Cesar Maia foi prefeito da cidade do Rio de Janeiro por três vezes. Em seu primeiro mandato viu nascer o movimento olímpico e nos outros dois foi responsável pela preparação do Pan-Americano do Rio, em 2007.

Vereador eleito nas últimas eleições municipais, em 2014 tentou vaga no Senado mas não conseguiu vencer Romário. O MRN buscou entrevistar Cesar Maia por entender que o político foi uma das poucas vozes justas em toda cronologia Maracanã-Estádio Próprio, verdadeira saga rubro-negra em busca do seu verdadeiro lar, ainda não encontrado. Com a iminente saída do consórcio liderado pela empreiteira Odebrecht, empresa mergulhada em dívidas e escândalos de corrupção, o Maracanã volta a ter seu futuro indefinido.

Em 2005, então prefeito, concedeu todas as licenças para a construção do tão sonhado estádio na Gávea. As obras não iniciaram por conta de uma canetada da Procuradoria Geral da União que proibiu a construção. Marcio Braga, à época presidente do Mais Querido, afirmou que a proibição foi encomendada por poderes maiores. Muita gente afirma que o lobby dos comerciantes do Leblon, preocupados com o projeto que previa lojas na Gávea, foi o grande responsável pela negativa do Poder Público. De acordo com o vereador, entretanto,  o problema foi outro: “Não é verdade. Sem Flamengo não haveria privatização do Maracanã”.

Na entrevista abaixo também falamos da arena multiuso cujo processo moroso de aprovação já faz com que a torcida fique muito preocupada. Em ano de eleições municipais, o mundorubronegro.com assim inicia um esforço no sentido de trazer alguns importantes políticos para o diálogo com A Maior Torcida do Mundo.

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Vereador, muito obrigado por aceitar falar com o mundorubronegro.com.

Nessa conversa vamos tratar basicamente sobre dois temas de interesse geral de todos os cariocas: Maracanã e estádio próprio do Flamengo. Assuntos que estão diariamente em todos os jornais e sites e que transborda da esfera esportiva para diversas áreas de interesse do poder público e da sociedade.

 

O Maracanã já havia sido reformado para o Pan 2007. Mesmo assim, para se adequar ao Padrão FIFA, o Poder Público gastou cerca de 1,5 bilhão na semi demolição do estádio. E agora o estádio encontra-se fechado. Qual seu posicionamento em relação ao fechamento do Maracanã este ano?

Necessário a partir de 01/03. Só não sei porque ficou fechado até aqui. Poderia ser usado no primeiro turno.

 

O Consórcio que administra o estádio demitiu 75% dos seus funcionários na primeira semana de janeiro e desde então o estádio só recebe shows, bailes de carnaval, festas e casamentos. Por que o Poder Público não atuou?

O governo mudou os termos do edital ao não autorizar demolir equipamentos (atletismo, natação , museu). Nesse momento deveria ter feito outra licitação.

 

aspas césar maiaO Consórcio argumenta que o edital previa obras de construção de estacionamento e lojas onde hoje temos a E.M. Friendenreich, o Parque Aquático Julio Delamare, o Célio de Barros, além da área do casarão do antigo Museu do Índio. Como as obras não foram autorizadas o consórcio não consegue cumprir as exigências da concessão. A Odebrecht passa por uma crise política e financeira e tudo leva a crer que o Maracanã será devolvido. O presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello já declarou que administrar o Maracanã é o plano A do clube. O senhor apoia a gestão do Maracanã por clubes de futebol?

Realmente. Mas sendo assim deveria ter devolvido naquele momento. O governador enrolou o Fla e o Flu dizendo que eles fariam parte do consórcio. Por isso não participaram da licitação do Engenhão. Depois, para compensar, inventaram uma intervenção no Engenhão para garantir os três clubes no Maracanã.

 

Sérgio Cabral Filho não cumpriu sua palavra em relação ao Flamengo adquirir o direito de administrar o Maracanã?

Verdade. Conversei com os presidentes do FLA e do FLU sobre o Engenhão e ambos disseram que havia aquele compromisso.

 

Márcio Braga, então presidente do Flamengo, afirma que em 2005 a prefeitura concedeu todas as licenças para a construção de um estádio, para cerca de 30 mil pessoas na Gávea. O projeto foi barrado na Procuradoria Geral do Estado. Pessoas ligadas ao projeto dizem que houve lobby de comerciantes do Leblon, que não viam com bons olhos o projeto (que tinha previsão de ter um hall de convenções com áreas para exposições, cinemas, lojas e bares e restaurantes). Como o senhor avalia essa situação?

A prefeitura e todos os órgãos patrimoniais até o IPHAN. A verdade não foi essa (lobby de comerciantes). 70% da renda de jogos no Maracanã é com jogos do Flamengo. Sem ele não haveria interessado na Privatização.

 

Com a expansão do metrô, nas redondezas da sede do Flamengo, entre os bairros da Gávea, Leblon e Lagoa, logo teremos 3 estações servindo os moradores da região. Mesmo assim se fala em impacto no trânsito com a construção de uma arena de médio porte, que comporte entre 20 a 30 mil pessoas. Inclusive, a arena multiuso para 3 mil lugares, projetada para receber jogos de basquete, vôlei, futsal, entre outros esportes, está demorando muito para receber as licenças da CET Rio e do Corpo de Bombeiros. Existe má vontade das esferas públicas com o Flamengo ter sua própria estrutura esportiva?

Certamente. Até porque é uma questão de horário dos jogos em contra fluxo.

 

Em 2007, Márcio Braga em entrevista ao Globoesporte.com afirmou: “A lógica do parecer da procuradoria é equivocada. É isso que vamos contestar. O prefeito Cesar Maia falou maisaspas césar maia uma vez que trânsito é invenção. Isso são interesses econômicos da redondeza contra o Flamengo. Eles estão bancados por gente poderosa”. O Flamengo ainda se encontra regido por esses parâmetros?

Mais que isso. Interesse na Privatização do Maracanã pelas razões que elenquei.

 

Uma década depois da aprovação da prefeitura do Rio podemos chegar facilmente à conclusão que aquela gestão foi amplamente favorável aos interesses legítimos do Flamengo de ter seu estádio. E o então prefeito Cesar Maia um aliado na defesa da marca do Mais Querido. Nos últimos dias o Flamengo foi alijado do direito de jogar em Brasília, numa clara demonstração do poder ditatorial da CBF em conluio com os interesses políticos da Federação do Rio. O que a Nação Rubro-Negra pode esperar dos seus representantes na câmara de vereadores? Há algum movimento político de apoio aos clubes cariocas ou a casa legislativa da cidade entende que a FERJ tem total autonomia e exerce bem a função de organizar e promover o futebol na cidade?

O ponto é o impacto financeiro e comercial do Fla sobre a concessão do Maracanã, sobre direitos de TV etc… Flamengo x Cobra D’água tem audiência maior na TV que a novela.

 

Uma arena multiuso na Gávea, feita em parceria com a iniciativa privada, pode atrapalhar uma provável plano de ocupação da nova arena olímpica que está sendo construída em Deodoro? Por isso tamanha demora? O Flamengo luta há mais de três anos pela construção de um ginásio para apenas três mil pessoas. Isto não soa ridículo, vereador? Parece mais ainda um absurdo, quando temos notícias de que readequações urbanísticas estão sendo implementadas em São Paulo e Minas Gerais, para que Corinthians (ginásio olímpico) e Atlético Mineiro (estádio com capacidade para 45 mil lugares) sejam beneficiados. O senhor poderia afirmar categoricamente que no Rio uma marca como o Flamengo sofre sistematicamente pressão para não crescer esportivamente e comercialmente, visto que todas as licenças que precisamos hoje para um estádio na Gávea já foram conquistados durante o seu mandato?

É tão absurdo que basta ver as cidades nos EUA com seus grandes equipamentos em pelo menos 4 modalidades.

 

Para terminar, o senhor acredita que o Flamengo tem condições de administrar o Maracanã a partir de outubro, quando o gabinete de governo afirma que será lançado novo edital de concessão?

Certíssimamente. Lembre: 70% da soma das rendas de todos os jogos no Maracanã é do Fla. Visitei a do Lakers em Los Angeles. Eles vieram ao Rio ao visitar o Sambódromo nas vésperas dos desfiles e afirmaram-se: esses sim sabem ganhar dinheiro com publicidade. Uma rápida visita ao Engenhão mandaram ampliar os assentos dos camarotes e levar estoques para o outro lado. Na minha visita ao estádio do Ajax em Amsterdã conheci o sistema de “venda de camarotes e cadeiras”. Na verdade se compra o direito de comprar mas há que se confirmar 15 dias antes do evento.  …Para não falar nos direitos de TV.

 


 

O vereador concedeu esta entrevista via e-mail.

 

Cabral e a mentira do Maracanã Rubro-Negro