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Enfim, um placar que faz jus ao quanto que foi criado. É o destaque da análise da partida que vale pela 16° Rodada do Campeonato Brasileiro, no Maracanã, no que poderia ser considerado o melhor desempenho tático da equipe em 2018. Movimentações, compensações e coberturas executadas conforme o manual (ou melhor, quase) por todos os jogadores. Sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Flamengo entra em campo alterando novamente o desenho inicial de sua equipe, utilizando o que seria à primeira vista um 4-4-2, mas repleto de peculiaridades. Diego atua mais à frente, quase que na posição que o designaria como segundo atacante próximo a Uribe (finalmente titular), enquanto Marlos joga uma linha mais baixa como meia aberto pela esquerda, com E. Ribeiro na mesma posição, mas pelo lado direito. Pelo centro, Paquetá e Cuéllar alinhados no que seria um double-pivot, enquanto a última linha de 4 do jogo anterior permanece (Rodinei-L. Duarte-Rever-Renê.

Sport entra em campo em um 4-2-3-1 com Gabriel por dentro, M. Bastos e Marlone abertos como meias-pontas. Tal disposição é uma das chaves para a supremacia dos anfitriões ao longo de todo os 90 minutos, que será descrita mais à frente. Porque primeiro, é necessário entender as mudanças executadas na equipe após o confronto contra o Santos, na rodada anterior.

Flamengo teve dificuldade de conter a equipe santista nos confrontos de 3×2 entre Renê-Diego-Sávio x Ferraz-Rodrygo. Brilho da joia desequilibrou durante todo o período de domínio santista até sair o gol de empate aos 33’. E muito da forma como Barbieri acertou a marcação sobre o menino da Vila, permanece para a partida contra o Sport. Para evitar contra-ataques fulminantes aproveitando da falta de velocidade que Rever traz à última linha, Barbieri fecha à frente da dupla de zagueiros uma linha de 3 volantes, que ajudam a fortalecer a base da jogada e inibir saídas através de passes longos. Essa tal linha de 3 é condicionada para qual lado estiver o portador da bola, já que pela direita Rodinei atua como um ponta, ainda que continue sua costumeira ineficiência em cruzamentos, que de tanto já repetida se torna cansativa. No jogo de hoje, apenas 1 de 10 de seus cruzamentos foi finalizado por seus companheiros.


Balanço defensivo em 3-2. Alternância da atuação dos laterais em sua estruturação.

E tal postura sem bola se torna essencial para anular a atuação dos visitantes justamente pela postura defensiva que exige que Marlone e M. Bastos dupliquem a marcação no corredor junto à Prata e Sander, que faz com que o rebote ofensivo da equipe seja disputado por Gabriel, que é uma grande temeridade para uma equipe que precisa de solidez no seu tripé de meio-campo para permitir que a defesa respire e que os contra-ataques cheguem ao pivô de R. Marques e à velocidade de seus pontas. Alternativas brutalmente prejudicadas pela escolha de ter Gabriel por dentro, que pouco agrega à equipe de Recife.

Dessa forma, visualiza-se em campo o 4-4-2 em linha para recomposição defensiva, com Uribe e Diego livres para pressionar os volantes adversários (que não acontece com a eficiência e frequência desejada, sendo fator determinante para o gol de empate). Mas as movimentações em bola destoam do que seria as funções dessas posições. Diego recua até a linha de volantes enquanto a bola está nos pés de Cuéllar, seja para abrir espaço para a ultrapassagem de Marlos pelas beiradas, ou para que o colombiano entre em diagonal enquanto Renê exerça a função de oferecer amplitude pela esquerda. Um atacante que volta à intermediária para armar. Livre de certas obrigações no balanço defensivo, mas fundamental na saída sustentada. No Pré-Copa, seria o finalizador pela esquerda ao lado de Vinicius Jr enquanto a jogada se desenharia pela direita até ser invertida. Agora, atua como terceiro homem de meio-campo para que a saída seja desenvolvida com qualidade até chegar nos pés de Everton Ribeiro, que atua de certa forma mais preso, como um autêntico meia-direita.


Compensações, movimentações e estrutura de um 442 funcional.

Com esse recuo de Diego e E. Ribeiro à linha de volantes permite que Paquetá se infiltre constantemente e participe mais das ações ofensivas no último terço, espelhando a sua atuação contra o Santos (31 e 29 passes nesse setor nos respectivos jogos com a equipe paulista e pernambucana). Deixa de ser o armador em todas as fases de jogo (base, entrelinhas, etc) que executava no período Pré-Copa, para atuar como um box-to-box que rege à saída e sempre se apresenta para concluir a gol, de dentro ou fora da área, pelo centro ou beiradas. Ainda segue errando passes decisivos para conclusões de jogada. Assim como segue em busca das atuações que lhe renderam a posição de Melhor Jogador do Campeonato segundo o Whoscored (e no qual permanece, com média de 7.94).

E um dos beneficiados dessa “liberdade” cedida para a dupla de volantes para atacar a zona central é Cuellar, que desenvolve ainda mais seu futebol infiltrando e finalizando, assim como auxiliando no perde-pressiona (conter-pressing) e marcação alta. Nessa partida, 3 finalizações de fora-da-area, 8 desarmes, 2 interceptações, 1 bloqueio, 7 de 7 bolas longas e 95% de aproveitamento em passes. Um dos jogadores mais regulares do ano, com médias excelentes nos scouts.Primeiro volante que articula tão bem quanto marca e lê o jogo. Raridade em solos brasileiros.

Vale destacar que mesmo após fazer o primeiro gol (de Rever em escanteio cobrado por Diego), Flamengo não mudou sua postura de agredir e assumir as ações ofensivas. Correu certos riscos com algumas antecipações equivocadas de Rever, mas não aproveitadas pelo Sport. Para um time que possui apenas um jogador defensivo em sua linha de 4 no meio (Cuéllar), tal postura é fundamental. E um deslize, seja quando for, pode ser severamente castigado. Que é o que acontece no gol de empate do Sport aos 44’.

Com sensação amarga, termina o 1° Tempo. Mesmo tendo concluído 5 vezes no gol, exigido 4 defesas de Magrão, acerto 222 de 250 passes, o placar ainda foi para o vestiário igualado. Flamengo precisava justificar a entrada do time titular no jogo anterior ao primeiro confronto das quartas-de-final da Copa do Brasil contra o Grêmio. O respeito ao Campeonato Brasileiro no qual é líder e não ganha há 9 anos precisava ser recompensado. E foi, mais rápido que muitos esperariam. A falta de pontaria e eficiência tão cobrada nos jogos anteriores, enfim se apresenta. E com requintes de crueldade.

Aos 48’, erro na saída gerado pela marcação alta, voleio de Paquetá dentro da área. Dois minutos depois, Diego cobra rápido falta à frente de sua própria área para Marlos, que invade pelo meio, atrai a marcação e serve em profundida pela direita E. Ribeiro, que domina, olha pro gol e acerta na gaveta. E não muito depois, aos 63’, Uribe recebe passe por elevação de E. Ribeiro (em mais uma partida exemplar no qual é coroado por uma nota acima de 8 pelo whoscored em sequência), mata no peito e acerta um sem pulo que quica enganando Magrão que nada pode fazer a não ser amargurado, pegar a bola no fundo das redes.

Com inicio de segunda etapa fugaz, Flamengo se permite poupar do desgaste de imprimir velocidade em um jogo já ganho, permite as saídas de Diego, E. Ribeiro e Marlos (extenuado) para as entradas de Guerrero, Geuvânio (novamente bem) e Jean Lucas (na primeira participação pós-Copa) para manter a soberania sobre o adversário e esperar o apito final.

Vale ressaltar como Barbieri mesmo com um placar elástico, promoveu a entrada de mais um centroavante e de um ponta em campo. Assim como a ótima partida de Marlos, que com a chegada de Vitinho, se apresenta a seu técnico, torcida e companheiros como uma peça importante para a sequência do ano. De negativo, destaca-se a perda de agressividade do meio-campo nos minutos finais das etapas que permite que seja agredido, mesmo contra um time dominado por quase todo os 90 minutos, que deixou o placar momentaneamente adverso e a liderança dividida com o São Paulo.Rodinei continua colocando sua titularidade em xeque, sem conseguir trazer o volume e qualidade no terço final que deve ser fornecida à alguém que constantemente recebe passes de E. Ribeiro em ótimas condições, e que tem suas subidas constantemente compensadas pela linha de meias. Boa vitória, com um placar que reflete o que foi o jogo, e que soube explorar as fraquezas técnicas do adversário e os equívocos de disposições de peças de seu treinador.
 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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Matheus Miranda analisa os jogos do Mengão no MRN. Siga-o no Twitter: @Nicenerd04
 

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