ver o Flamengo jogar. Tesão de dizer que a maior torcida do mundo faz a diferença. É ela que faz com que os dirigentes de mercado tenham algo a mostrar em suas reuniões com parceiros. Sem essa torcida, amigos, o que eles teriam a vender? Nada. É a torcida e as cores fortes e revolucionárias que fazem o Flamengo ser essa potência permanente.

Há alguns anos muitos se empenharam na operação de transformação modernizante do Flamengo, que resultou na vitória da Chapa Azul e na derrota do Flamengo arcaico representado pelo patricismo. O Brasil atual nos mostra que o passado não elaborado, não verdadeirmente superado, retorna, não como farsa, mas como adoecimento. O mesmo risco corre o Flamengo. Espero que estes dirigentes saibam da responsabilidade que têm. O Flamengo é importante demais para ser dirigido desta maneira. Existe uma enorme diferença entre a organização econômica estar a favor do Flamengo e o Flamengo existir a favor do mercado.

Beleza. Dito tudo isso, infelizmente os medos e ansiedades do verdadeiramente querido Zé Ricardo estão atrapalhando os planos de todos nós. E ele está só. O presidente, que só enfrenta situações de confronto quando é para ofender sua própria torcida, pra não falar nos invisíveis gestores do futebol, o abandonam à cólera da torcida. Estão queimando Zé Ricardo que, por sua vez, se atira ao fogo. Torço a cada rodada que ele mude, mas a cada semana a esperança diminui. Uma pena.

O argentino Enrique Pichon-Rivière, psicanalista, psiquiatra, inventor da psicologia social, de vez em quando usava metáforas de futebol para pensar as relações entre o psiquismo individual e social, e em outras vezes usava metáforas psíquicas para falar sobre futebol. Mágico dos trabalhos grupais, organizava jogos entre os pacientes psiquiátricos do hospital em que trabalhava, lá pelos anos 1960.

Certa vez escreveu que o jogo – de futebol, ou a interação com o outro – acontecia antes no campo interno. O mundo interno da pessoa, o mundo interno de um grupo familiar, por exemplo. Na metáfora futebolística seria mais ou menos assim: os jogadores e a comunidade ao redor deles, da torcida aos dirigentes, se relacionam e produzem uma interação com um outro time. Cada integrante deste jogo se relaciona com os demais integrantes do próprio time, diante do outro. Internaliza funções, atribuições e sentidos, até construir uma identidade. Apenas nesta internalização de um “mim”, em relação com o próprio grupo, jogará com sentido no campo externo, sabendo mais ou menos bem o que fazeria diante do Outro geral, do outro time, neste exemplo.

O Flamengo está desintegrado. Não tem mais uma identidade a qual construir uma imagem de si, um ideal para o qual se lança. O Flamengo atual não sabe de onde vem e nem onde quer chegar, a não ser nas boas relações com o mercado. E isso reverbera no campo externo, frágil nos momentos de ansiedades agudas, de transições importantes. Com uma parte importante dessa comunidade (diretoria) forçando uma nova identidade, as partes do corpo não se reconhecem.

Me parece que todo dinheiro do mundo não fará o Flamengo ter potência novamente até que essa questão seja levada a sério. Se vencermos, não saberemos como, nem para quê. E isso é simplesmente deprimente.

Deixo a pergunta: por que o Flamengo deve existir? Que sensações queremos ter com ele? O que ele significou para nós, desde crianças, desde as gerações anteriores a nós? Qual o sentido das políticas que o direcionam hoje?

Bem, é isso. Não devo escrever com frequência, porque dá trabalho mesmo e ando mais preguiçoso.

Saudações Rubro Negras!
 

PS: como nos tempos de Rondi Ramone, deixo aqui uma musiquinha pra acompanhar a leitura. Chama Identity, do X-Ray Spex, e lá eles perguntam: quando você se olha no espelho, você se reconhece?
 

 
Daniel Guimarães é psicanalista, mora em São Paulo, é um dos colaboradores do site tarifazero.org; já publicou crônicas no Blog do Torcedor do Globoesporte.com sob o pseudônimo Rondi Ramone. E é mais um no coletivo Cultura Rubro Negra aqui do MRN. Siga-o no Twitter: @camarada_d.

 


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