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Em 8 de agosto de 2018, na primeira partida válida pelas oitavas-de-final da Libertadores, no estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, o planejamento do Departamento de Futebol é posto à prova frente ao Cruzeiro, em “revanche” contra o Campeão da Copa do Brasil 2017 sobre o próprio Flamengo. Só esse destaque já seria suficiente para alterar o ânimo e equilíbrio emocional das equipes e torcidas. Mas de forma ainda mais extraordinária, campo e arquibancada mantém um tom que perdura por quase todo os 90 minutos no lado rubro-negro: frieza e receio preenchem o Templo do Futebol, ocupado por uma Magnética mais atenta ao que acontece nas quatro linhas do que o vibrante de costume. E o que se vê em campo não é agradável.

Há uma semana, a melhor atuação do ano em território hostil contra o Campeão da América. Agora, apatia frente a um já conhecido adversário: Fábio, Léo, Henrique, Robinho e Thiago Neves foram titulares na primeira partida da final de copa nacional no ano passado, nesse mesmo estádio. De Arrascaeta saiu do banco de reservas para igualar o placar em falha de Thiago. Diego, Cuéllar e Réver foram outros remanescentes daquela partida, pelo lado rubro-negro.

Mas há de se entender os pequenos equívocos que conduziram ao desenrolar desse jogo. Sem Lucas Paquetá, suspenso, o Flamengo entra em campo com Jean Lucas como meia-volante e Marlos Moreno como ponta-esquerda do seu 4-1-4-1 funcional. Mas por que não Vitinho como titular, a maior contratação da temporada e esperança de muitos torcedores para suprir a ausência tão sentida de Vinicius Jr? Simples, a equipe precisava de profundidade. E Barbieri ainda não sabe extrai-lo do recém-chegado.

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Características de jogadores tendem a reorganizar propostas e padrões de jogo de uma equipe. Não é trocar “seis por meia-dúzia”. O Flamengo joga com três meias-armadores, o que naturalmente desacelera o ritmo das jogadas e torna um jogo muito mais pautado em tocar a bola de pé em pé até a meta adversária. Vinicius Jr era o ponto fora-da-curva: ágil, rápido e driblador, com poder de finalização e ótimo senso de desmarques e ataque de espaços vazios: aprofundava as linhas de passes do ataque rubro-negro e abria defesas através de vitórias individuais sobre marcadores, seja em diagonal ou buscando a linha de fundo.

Vitinho é um jogador diferente. Mais forte, usa e abusa de sua proteção à bola para buscar jogo interior com os meias, tabelando e se apresentando para finalização, seu grande foco. Conduz mais do que abre opções para lançamentos. Constrói mais do que destrói linhas com movimentações às costas dos volantes e no espaço entre zagueiros e laterais. Para um time que se condicionou a ter um meia, mais adiantado, retornando até a intermediária para participar da saída (Diego) e um lateral que busque a diagonal para “cair pelo centro” e participar das construções alinhado à Cuéllar e até como meia (Renê), ter um ponta-esquerda que também busque o centro e participação no desenvolvimento do ataque e não apenas em sua conclusão, causa um congestionamento no setor que excede em “arcos” para uma única “flecha” (Uribe). Logo, Marlos é escolhido para iniciar a partida.

E neste contexto se insere o maior equivoco da noite. No dia 23 de maio de 2018, Flamengo e River Plate empatam em jogo sem gols no Monumental de Núñez. Lucas Paquetá recebe o terceiro cartão amarelo e está fora do primeiro jogo da fase seguinte. 77 dias de preparação para a ausência do segundo melhor jogador da temporada. E seja por falta de contratações da diretoria ou alternativas por Maurício Barbieri, o fato foi que sua ausência foi muito sentida. Paquetá, que já jogou em todas as posições do meio para frente, vem cada vez mais sendo recuado para possibilitar a presença de três camisas 10 no meio-campo titular. Inibe-se suas aptidões ofensivas, atuando na organização, ritmo e distribuição do jogo ao lado de Cuéllar. Mas o que ele agrega coletivamente para equipe, nenhum outro jogador no elenco consegue repetir. Desarma, marca, compensa as subidas de Rodinei; intenso e agressivo no pós-perda da bola; abre linhas de passe se projetando para frente para posições que lhe permita atrair as linhas de marcação e agredi-las, seja com dribles ou passes mais verticais; a opção de desmarque e presença na área para a conclusão da jogada ao se infiltrar. Erra como qualquer jogador erraria, e ainda é imaturo para reconhecer quando o risco pode custar caro, principalmente por ter uma mentalidade de meia-atacante e não de volante, que é onde está e é obrigado, para que tal 4-1-4-1 exista.

Ter Jean Lucas na equipe não é o suficiente. E tê-lo em campo para emular qualquer um de seus veteranos é erro crasso e imperdoável aos deuses do futebol. O garoto do Ninho é um segundo volante físico, de condução e infiltração. Não é seu forte organizar, atuar mais adiantado entrelinhas, dando opção para passes que rompam a marcação. Diego tampouco. O 10 rubro-negro nunca foi na carreira esse meia-armador cerebral, que lê a marcação e com um passe e drible abra espaços para os companheiros progredirem no lance. Sempre foi um meia-atacante com menores obrigações defensivas, de condução de bola aliada à boa finalização, que ao longo de sua carreira, para se manter no futebol europeu cada vez mais físico dos tempos atuais, se “redescobriu” mais à beirada como meia-direita, com maior espaço para desempenhar seu futebol.

Mas desde sua chegada ao Flamengo voltou ao centro do meio-campo. Teve boa fase em sua chegada, atuando livre para cair nos espaços que quisesse, livre para conduzir o quanto quisesse, para atuar próximo ao centroavante. Mas em 2017 teve crise de identidade e se posicionou cada vez mais como esse meia-armador recuado que rege à saída. Mostrou certas aptidões, é verdade, como seu bom controle de bola e proteção, desacelerando o jogo para manter a posse a favor da equipe, pausando quando o jogo se tornava acelerado demais, beneficiando as equipes reativas que confrontava. Mas, para um time que já possui um excesso de jogadores passadores e ditadores de ritmo, cadenciar ainda mais não é a chave. Não possui a vitalidade, físico ou inventividade nos dribles de Paquetá; não possui a criatividade nos passes verticais e nos giros que produzem situações favoráveis para o avanço dos laterais ou nas diagonais finalizadas com preciso chute de fora-da-área, tão característicos de Everton Ribeiro. Porém, ainda é o epicentro do momento ofensivo da equipe. A bola tem que passar pelos pés do 10.

E nesse panorama o Cruzeiro, em atuação correta, se aproveita para tomar as rédeas da partida, mesmo desconhecendo qualquer soberania na posse da bola. Controla e ritma o jogo sem ela. Entende as fraquezas do adversário e a expõe para todos. Deflagra toda a dependência da equipe rubro-negra a seus garotos. Um, já suspenso. O outro, já na Europa. Obriga o Flamengo, tão conhecido por seu jogo interior, pela qualidade de seus meias, a buscar exaustivamente as beiradas, na tentativa de encontrar a referência de Uribe. Pressiona intensamente a posse de Cuéllar e Diego, fecha espaço nas laterais com triângulos de marcação pela direita (Robinho, Edilson e Henrique) e esquerda (De Arrascaeta, Egídio e Lucas Silva). Com Thiago Neves como referência para o desafogo por baixo, na busca de um momento ofensivo mais articulado. Com Barcos para a vitória na primeira bola, seja por chutões ou lançamentos ao mesmo, não importa. Se posiciona de forma inteligente, fugindo do gigante Réver e do vigor de Léo Duarte, ora caindo mais às costas de Cuéllar, ora buscando se impor sobre os laterais. Há vários jeitos de ser a referência de uma equipe: no pivô e retenção da bola até a aproximação dos companheiros em blocos compactos; no 1 toque para atração da marcação e ataque nos espaços vazios; e a referência que atua na quebra da primeira bola, para manter o ataque com presença no campo adversário. Com a vantagem no placar logo aos 10’, com De Arrascaeta, a situação é cada vez mais favorável aos visitantes.

Jean, inócuo e perdido para jogo de tal magnitude, é incapaz de manter forte pressão no portador ou oferecer desmarques entrelinhas para seus companheiros. Marlos, ainda que mais insinuante, conseguindo certas vitórias individuais por meio de seus dribles, não consegue manter bom rendimento nas suas tomadas de decisão. Chutes e passes finais na última escolha prejudicam seu desempenho final. Diego, sobre a pressão de ritmar e conduzir a equipe à frente, se vê consumido pelo seu papel e torna a saída burocrática e previsível, com poucos momentos de êxito em abrir as linhas cruzeirenses. Everton Ribeiro, sem conseguir receber a bola mais à frente onde rende mais, recua em demasia, reduzindo a quantidade de opções para passe no terço final de campo, e muito longe para passes mais incisivos e chutes mais perigosos. Lhe resta apenas buscar a amplitude com Rodinei e em alguns momentos com Jean Lucas. Cuéllar é o único do meio-campo que continua lúcido em meio ao desequilíbrio emocional da equipe, com seus costumeiros 71 passes certos (91% de aproveitamento nos passes) e 7 de 8 bolas longas bem-sucedidas.

E Barbieri, que tinha que buscar alternativas para reverter o placar, mostra imaturidade ao não reconhecer que o placar de 1 a 0 o manteria vivo na competição. Tira Jean Lucas para entrada de Vitinho. No meio-campo Diego e Everton Ribeiro, mesma dupla que estava na desclassificação no Campeonato Carioca para o Botafogo, quando Carpegiani ainda era o técnico, tornam o meio frágil, sem força para marcação e sem recursos parar abrir fortes retrancas. Previsibilidade. Nos gestos, no desespero de alçar bolas para área em profusão e verem todas serem rechaçadas por ótimas versões de Dedé e Léo, na entrada de um jovem centroavante que sem ser acionado com qualidade, pouco pode fazer. E em um Cuéllar, cansado por correr o campo todo de ala a ala cobrindo as costas dos laterais e meias. Assim como no claro segundo gol que viria, para dar um banho de água fria em qualquer interesse de conquistar a América. Aos 78’, Thiago Neves devia chute para o fundo das redes de Diego Alves, que ainda que tenha salvado outros lances, nada pode fazer para impedir os gols cruzeirenses. No que vale ressaltar a pífia desatenção da defesa rubro-negra em continuar constantemente levando gols pela esquerda, povoada por jogadores pouco agressivos na marcação, denotada em Robinho dominando a bola quase livre de marcação dentro da área, aproveitando da sonolência da última linha para aplicar lindo passe de ruptura para o gol de abertura.

Com isso, o jogo de volta toma ares apocalípticos e de difícil reversão. Exaltando a falta de competência não só dos jogadores em reverter resultados, feito quase extraordinário para esse elenco, mas também da comissão técnica e diretoria de não reconhecer as falhas em seu elenco e encontrar alternativas, seja elas quais fossem, para atenua-las.
 


Matheus Miranda analisa os jogos do Mengão no MRN. Siga-o no Twitter: @Nicenerd04

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo

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