Bandeira de Melo se orgulha de ser um pioneiro. E de fato é o primeiro presidente do Flamengo a tratar nosso clube como uma empresa gigante. Sua gestão como presidente conseguiu feitos notáveis e históricos do ponto de vista administrativo. Uma de suas últimas conquistas foi a saída do Flamengo do Ato Trabalhista. Isso significa que mais de 130 milhões de reais foram pagos em 650 ações que o clube havia perdido. Espera aí que eu vou repetir pra você dimensionar direitinho o tamanho da parada que acabou de ler: seiscentonas e cinquentaças ações. Centomuitas e trintolhadas de milhonetas de dinheiros.

Ele pagou. Resolveu a herança maldita.

Restam, segundo a imprensa, cerca de sessenta ações em curso. Ainda é coisa pra caramba, mas já não temos mais 15% de todas as receitas do clube penhoradas para pagar essas cagadas do passado. Isso incluía bloqueio de dinheiro que entrava de bilheteria, patrocínios, direitos de TV, entre outras coisas.

“Ih, lá vem o Pedro defender o Bandeira”.

Calma, fera. Segura a ondinha e lê aí.

Acontece que essa empresa magnificamente bem administrada ainda é um clube de futebol, sendo esse o ativo que gera a paixão na imensa maioria do seu público consumidor e, portanto, seu principal produto. E nesse quesito, amigas e amigos, a gestão Bandeira está bem próxima do fracasso total até agora.

Passamos por maus bocados necessários e compreensíveis no início da era Bandeira justamente por conta da responsabilidade financeira que impera desde que ele assumiu, mas mesmo nos dias atuais onde a verba já deixou de ser um problema (tão grande), sobretudo se comparada ao dinheiro que os adversários têm para investir, os resultados esportivos do time são facilmente questionáveis.

Esse ano caímos em um grande equívoco coletivo que foi acreditar que tínhamos um bom elenco por conta do investimento milionário feito em contratações. Infelizmente, com o passar da temporada, descobrimos de forma cruel que nos venderam uma ilusão.

Temos sim um time razoavelmente competitivo. Quero dizer que se todos os nossos onze titulares estiverem em campo, podemos jogar com equilíbrio contra a maioria dos adversários e até vencer. Mas quando um ou dois saem por conta de lesão, convocação, piriri ou distúrbios diversos, dá ruim. Quando saem cinco, como é o caso do momento que estamos passando, fudeu.

Agrava a análise do trabalho da diretoria o fato de peças fundamentais desse tal “Time Titular™ só terem chegado no meio da temporada sem poder participar das principais competições do ano, como foi o caso do Diego Alves e do Éverton Ribeiro. Isso é uma prova evidente de falha no planejamento do departamento de futebol. Os cartolas podem até tentar se defender dizendo que as contratações foram “oportunidades”, que envolveram “engenharia financeira” e que tiveram “variantes incontroláveis”, mas, véio, na boa, se tá complicado com os caras, sem eles estaria muito pior e esse time não teria custado muito mais barato. Portanto, sim, Rodrigo Caetano e companhia deram mole.

Outro vacilo já muito abordado por mim aqui nesse espaço foi a demora indesculpável em demitir o Zé Ricardo quando tudo apontava que o trabalho dele já havia naufragado de forma irremediável.

E com isso nos vemos, mais uma vez, chegando ao fim da temporada com uma brochante sensação de termos tido irrisórias participações nas principais competições do ano.

De “favoritos”, fomos pateticamente eliminados na primeira fase da Libertadores e no Brasileiro sequer passamos perto da expectativa de disputar o título.

Vencer o caneco do mais disputado campeonato nacional do mundo é obrigação?

Claro que não.

Chegar no G4 e garantir vaga na Libertadores com a segunda equipe mais cara do país é?

Matematicamente, sim.

Correr o risco de terminar fora de um atípico G7 e sequer estar presente na pré-Libertadores do ano que vem seria um mico?

Com certeza.

Bandeira, do alto de seu trono, assegurou que nunca está satisfeito e que tudo está sempre sob constante avaliação, deixando no ar inclusive a permanência para o ano que vem do técnico colombiano Reinaldo Rueda que chegou outro dia com a chapa já pelando e, de largada, encarou um clássico mata-mata contra o competitivo time do Botafogo pela Copa do Brasil. Organizou a defesa e ganhou. Depois perdeu a final nos pênaltis contra o competitivo Cruzeiro sofrendo com falhas dos dois goleiros que tinha a disposição, algo totalmente além de sua alçada, não é verdade, Rodrigo Caetano?

Rueda também nos conduziu às semifinais da Sul-Americana, fato que não canso de repetir ser um feito e tanto tendo em vista que não chegávamos tão longe em uma competição continental desde 2001. Vamos agora encarar o enjoado time do Junior de Barranquilla no pior momento da nossa equipe no semestre.

Em suas entrevistas, Rueda nunca poupa palavras quando o time vai mal. Assume a responsabilidade e a divide com seus comandados. Cobra publicamente deles entrega e resultado. Isso é algo atípico no Brasil, onde os treinadores locais, mesmo nos piores momentos, têm o hábito de passar a mão na cabeça dos jogadores, esses pobres meninos tão precisados de carinho, com o objetivo de manter a “união do grupo”.

Gosto muito mais da postura de nosso atual treinador. Mas, honestamente, tenho minhas dúvidas do quanto essa atitude não faz com que seus comandados não sintam tanta necessidade de “correr pelo técnico”, esquecendo que honrar a camisa do clube e o contra-cheque recebido deveriam ser motivos mais que suficientes para estimulá-los. Sim, estou me referindo ao famoso corpo mole. E temo que seja isso uma das causas da piora do time.

Torço muito para estar errado. Que a ausência da espinha dorsal da equipe titular que temos hoje seja a explicação para determinadas falhas bizarras que nos acometeram nas últimas partidas. Que nossa camisa pese e vençamos a Sul-Americana inaugurando uma nova fase de bonança esportiva que marque o ano de 2017 como positivo em nossa gloriosa história. Ou que, mínimo do mínimo, ao menos fiquemos na porra do G7 do Brasileirão.

Mas se por ventura isso não acontecer, espero que nosso presidente seja novamente pioneiro e banque a investida no vitorioso comandante colombiano ao invés de nos manter reféns de uma eterna panela corporativista de pernas de pau que insiste em imperar nos gramados brasileiros. Há um bonde de jogadores para serem dispensados antes de se pensar em mandar o Rueda embora. Um bonde. E todos sabemos disso.

Dar tempo e condições para que seu trabalho apareça, ao contrário de diretorias de outros clubes que naufragaram em experiências similares, desistindo de competentes e experimentados técnicos gringos por conta da má vontade de jogadores mimados que sempre vão preferir chefes miguxos da galera, faria dele pioneiro em mais uma importante frente.

Então, Bandeira, qual vai ser?

 


Pedro Henrique Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1982, já com uma camisa do Flamengo pendurada na porta do quarto na maternidade. Desde que estreou profissionalmente em 2001, alterna-se com sucesso nas funções de ator, diretor, roteirista e dramaturgo em peças, filmes, novelas e seriados. É autor do romance “Gigantes” (Editora Paralela/Companhia das Letras – 2015). Siga-o no Twitter: @pedroneschling
 

Imagens destacada no post e nas redes sociais: Gilvan de Souza / Flamengo