Escrevi meu último post antes do Vasco x Flamengo e fui correndo para o Walmart assistir ao jogo. Terminei o post falando o seguinte: “Não sei se o wi-fi lá vai funcionar. Não sei se o link pirata vai ser tirado do ar pela Globo no meio da partida. Não sei se o Fla vai justificar sua supremacia perante ao adversário. A única certeza que tenho é que todo meu esforço para ver você jogar é pouco perto de todo o amor que sinto por você, Flamengo.”

Nunca soube se o wifi funcionou ou não, se a Globo tirou o link do ar ou não. No meio do caminho meu motorhome quebrou na pista local da estrada e nunca consegui ver o jogo. Era sábado a tarde e o máximo que eu conseguiria fazer era ser rebocado para a porta de uma oficina que já estaria fechada quando eu chegasse e só reabriria na segunda-feira de manhã, tendo que dormir ali mesmo, na porta do mecânico. Pensei bem. Desisti. Cancelei o reboque do seguro. O Flamengo venceu.

Com muita dificuldade consegui voltar para o acampamento onde eu estava. Passei dois dias preso lá até segunda-feira de manhã, quando, antes de ser rebocado para o Terra Del Sol Automotive, passeando com meus cachorros, dei de cara com uma Rattlesnake, a famosa Cascavel no Brasil. Fico animado quando vejo coisas que nunca tinha visto antes, seja uma cobra, seja uma cidade. Desconfiava de um problema de aterramento de fios, mas era ignição. O cara estava desligando no meio da estrada, do nada. Tenso. Como sempre, você fala pro mecânico que é um motorhome, ele fica puto – pelo tamanho que ocupa na garagem dele -, diz que não vai conseguir arrumar no mesmo dia, que você vai ter que pernoitar lá, e aí entra em cena o meu plano infalível: fico do lado de fora da oficina, sem atrapalhar ninguém, claro, horas em pé, olhando fixamente para eles trabalhando. Os caras ficam incomodados e resolvem arrumar nosso motorhome logo. Mas quando uma pessoa se permite conhecer a outra, coisas boas também podem acontecer. Acabei ficando brother deles e dando conselho amorosos para o mais novo. Perguntaram da gente, das minhas tatuagens, da nossa profissão, da nossa história, do nosso roteiro. Perguntei pra eles da vida em Alamogordo, das tatuagens deles, se eles já foram para o México.

Conseguimos ir embora no mesmo dia, já de saco cheio de Alamogordo, New Mexico. O Flamengo venceu, a semana foi boa, entramos no Arizona, ganhei uma hora no fuso, fiquei quatro horas do Brasil, e o Flamengo perdeu pro Grêmio. Voltando um pouco: essa é terceira vez que rodamos o Arizona. A primeira em 2014, a segunda em 2015 e agora. Nunca havia vindo tão Sul, tão perto do México, e pra mim é gratificante poder explorar regiões que ainda não conheço. Foi assim que conheci Bisbee, cidade que viveu de mineração no passado e hoje é uma comunidade hippie nas montanhas vivendo de vender smoothies, objetos vintage, pizza, artesanato e tour naquela mesma mina dos anos 1970. Agradeço ao Universo por viajar sem roteiro. Bisbee era para ser uma cidade de passagem e resolvemos ficar três dias, duas noites explorando a cidadezinha perdida na montanha, que a mim muito lembrou Visconde de Mauá, no Rio de Janeiro. Bisbee para sempre em nossos corações.

Sempre que tomo a decisão de ficar um dia a mais me pergunto o quanto é pelo lugar e o quanto é pelo Flamengo. Explico: em Bisbee é proibido dormir na rua, ou seja, tivemos que pagar para ficarmos em um acampamento, cujo wi-fi era sinistro, e isso era sexta-feira. Sábado seguiríamos viagem, e eu provavelmente procuraria um posto de gasolina ou Walmart com wifi para assistir ao jogo. Decidi ficar e a dúvida que veio foi: “fiquei por Bisbee ou fiquei pelo Flamengo?” Acho que pelos dois.


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Hoje escrevo de mais um posto de gasolina. É aqui, no fundo do estacionamento do Pilot Travel Center, tentando não incomodar nenhum caminhoneiro, que vamos pernoitar. Estou em Nogales, cidade no Sul do Arizona que faz fronteira com uma cidade chamada Nogales, no estado de Sonora, no México. Muita gente não sabe, mas o muro que divide EUA do México não é uma idéia do Trump. Aqui existe um muro, ou melhor, uma grade, que divide as cidades de mesmo nome. A primeira grade, que com os anos foi sendo aprimorada, subiu há mais de 100 anos atrás para o gado não fugir, e depois veio uma moderna em 2011, que hoje tem uma extensão de 200 kms. Na Nogales do lado de cá, 20 mil habitantes. Na Nogales do lado de lá 250 mil. Vou do lado de dentro do posto comprar gelo e ninguém fala em inglês.

Muito feliz e agradecido por estar aqui. Algumas decisões equivocadas e a vida poderia ter sido tão diferente.

SRN!

Sou fotógrafo carioca morando em um motorhome com minha mulher e nossos cachorros, criando conteúdo pra We Are Alive e nossos clientes. Acima de tudo, rubro-negro! Inscreva-se no meu canal http://youtube.com/WeAreAlivenaestrada


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