Entre o estágio e a efetivação: é a pegada da crônica do jogo desta 5ª Rodada de Campeonato Brasileiro, ainda que se entendam os porquês

 
Uma Chape fraca tecnicamente, que na aplicação tática e jogando nos erros e fraquezas do visitante, leva os 3 pontos em casa contra um desfigurado rubro-negro carioca, poupando quase todos os titulares para o jogo de quarta-feira pela Libertadores e por ausência no elenco de peças compatíveis com as funções exercidas por Éverton Ribeiro e Paquetá nos jogos anteriores.

Houve necessidade de se formatar um time “às pressas” para esse jogo especifico. Entretanto, há sempre algo a se tirar de jogos como esse. Assim como diagnósticos a serem dados.

Barbieri pode ser profissional de futuro promissor, conhecedor de táticas e apto para tirar o melhor do elenco que tenha em mãos. Contudo, demonstra certas fraquezas na leitura de jogo, incapacidade de impor-se no elenco para substituir jogadores veteranos que não estejam entregando o que se espera deles e falta de confiança ou quem sabe, ousadia, para fazer testes que podem vir a ser úteis ao longo da temporada.

Flamengo veio a campo em um 4-1-4-1 tendendo ao 4-3-3 com Marlos Moreno (fora de posição) e Rodinei (improvisado) como alas/pontas, Diego na função de meia-atacante/ponta-de-lança, com Trauco armando pela ala esquerda. E defendia em duas linhas de 4 mantendo Diego e Guerrero mais soltos nas obrigações defensivas. E aí residiu o primeiro pecado do jogo dessa tarde de domingo por Barbieri.

Ainda que virtualmente o time devesse se comportar bem e impor-se em campo pela qualidade claramente superior, não foi o que aconteceu. Chape fez marcação em uma linha de 4 e duas linhas de 3, onde o trio de ataque sempre pressionasse em linha alta quem estivesse com a bola, e um dos volantes (Canteros e Márcio Araújo) adiantando para cobertura, até muitas vezes passando da linha de meio campo, mantendo sempre 2 ou 3 em cima de quem tinha a posse. Caso Flamengo passasse dessa primeira linha alta, pegaria a defesa do time anfitrião desguarnecida e em menor número, com chance de produzir boas triangulações. Só que o xis da questão foi: quem faria tal saída de bola?

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Jonas, ainda que tenha qualidade nos lançamentos e em certas inversões, teve uma partida do ponto de vista técnico sofrível. Se isentou de dar opção de passe aos zagueiros e laterais inúmeras vezes, aceitando a marcação exercida pela primeira linha de defesa da Chapecoense. Isso tornou o time burocrático e indeciso, girando a bola sem objetivo, esperando um espaço que não viria sem um passe mais agudo, criativo.

Jean Lucas, ainda que seja um jovem promissor, é um jogador de intensidade e infiltração. Típico volante com explosão e qualidade na chegada ao ataque e arremate. Mas não um volante cerebral, que leia os caminhos do campo, que seja o regente da equipe, funções estas exercidas por Cuéllar e Paquetá no time titular. Como o time sentiu falta da dupla!

Nessa perspectiva, as melhores saídas de bola consistiam em bolas longas ao ataque, preferencialmente à Guerrero, tentadas com maior eficácia por Juan (4 certas em 9 tentativas) e Trauco (5 certas de 11 tentadas), para que fizesse a proteção em meio a volantes e zagueiros e iniciasse a construção das jogadas, exercendo o papel de meia-armador. O peruano mostrou-se voluntarioso, buscando jogadas por toda a faixa de ataque. Centroavante de rara técnica, teve atuação complicada pela falta de ritmo, ao vencer apenas 9 de 20 divididas, e a costumeira dificuldade de decisão em certas jogadas agudas e cruciais, com as mais claras aos 14 minutos do 1º tempo, em jogada individual pela esquerda, isolando o chute à linha lateral inversa (jogo estava 0 a 0) e a melhor chance do jogo aos 17’ do 2º tempo, ao invadir a área com a bola dominada e chutar torto longe do gol (estava 1 a 1 e já tinha feito um gol de cabeça em falta cobrada por Trauco).

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Com essa dificuldade apresentada, a Chapecoense se postava em campo à espera de erros da equipe visitante, criando o gol de abertura do placar, no segundo grande pecado de Barbieri na escalação inicial: o corredor esquerdo. Apodi é conhecido por ser lateral de grande força no apoio ao ataque e veloz, com claras fraquezas defensivas. Com isso, ter na ala esquerda da defesa Marlos Moreno, Trauco e Juan, foi o prenúncio do suicídio.

O colombiano, ainda que com lampejos de habilidade ao longo dos 90 min, possui dificuldade em exercer obrigações defensivas com intensidade. Trauco é o lateral mais técnico do elenco mas possui óbvias dificuldades de cobrir a falta de mobilidade e explosão de Juan, por sua baixa estatura e velocidade. Ainda que tenha feito 6 desarmes e vencido 9 dos 16 duelos disputados, foi incapaz de interceptar o cruzamento rasteiro de Apodi, após perda de Marlos no combate à Canteros, que tabela com Guilherme Augusto, lança o lateral na ponta aproveitando carrinho no vazio de Juan, que termina por se infiltrar no espaço abandonado pelo veterano e concluindo a gol após erro de cobertura de Jonas. Falha coletiva capitaneada pelas dificuldades físicas do zagueiro de 39 anos. Lei do Ex aplicada com sucesso.

Após a falha, Chape ganha terreno e tem outras chances de ampliar o placar, a primeira em falha de César que chuta em cima do atacante, e outra em cabeçada perigosa que raspa a rede pelo lado de fora. E muito desse domínio vêm da ausência de um meia ou de um jogador que armasse o jogo pela zona central.

Os pontas espetados foram pouco acionados em passes verticais, Diego, em atuação apagadíssima no 1º tempo, se posicionou mais adiantado, fechando como um segundo atacante próximo a Guerrero. Só que, como a transição não existia, recuava para fazer a saída de bola, mas por não ter os predicados à função, aumentava a passividade à marcação e burocracia da saída de bola. Em muitos momentos, poderia se dizer que Flamengo atuava em um 4-2-4, evidenciando o claro espaçamento de seus setores. Com isso, muitos chutes de fora-da-área, mas pouco perigosos à meta de Jandrei.

Na volta ao 2º tempo, há certa correção no posicionamento ofensivo pelo lado esquerdo. Com Marlos caindo e fechando mais a diagonal, permitindo que Trauco usufruísse do corredor. Culmina na falta batida por Trauco, alta e na segunda trave, arrematada quase sem ângulo em cabeçada de Guerrero. Gol de empate, momento de alívio.

Entretanto, a falta de qualidade na saída de bola persiste e o Flamengo continua trocando passes sem objetividade na própria defesa, além do lado direito continuar inofensivo com fraca atuação da dupla Pará-Rodinei. O jogo se torna mais truncado no meio, e as chances de perigo só surgem em lances de bola parada e o contra-ataque desperdiçado por Guerrero, já comentado.

E aos 20’ 2º tempo , falha clamorosa na saída de bola de Juan, condicionada pela má distribuição apresentada desde o início da partida – e em nenhum momento Barbieri tendo esboçado vontade de corrigi-la. Desarmado, permite que Guilherme invada a área e ao sentir o braço de Jonas sobre seu ombro se joga e consegue cavar o pênalti. Chapecoense mais uma vez à frente no placar.

Aos 25’ 2º tempo, Barbieri retira de campo Jean Lucas para entrada de Vinicius Jr,retornando Marlos Moreno à sua posição de origem, pela direita, que estava tendo uma atuação correta até ali e auxiliando Jonas na marcação (3 desarmes e 9 duelos de 15 disputados), para manter Diego em campo, que ainda que apresentasse uma melhora técnica (terminou o jogo com 4 passes decisivos), não tem características de armador e ao ser recuado para segundo volante, diminuiu consideravelmente o poder de marcação (0 desarmes, interceptações e chutes bloqueados) e manteve a lentidão da distribuição (1 bola longa tentada e malsucedida).

Entretanto, a estrela de Vinicius Jr brilha novamente. Aos 32, ainda que anulado desde sua entrada, devido principalmente à falta de criação da equipe, finaliza com extrema destreza mais um cruzamento de Trauco. Gol. E mais uma vez, igualdade no placar.

Barbieri insiste no erro e não corrige a criação da equipe. Faz o óbvio. “Quer gol? Coloca atacante”. Logo, Dourado em campo. Sempre voluntarioso na marcação, consegue 1 desarme, mas com a nulidade do sistema criativo e em nenhum momento sanada por Barbieri (entradas de Ederson e Cuellar nos lugares de Diego e Pará seriam mais eficazes, ou mesmo adiantar Trauco para a meia com entrada de Renê), sequer finaliza. A entrada, mais tarde, de Cuéllar, pouco agrega ao panorama da partida.

Contudo, a bola pune. Persistir em seus erros sempre tem um preço a pagar. E não ter corrigido o sistema defensivo pela esquerda pesou no final. Antes da entrada da grande área, cruzamento executado mesmo sob marcação de Cuéllar, pane geral na defesa, falha clamorosa, agora de César (que se apresentou inseguro e fora de ritmo durante os 90 min), derrota decretada e fim da partida.

Vale frisar que mesmo com as ausências de titulares, era possível levar a campo um time mais coeso e equilibrado, com testes e opções para o futuro da equipe, demostrando força e independência sobre o elenco para fazer o que for necessário visando a vitória acima de tudo, e não a relação cordial e amistosa com o elenco e seus medalhões. Precisamos de técnico. E não creio que seja o Barbieri. Ainda “Segue o Líder! ”, mas sem oba-oba e com todos os pés possíveis plantados no chão.

Abaixo, para instigar à discussão de outras possibilidades, escalação alternativa a esse time alternativo (em vermelho/amarelo como seria a escalação inicial e em branco/preto pós-substituições).


 

Imagem destacada nos posts e nas redes sociais: Staff Imagens / Flamengo

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Matheus Miranda analisa os jogos do Mengão no MRN. Siga-o no Twitter: @Nicenerd04
 

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