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É estratégia do Flamengo: subsidiar o ingresso e lotar o estádio em jogos de baixo apelo, criando um hábito de consumo que parecia perdido.

Por Walter Monteiro – Twitter: @womonteiro

O tema da lucratividade do Flamengo no Maracanã segue em alta. Li algo sobre um prejuízo acumulado de R$ 290 mil no Campeonato Carioca, o que dito assim, sem qualquer reflexão prévia, apenas aumenta a raiva do torcedor contra os donos do Maracanã e a gritaria por um estádio próprio.

Semana passada escrevi um artigo sobre isso. A ideia era provar que o Flamengo está tendo prejuízo porque decidiu cobrar menos e levar bastante gente a jogos que não valem nada. A lógica que norteou a assinatura do contrato era de que o clube precisaria ter sempre mais de 20 mil pagantes e um preço médio de R$ 30,00 para poder ter lucro. No entanto, cobrando R$ 12,00 ou R$ 16,00 de seus sócios, o Flamengo tem um ticket médio de R$ 21,46, abaixo do equilíbrio necessário.

Leia mais no Balanço do Flamengo:
As peculiaridades do Maracanã

Parece ainda não ter ficado claro que esses prejuízos fazem parte de uma ESTRATÉGIA do Flamengo: subsidiar o ingresso e lotar o estádio em jogos de baixo apelo, criando um hábito de consumo que parecia perdido. E, quem sabe, no futuro cobrar mais, depois que o hábito estiver consolidado.

Estratégia à parte, o que parece ainda não ter sido completamente compreendido é que por mais que o Flamengo seja mesmo refém da maldita concessão à Odebrecht, parte substancial dos custos tem pouco a ver com a dona do estádio. E precisa ser levada em conta em qualquer que seja o arranjo que o Flamengo venha a ter, jogue no Maracanã como locatário ou proprietário, jogue no Engenhão ou construa seu estádio.

Começando pelo maior deles, a segurança. Por contrato, os jogos devem ter um mínimo de 676 pessoas envolvidas na segurança, incluindo o controle de acesso, os coordenadores, supervisores, líderes, enfim, o time todo. Quanto será que custa cada um desses seguranças, que são formalmente registrados pela empresa? Vamos dizer que uma média de R$ 250,00 (o que garante a cada um deles uns R$ 150,00 pelo trabalho a cada jogo). Só aí já temos R$ 170 mil. Isso, claro, se os valores forem esses.

Grosso modo, jogar no Maracanã tem representado 20% da despesa total dos jogos. Os outros 80% estão divididos entre contas de consumo e taxas do jogo. A partir daí é possível especular outros cenários.

No mesmo fim de semana que Flamengo x Cabofriense jogavam no Maracanã (e o Flamengo lucrava R$ 39 mil), Palmeiras e Corinthians se enfrentaram no Allianz Parque. O borderô da Federação Paulista revela que as despesas desse jogo ficaram em R$ 840 mil (para menos de 40 mil pessoas, o que interfere na quantidade de seguranças). E o Palmeiras levou para casa um lucro líquido de R$ 1,87 milhão. Uau.

Crédito: Gilvan de Souza / Flamengo

O que poucos se lembram de notar é que: a) o Ticket Médio de Palmeiras x Corinthians foi de incríveis R$ 70,47; b) ao contrário do Maracanã, os custos de utilização e manutenção do Allianz Parque não aparecem no borderô da partida, só no balanço patrimonial do clube. Mas eles existem e são altos, podem apostar.

Se a FPF cobrasse o mesmo que a FERJ (que, gulosa, cobra o dobro) e se o custo do Allianz Parque tivesse a mesma proporção que o Maracanã (20%), as despesas do Palmeiras seriam de R$ 1,05 milhão. Cobrando o mesmo que o Flamengo cobra (preço médio de R$ 21,47), o Palmeiras teria tido um prejuízo de quase R$ 223 mil. Já o Flamengo, se cobrasse o que o Palmeiras cobrou, mesmo tendo que pagar a FERJ, teria um lucro estupendo de R$ 1,26 milhão.

Confuso? Vou colocar tudo em uma tabela, colocando o preço médio e incluindo a taxa da FERJ para o Palmeiras, ao mesmo tempo que vou colocar o preço médio do Palmeiras para o Flamengo para projetar o resultado na coluna “Como Seria”:

Custo Estádio Custo Total Lucro Declarado Como seria?
FLA X CAB R$ 202.595 R$ 1.018.235 R$ 39.815 – R$ 222.811
PAL X COR 0 R$ 840.384 R$ 1.876.218 R$ 1.266.190

Insisto: o baixo lucro (ou até prejuízo) que o Flamengo tem muito menos a ver com o Maracanã do que com as demais variáveis envolvidas, notadamente preços mais baixos e taxas da Federação, sem contar a atratividade do jogo. Afinal, ninguém em sã consciência acredita que um Flamengo x Cabofriense fosse capaz de levar ao Maracanã mais de 40 mil pessoas dispostas a pagar um preço médio de R$ 70,00.

É possível melhorar os custos do Maracanã? Sempre é. Por contrato, são exclusividades do Maracanã os fornecedores de segurança, alimentação, TI e manutenção elétrica e hidráulica. Todos os demais o Flamengo tem liberdade para indicar. E mesmo em relação aos exclusivos, como eu disse, o clube pode apresentar projetos de redução de custos.

Porém, muito mais do que a cada jogo ficar praguejando contra a última linha do borderô, é melhor começar a aceitar que os custos de um jogo de futebol são assustadoramente altos e que não há solução mágica ou barata. Daí porque a decisão entre ter ou não ter um estádio passa muito longe dos resultados financeiros do Carioca.

Eu nem queria tocar no assunto sobre a minha opinião pessoal, mas pelo andar da carruagem, o Botafogo não sai do Engenhão, o Vasco cada vez mais usará São Januário e o Maracanã sobrará para nós e o Fluminense. Sendo realista, a tendência é que o Fluminense enfrente alguns anos de forte ostracismo, inviabilizando o uso do Maracanã. Isso acontecendo, o Flamengo deve ser o único clube de futebol da cidade a prover conteúdo para o estádio – o qual, como espero ter demonstrado, está longe de ser o Lobo Mau dos borderôs. Logo, eu esperaria mais uns 2 anos antes de tomar qualquer decisão maior.


walter monteiro


Walter Monteiro é advogado com MBA em Administração. Membro das Comissões de Finanças do Conselho Deliberativo e do Conselho de Administração do Clube de Regatas do Flamengo. Escreve sobre o Flamengo desde 2009, em diferentes espaços.


*Créditos da imagem destacada no post e nas redes sociais: Alexandre Vidal / Flamengo

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