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O Flamengo iniciou o campeonato carioca de 1986 com um time estrelado. Uma goleada de 4×1 contra o Fluminense, com três gols de Zico e o auxílio luxuoso de Mozer e Sócrates, resguardados lá atrás pelo bom e velho Cantarelli. Mas o time que chegou a decisão contra o favorito Vasco da Gama, de Roberto Dinamite e Romário, artilheiros do campeonato, não teria Zico, Sócrates, Mozer e Cantarelli. Teria ainda Leandro, Andrade e Adílio, comandando um time de garotos.

Um dos garotos era o goleiro Zé Carlos, que subiu ao time principal após uma lesão de Cantarelli e não saiu mais. Na final da Taça Rio, um épico 3×2 contra o mesmo Vasco, campeão da Taça Guanabara, Zé Carlos fez em cabeçada de Morôni a defesa que salvou o título e que ele mesmo considerou, durante toda sua vida, a sua maior defesa, ao lado do chute de Túlio, na pequena área do Serra Dourada, na final da Copa do Brasil de 1990.

Porém, já no final da carreira, quando defendia o Tubarão, de Santa Catarina, Zé Carlos disse ao autor deste texto que a defesa que ainda aparecia em seus sonhos era outra. Uma defesa que quase ninguém viu.

Zé Carlos era o goleiro dos juniores do Flamengo em 1981, e o time de garotos foi chamado para enfrentar a seleção brasileira principal, no dia 5 de maio. Era apenas um coletivo no Maracanã, parte da preparação do Brasil de Telê Santana visando a excursão européia. Nada disso importava a Zé Carlos, que só tinha um pensamento: “Zico vai jogar contra o Flamengo e eu sou o goleiro”.

O Maracanã estava fechado para o público, mas Zé Carlos sentia aquelas arquibancadas lotadas. A seleção, de camisas de treino, cercava os juniores do Flamengo, com suas camisas de jogo. “Eu não posso deixar Zico fazer um gol contra o Flamengo”, repetia mentalmente o jovem goleiro. César marcou 1×0 para a seleção e o treino se aproximava do final, com Zico jogando longe da área.

Então aconteceu um pênalti. Para todos, só mais um lance do coletivo, que seria esquecido na história. Para Zé Carlos era um pênalti que Zico cobraria contra o Flamengo, com ele no gol. Zico contra o Flamengo era a inversão da ordem natural das coisas, mas lá estava ele ajeitando a bola na marca fatal.

Zé Carlos via quase todos os dias Zico cobrando pênaltis na Gávea. Canto direito, canto esquerdo, não havia como prever. O único padrão era a bola entrando rente ao poste. Não bastava acertar o lado, era preciso saltar como nunca.

Com o sol na cara, Zé viu seu ídolo correr para a bola e pensou “vou para o canto esquerdo”. Quando Zico firmou o pé de apoio, Zé Carlos voou com as mãos espalmadas. Em câmera lenta, viu a bola crescer em sua direção, não parecia possível alcançá-la. Esticou os braços até o limite da musculatura e, de olhos fechados, sentiu que algo havia tocado a ponta de seus dedos. Quando caiu no chão, abriu os olhos. A rede não estava balançando e a bola quicava além da linha de fundo.


 

Zico se aproximou do jovem Zé Carlos, passou a mão em sua cabeça e disse: “Boa, garoto”. Mais tarde, no ônibus a caminho de casa, o goleiro não parava de pensar que havia evitado o incestuoso gol de Zico contra o Flamengo, e chorava um choro tão silencioso quanto o Maracanã vazio naquela tarde de terça-feira.

Quando fechava os olhos, ainda podia ouvir a voz de Zico: “Boa, garoto”.

 
Mauricio Neves é autor do livro “1981- O primeiro ano do resto de nossas vidas” e escreve no MRN todas as sextas-feiras. Siga-o no Twitter: @flapravaler

 


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