Hoje as palavras não são minhas, mas compartilho com o autor a tristeza, o luto e a saudade. A coluna hoje é do meu irmão Pablo Duarte Cardoso.
 

ESCREVE PABLO CARDOSO DUARTE

Para quem ainda acredita nessas coisas, e eu acredito, foi por obra da Providência que conheci e me tornei amigo de Paschoal Ambrósio Filho. Foi há pouquíssimo tempo, tempo de menos para que eu pudesse desfrutar plenamente de uma amizade que eu julgava duraria pela vida toda. Eu morava no Canadá, para onde fui com a família por razões profissionais, e andava em busca de quem me ajudasse a concretizar o que tomei para mim quase como uma missão existencial: publicar um livrinho, nestes trinta anos do tetracampeonato rubro-negro, que explicasse exaustivamente, sobretudo às novas gerações, como e por que o Flamengo foi o único campeão brasileiro de 1987. Tudo isso a 8 mil quilômetros de distância.

Só que, muito logo me dei conta, há ainda, no Brasil, uma enorme dificuldade em vender livros sobre futebol. (Não há de ser um problema exclusivo nosso: num prefácio que escreveu quando do vigésimo aniversário do seu grandioso Fever Pitch, Nick Hornby conta como se deparou com o mesmíssimo problema na Inglaterra, em 1992.) E, no meu caso, essa dificuldade foi agravada pela escolha convencional de submeter meu manuscrito a um punhado de grandes editoras, que encaravam com não pouca perplexidade aquela conversa abstrusa sobre asteriscos e taças de bolinhas.

Até que o eterno presidente Marcio Braga me pôs em contato com Altamir Tojal, e por meio dele meu manuscrito foi parar nas boas mãos do Paschoal. Mãos rubro-negras, mãos de quem entendia, como eu, a importância de se contar aquela história num ano como este. Que se crisparam e se ergueram como as minhas quando o Renato tirou do lance o Batista, depois o João Leite, tocou a bola para o arco vazio e calou para sempre o Mineirão. E o livro saiu, claro, como me garantiu, desde o primeiro e-mail, o nosso bom Paschoal, com seu otimismo contagiante.

Quando, na data magna do 15 de novembro, fui surpreendido com a notícia de que o Paschoal nos deixara, alguém me contou que ele trazia no peito uma bomba-relógio. Que tivera um enfarte feio em 2006 ou 2007 e desde então vivia com a consciência plena da finitude de tudo. E talvez isso explicasse a gentileza extrema, a doçura que punha em cada gesto e em cada palavra. Não digo aqui nada de muito original: já há décadas Nelson Rodrigues dizia que “há uma inteligência da morte, assim como há uma bondade da morte”. “O que vai morrer já olha as coisas, as pessoas, com a doçura do último olhar.”

E assim era o Paschoal que eu conheci, sem me dar conta dessa circunstância. Na última vez que o vi, no lançamento do meu livro, deixei-o conversando feliz com meu pai, que por essas coincidências da vida fora amigo e colega do pai do Paschoal, na Capemi, no começo dos anos 70. Falaram do pai e falaram da paixão que nos uniu neste pouco mais de um ano de convivência: o Flamengo, claro.

As últimas palavras que ouvi dele, antes de desvencilhar-se tímido dos meus agradecimentos, foram sobre o Leandro. Paschoal nos contava que, muito antes da pesquisa que fundamentou o seu Cem Anos de Bola, Raça e Paixão, teve ocasião de conversar com o grande Luís Mendes. E manifestou-lhe uma frustração rubro-negríssima: a de não ter visto jogar Domingos da Guia. Pois o Luís Mendes, com sua onisciência, retrucou-lhe: — Você viu! Você viu jogar o Leandro. Foi o que de mais próximo houve do maior zagueiro de todos os tempos.

E o meu pai, que desde a minha infância punha o Leandro num patamar só inferior ao Zico, ficou emocionado com a constatação. Pois então ele também vira jogar o Domingos, na elegância superior de José Leandro Ferreira. E despedimo-nos felizes, pelo livro e pela missão cumprida, mas sobretudo por aquela amizade recente, fundada na comunhão de centenários valores flamengos.

Nem me ocorreu então que aquela conversa acabava ali. Nove dias depois, no dia do 122º aniversário do clube que ele tanto amou, o Paschoal nos deixou. Talvez esteja vendo jogar o Domingos. E talvez constate, de si para si, que o Leandro foi melhor.

Vai com Deus, amigo. Que Ele dê forças aos parentes e amigos que ficam. E nós aqui havemos de nos consolar com a lembrança da bondade que temperava cada gesto seu.
 


Mauricio Neves é autor do livro “1981 – O primeiro ano do resto de nossas vidas” e escreve no MRN todas as sextas-feiras. Siga-o no Twitter: @flapravaler

 

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