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Toda semana eu tento entregar ao Diogo, editor e fundador deste espetacular Mundo Rubro-Negro, um artigo para sair no domingo aqui no Ethos Flamengo. Combinamos este dia da semana por entender que seria mais afeito a reflexões, e independer de resultados no campo – se o jogo fosse sábado, não poderia ser mencionado, se for no domingo o leitor teria acesso antes.

Infelizmente, a vida não deixa a gente acertar o planejamento das coisas. E quem tem filhos tem pressa. Imaginem vocês: dois jogos do Brasileirão já se passaram (e o terceiro isloading) e não atualizou o Ethos Flamengo. Pior: além de só atualizar nesta terça-feira, dia 24 de julho, ainda vou voltar uma semana no tempo para discutir uma questão flamenga que vejo ser da maior necessidade: como fazer oposição (algo fundamental) no Maior Clube do Universo.

Dois fatos me levaram a esta reflexão – e que coloca acima mais como pergunta do que como resposta. O primeiro fato, a incompreensível campanha contra um dirigente chamado Taves (a quem não conheço), que seria, segundo dizem, torcedor do Corinthians. O segundo fato, a derrota para o São Paulo e um comentário de uma torcedora de oposição – “Foram vender o Éverton, olhaí” – que dá a entender que a culpa do mau resultado foi, efetivamente, da venda de um dos nossos jogadores para o rival.

Ambas as teses, o leitor que é iniciado em ciência política já percebeu, são meras narrativas. Ou seja, textos que elevam uns atributos e diminuem outros conforme a necessidade do criador – e volta e meia acrescenta-se meias-verdades. São as narrativas pós-modernas dos justiceiros sociais que nos fazem frequentemente perder as estribeiras com tuiteiros que postam piadas idiotas racistas e desejar prisão, cadeia, etc – quando meses antes estávamos pregando que determinado homicida, por ser menor de idade, deveria ser perdoado porque não teve escola ou família.

É óbvio que o tal youtuber é um idiota contumaz, mas daí a colocar o mesmo numa prisão ao lado de traficantes e homicidas vai uma longa distância. Mais longe do que aquela que vai entre entender problemas sociais e achar que uma pessoa por ser pobre tem direito de cometer homicídio e permanecer em liberdade.

No entanto, se você encaixar uma narrativa certa, pode fazer a Janela de Overton conduzir a opinião pública para um cenário em que se condene mais o youtuber do que o homicida.

No Flamengo, por mais que eu tenha críticas à forma com que a administração conduziu o futebol (sem títulos até agora), me parece que há um esgotamento das narrativas anti-gestão azul. Exemplo claro disso são essas duas. Passemos por algumas linhas sobre o caso do Taves (não escrevo o primeiro nome porque neste momento nem lembro).

1- Ao que parece, foi muito bem-sucedido na comunicação. Sincera e honestamente? Claro que ele deve ser competente. Mas ser bem-sucedido na comunicação de um clube com 40 milhões de torcedores é difícil e fácil ao mesmo tempo. É difícil porque a mensagem precisa ser perfeita. É fácil porque não falta gente para cumprir as metas de métricas.
2- Ah, ele é Corinthians? Bom, eu passei alguns anos fazendo matérias críticas à Polícia Militar e um dia me tornei o assessor civil da corporação e lá fiquei cinco anos. Podem ter certeza: seria muito mais difícil para um policial aceitar a presença de um repórter outrora contestador do que para nós aceitar um dirigente que torce por outro clube.
3- Como foi surgir essa campanha se justamente ao que parece o cara…cumpriu e até bateu as metas?

Bom, passemos ao caso de Éverton, que é realmente um bom jogador e fez vários gols decisivos pra gente – embora não fosse nenhum Einstein dentro de campo. Mas sinceramente, no dia em que o Flamengo tiver que chorar saída de Éverton (como ficamos semana passada quase lacrimejando a saída de Jonas) é porque estaremos num nível abaixo até do Vasco. Acho que precisamos de compostura. Precisamos tanto de oposição quanto de compostura. E uma oposição forte, com atuação fiscalizadora, não pessoas que só querem falar “olhaí não falei?”. A compra, por exemplo, do tal Everton Fellipe (que me parece uma compensação pela saída do Éverton e do Felipe Vizeu), precisa ser investigada, cobrada, apurada, pois o sujeito ano passado estava operando os ligamentos. Aí sim.

Nós temos a compulsão – nós, humanos – de nos organizar em grupos de preferências, simpatias e preconceitos (sim, preconceito é uma palavra feia mas pode salvar sua vida numa selva). E ser “anti” é uma compulsão que nos atrapalha o raciocínio – vide o caso dos anti-rubro-negros. No livro (magistral) A Descoberta do Outro, do pensador Gustavo Corção (1896-1978) há uma sublime passagem sobre, por exemplo, o anticomunismo. Que reproduzo abaixo:

Outro exemplo impressionante e um pouco mais atual é o do anticomunismo militante praticado por alguns católicos, como oposição essencialmente definidora de um autêntico cristianismo. O comunismo pode ser definido ao longo de dois vetores antinômicos: de um lado é uma racionalização do mal, atribuindo todo sofrimento humano ao desequilíbrio econômico. Do lado oposto, nos processos de retificação, contém um voluntarismo revolucionário irracionalista.

Ora, o anticomunismo cai exatamente na mesma antinomia, porque de um lado racionaliza o Mal vendo-o totalizado no comunismo, e de outro lado adota, para a supressão daquele mal, a mística de uma ordem contrarrevolucionária, igualmente irracionalista. Entram na dialética para combater os dialetas.

Meu xará, frequentemente associado ao conservadorismo (uma leitura do livro mostra que ele é conservador sim, mas vai mais longe do que esse rótulo) acertou na mosca: “de um lado racionaliza o Mal vendo-o totalizado no comunismo, e de outro lado adota, para a supressão daquele mal, a mística de uma ordem contrarrevolucionária”.

Não estou comparando, evidentemente, a Gestão Azul com nenhuma forma de marxismo – mas com certeza vejo certo tipo de oposição fundada em narrativas como a entidade denunciada por Corção neste artigo, com a “mística de uma ordem contrarrevolucionária”. Criaram-se memes como o “contrata, Flamengo”, construíram-se narrativas de que estamos parados no tempo, quando na verdade o clube segue, como todos os clubes brasileiros, com alguns erros de planejamento. Mas diferentemente de todos os outros brasileiros, em condições de repatriar jogadores de 24 anos de clubes estrangeiros.

O amigo de oposição que me leu até aqui e acha que eu estou querendo ensiná-lo a criticar os Azuis, já peço desculpas de antemão. De forma alguma. A minha proposta aqui é a de buscar os motivos verdadeiros para críticas, mas, diferentemente de outros clubes, criar uma oposição eclesiástica – já que estamos tratando do clube mais importante do universo. Digo “eclesiástica” na falta de uma expressão melhor, pois quero citar exatamente o exemplo da Igreja Católica. No Concílio Vaticano que terminou em 1965, diante de filosofias materialistas e antropocêntricas cada vez mais dividindo a Igreja, o Papa Paulo VI sacramentou em tom definitivo: “O que nos une é muito maior do que o que nos separa”.

É basicamente como eu vejo o Flamengo. Uma família indissociável – e que há alguns anos atingiu um estágio superior a todos os outros clubes brasileiros no quesito orçamento familiar. Falta, claro, restabelecermos supremacias e hegemonias dentro de campo, mas eu creio que será questão de tempo. Vamos precisar de todos, situação, passadores de pano, oposição e, não, não vamos precisar de gente que cria estado de insegurança contra profissionais, se é que me entendem.

Esta união, esta transformação do Flamengo em rocha sólida e inquebrável, é urgente e necessária para enfrentar o que vem por aí. Fomos descobertos. Agora eles sabem que o Flamengo está vivo e com instinto predatório – vão nos caçar por todos os lados, vão colocar arbitragens, vão promover tumulto, vão usar jornalistas, tudo para conter o retorno brutal do Flamengaço ao papel de Senhor Supremo e organizador de big-bangs que dão origem a universos.

Eles estão e estarão desesperados. Caberá a nós estarmos unidos. Criticando, reclamando, mas entendo o momento histórico e agindo com a serenidade dos grandes líderes que sabem estar dando passos decisivos.

Rumo às vitórias!
 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Divulgação / FIFA

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Gustavo de Almeida é jornalista desde 1993, com atuação nas áreas de Política, Cidades, Segurança Pública e Esportes. É formado em jornalismo pela Universidade Federal Fluminense. Foi editor de Cidade do Jornal do Brasil, onde ganhou os prêmios Ibero-Americano de Imprensa Unicef/Agência EFE (2005) e Prêmio IGE da Fundação Lehmann (2006). Passou pela revista ISTOÉ, pelo jornal esportivo LANCE! e também pelos diários populares O DIA, A Notícia e EXTRA. Trabalhou como assessor de imprensa em campanhas de à Prefeitura do Rio e em duas campanhas para presidente de clubes de futebol. É pós-graduado (MBA) em Marketing e Comunicação Empresarial pela Universidade Veiga de Almeida. Atualmente, escreve livros como ghost-writer e faz consultorias da área de política, além de estar trabalhando em um roteiro de cinema.
 

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