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Ao longo da história do Brasileirão, o Flamengo acumulou vitórias memoráveis sobre o Inter no Maracanã

 
Como esquecer a virada na raça por 2 a 1 que quebrou série invicta do futuro campeão brasileiro em 1975? E o gol impossível de Zico, que deu o triunfo por 1 a 0 na largada para o primeiro título nacional em 1980? E o golaço de falta de Mozer, digno do Galinho, nos 2 a 0 de 1984? E o toque de letra de Casagrande para as redes nos 3 a 0 de 1993? E o show de Adriano nos 4 a 0 em 2009? E, claro, como esquecer da bola magistral de Andrade para Bebeto chegar antes de Taffarel e nos dar o título da Copa União?

Na história do confronto no Maracanã em jogos válidos pelo Brasileirão pós-1971, são 11 vitórias do Flamengo em 19 jogos, contra cinco dos gaúchos e apenas três empates. Há ainda um triunfo rubro-negro pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1970 (1 a 0, gol de Fio Maravilha), além de outros em competições nacionais e internacionais, como a Copa do Brasil e a Taça Libertadores da América. Mas entre tantas partidas especiais, há uma em que a sintonia entre jogadores e torcida, uma atuação memorável e a prova definitiva da capacidade de superação de uma equipe se mostraram mais nítidas, mais exemplares.

Aconteceu no Campeonato Brasileiro de 1992. Vindo do título estadual em dezembro do ano anterior, o Fla até que havia começado bem a campanha naquele ano e chegara à liderança na quinta rodada, após vencer o São Paulo de Telê Santana por 3 a 2 no Maracanã. Mas na metade do turno, o time acumulara seis jogos sem vitória, culminando em uma indigesta derrota por 4 a 2 diante do Vasco – na época, o time a ser batido no campeonato. No começo de abril, os rubro-negros ocupavam a 13ª posição na tabela, mais próximos da lanterna do que da ponta. Mas as coisas mudariam dali por diante.

O time venceria o Atlético-PR no Maracanã, o Corinthians no Pacaembu e empataria o Fla-Flu. Sofreria novo abalo na confiança com uma derrota inesperada para o Sport também no Maracanã – que levou muita gente a enterrar as chances de classificação do time de Carlinhos. Mas, em meio ao perde e ganha entre os demais times que brigavam pela vaga, o time se reabilitaria derrotando Paysandu e Goiás no Rio e empatando com a Portuguesa no Canindé. Chegaria ao domingo decisivo em quinto lugar, empatado em pontos com Santos, Corinthians e o próprio Internacional, mas superando todos eles no saldo de gols.

Apesar de perder para o Bragantino no Beira-Rio em sua estreia, o Inter fez um ótimo início de campeonato. Entre a segunda e a nona rodadas, venceu seis jogos e empatou dois, alcançando a liderança da tabela ao lado do Vasco. Porém, a partir dali, conquistou apenas uma vitória (sobre o lanterna Paysandu, em Belém). O time dirigido por Antônio Lopes, velho conhecido dos rubro-negros, tinha como principais armas dois bons armadores: Marquinhos (que enfrentara o Fla pelo Atlético-MG na Copa União de 1987) e o garoto Luís Fernando Gomes, colega de vários rubro-negros nas seleções brasileiras de base da época.

Mas era um time que jogava fechado, explorando os contragolpes para municiar seus homens de frente, Lima e Gerson. Sabendo que o Flamengo partiria para cima empurrado pela massa rubro-negra (mesmo precisando apenas do empate), o Colorado naturalmente abusaria da retranca, aguardando a hora certa de sair para matar a partida e enfim garantir a classificação entre os oito melhores colocados para a fase seguinte, da qual já tinha estado tão perto antes.

E a massa viria mesmo, em peso. Por determinação do presidente rubro-negro Márcio Braga, na época também secretário de Esporte e Lazer do estado do Rio, os torcedores do clube uniformizados não pagariam passagem na barca Niterói-Rio das 14h30 (um acordo para a mesma promoção nos trens dos ramais Japeri e Santa Cruz do mesmo horário foi anunciado, mas infelizmente não chegou a se concretizar). Tudo para levar todo mundo ao velho Maracanã naquele domingo, 31 de maio de 1992.

Quase 80 mil torcedores compareceram – disparado o melhor público do Fla na primeira fase contra equipes de fora do Rio – e viram o Fla entrar em campo com um meio-campo mais combativo, tendo Uidemar, Júnior, Marquinhos e Zinho, com Gaúcho e Nélio na frente e Paulo Nunes no banco. O Inter também vinha com dois volantes, deixando Luís Fernando na reserva e toda a criatividade nos pés de Marquinhos. O jogo começou morno, já que, naquele momento, o resultado garantia ambos.

Mas os alto-falantes do Maracanã anunciaram um gol do São Paulo contra o Náutico no Morumbi, o que eliminaria os gaúchos. Surpreendentemente, porém, o time de Antônio Lopes não mudou a postura defensiva. E começou a pagar caro. Aos 37, Zinho fez fila na defesa adversária e foi parado com falta. Os dois Juniores, o Baiano e o Vovô Garoto, apresentaram-se para a cobrança, mas o zagueiro deixou passar para o experiente meia rubro-negro, que bateu de maneira magistral, entrando bem no canto e sem dar chances ao paraguaio Gato Fernández, arqueiro colorado.

Embalado e empurrado pelas 80 mil vozes, o Fla domina amplamente as ações. E o segundo gol surge logo no início da etapa final: Uidemar alça a bola para a área e Nélio inicia uma tabelinha de cabeça, passando pelo alto a Gaúcho que, mesmo marcado por dois, testa contra Fernández. O arqueiro só espalma, e a bola sobra para Zinho – cumprindo atuação extraordinária ao lado de Júnior – estufar as redes.

Com a vaga na mão, o Fla relaxa, toca a bola, administra o resultado, enquanto a torcida canta feliz. Ao apito final do jogo e da rodada, sabe-se que a equipe de Carlinhos terá pela frente Vasco, São Paulo e Santos no quadrangular semifinal. O time, porém, não teme mais nada nem ninguém. Nem mesmo a dita “SeleFogo”, adversária na decisão do torneio. A comunhão com a torcida tornara o time irresistível. E o resultado daquela simbiose nascida ali naquele jogo com o Internacional pode ser conferido na sede da Gávea: a taça (de bolinhas) do Campeonato Brasileiro de 1992.


 

Imagens utilizadas no post e redes sociais: Reprodução

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Emmanuel do Valle é jornalista e pesquisador sobre a história do futebol brasileiro e mundial, e entende que a do Flamengo é grandiosa demais para ficar esquecida na estante. Dono do blog Flamengo Alternativo, também colabora com o site Trivela, além de escrever toda sexta no Mundo Rubro Negro.
 

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