Acompanhei uma sessão, diria, interessante no Conselho Deliberativo. Em que pese o sigilo que todo conselheiro deve preservar para salvaguardar os interesses do clube, creio que alguns aspectos vistos presencialmente e mesmo acompanhados à distância, tornaram a sessão do CODE, convocada para aprovação do contrato de TV aberta, fechada e PPV oferecida pela GLOBO ao Flamengo, que cobriria 6 anos, à partir de 2019, deveras intrigante mesmo considerando o resultado positivo ao final do evento, com a aprovação quase unânime do contrato em salão lotado. E sendo intrigante sinto-me no dever de expressar alguns de meus questionamentos e conclusões sobre o assunto para aqueles que não têm a chance ou oportunidade de estar presente em um evento deste porte. Não sou nenhum especialista, sequer insider, ou mesmo parte da “nobreza” local. Sou apenas um observador curioso que gosta de devanear.

Pois bem. Esta votação foi antecipada por um clima energético. Claro que entre pessoas e grupos que apoiam a Situação, a aprovação ao contrato, já há poucos dias da votação, tornou-se ostensiva. Vários grupos e conselheiros independentes questionaram diversas cláusulas e aspectos do contrato, que, sendo complexo, deu origem a todo tipo de discussões. É um contrato para 2019 em diante. Estamos em 2016 amarrando o futuro por 6 anos, à partir da próxima gestão eleita. Deste contrato hoje, só se captaria parte importante das luvas. E acabou. Finito. Quem vai pensar nele são os próximos membros do Conselho Diretor. É um modelo de contrato que rompe o paradigma atual de distribuição da verbas da TV. Adentra a seara da distribuição coletiva, por exibição e performance. Foi congelado assim. Não tem como mudar. Aceite o modelo ou morra.

E por isto diversos grupos e tendências tinham que se preocupar. Era o futuro em jogo. Não se tratava de um caso de “ser oposição per si”. Como me pareceu, ao menos, a sessão do CODE em que boa parte dos conselheiros negaram ao Flamengo que emitisse novos títulos de sócio-proprietário para custear parte do CT profissional. Quiseram medir forças. E perderam para a maioria que aprovou esta emissão de novos títulos.

O salão ficou cheio. Lotado. Conselheiros, inclusive, com dificuldades de estacionar dentro do clube. Notórios oradores, outros nem tanto, se inscreveram para falar.  Pareceres de Conselho Fiscal, e de diversas comissões do Conselho Deliberativo, seriam exibidos.

Mas o interessante foi o desembarcar em peso da Tropa de Elite da Chapa Verde, “Bap e seus generais”. Todos lá. Fora eleição nunca tinha presenciado isto. Como na eleição optaram por fazer uma campanha mais combativa do que construtiva, preferindo falar mal do EBM, vices-presidentes e particularmente do SóFLA, com muitas alusões distorcidas da realidade, o clima entre os grupos de apoio a Situação e o formado pela “Chapa Verde” parece frio e distante muitas vezes. O contato parece pouco para saber se apoiam ou não, se são contra ou não, ou seja, o que pretendem. Ao menos, claro, para mim. Mero conselheiro.


Mas a expectativa ao menos de boa parte, é que seriam contra o contrato. Até porque o raciocínio era: Se é para votar a favor porque os “generais” desembarcariam em peso no Conselho? Arthur Rocha, emérito conselheiro, também conhecido pela aquisição de Dimba em episódio de triste memória em outra época, e ligado às lideranças da “Chapa Verde” se inscreveu para falar.  Bap também se inscreveu para falar. Enfim, se aguardava os acontecimentos.

Fred Luz, CEO do Flamengo e José Sabino, atual VP de Marketing, fizeram apresentação cobrindo todos os aspectos do contrato. Explicando as decisões, os porquês, passando por todas as dúvidas e questionamentos comuns. Uma apresentação exemplar e profissional de um contrato desta envergadura. E a surpresa no final da apresentação do Fred Luz, que deixou em polvorosa as redes sociais e causou espanto aos presentes: Fred agradeceu a colaboração de algumas pessoas e também ao Bap, cujo notório conhecimento em TV, marketing, contratos, etc é bastante reconhecido. Foi um ato importante e político. Foi um estender a mão ao líder de um grupo que saiu da eleição como Oposição. Ao mesmo tempo mostrou entendimento entre as partes. Afinal, Fred Luz veio ao Flamengo conduzido pelo próprio Bap.

Enfim, leram os pareceres. Alguns deles repetindo as mesmas conclusões dos outros, até porque envolve matemática, cenários futuros, etc. Todos eles de enorme qualidade técnica, o que mostra o alto nível dos Conselhos do Flamengo. Todos recomendando aprovação embora com algumas ressalvas aqui e ali. Não é por falta de informação que se deixa de votar. Aplausos e tal.

Mas aí começa a chapa a ficar quente. Os debates. Conselheiros se inscrevem e vão para a frente falar o que querem sobre o assunto. A lista tem que ser pequena para não se alongar muito, com prazo limitado para cada um se expressar. Tudo isto controlado pelo Rodrigo Dunshee, que se mostra um excelente presidente de Conselho. Enérgico, firme, democrático e que sabe escutar. Excelente nome do Flamengo.

Cacau Cotta foi o primeiro a falar. Pegou o domínio de tribuna. Conclamando pela união do clube, pediu pela aprovação do contrato e o direcionamento das luvas a receber após a assinatura para a construção do CT da base. Bem aplaudido. Neste momento notei que Rodrigo Tostes, um “general”, que se destacou como VP Financeiro no primeiro mandato da dita “Chapa Azul”, tinha ido embora. Estranhei. Artur Rocha chamado para ir a frente, também tinha ido embora. Entre falas de alguns conselheiros, foi a tribuna Sergio Bessa, membro suplente do atual Conselho Fiscal. Professor da FGV, ótima oratória, pediu pela aprovação agora de um contrato para depois devido a insegurança a respeito dos futuros cenários econômicos brasileiros. Realmente, quando se vê em Brasilia os atuais governantes e aqueles que se colocam como alternativas, o quadro é muito dramático. Foi aplaudido inclusive pelo Bap.

E Bap, que fez questão de sua apresentação ser a última, foi chamado para falar. Realmente insuperável neste quesito de se comunicar ao público, Bap se pronunciou extremamente favorável ao contrato, dizendo que estava muito bem feito e recomendando fortemente. Apenas com uma ressalva a respeito de indices econômicos. Um elogio do Bap, especialista no setor, que evidenciou o ótimo trabalho conduzido pelo VP José Sabino, Fred Luz e o Diretor Bruno Spindel na elaboração do contrato. Eles conseguiram transformar empréstimo (como ocorreu com outros clubes) em luvas, que, inclusive, foram renegociadas a maior. O Flamengo foi o único clube que deixou parte das luvas do contrato a serem pagas na próxima gestão. O que torna explicito o trabalho espetacular administrativo-financeiro realizado, o qual todos nós rezamos para que seja reproduzido no futebol.

Politicamente Bap saiu bem fortalecido desta reunião. De certa forma não deixou de ser um “resgate” de sua imagem. Espero que isto facilite maior aproximação entre a diretoria e Bap, Tostes, Gustavo, Wallim e Landim, que, aliás, foi chamado pelo Rodrigo Dunshee para descerrar a bandeira do Flamengo ao final da sessão. Se sabe da capacidade deles todos. Flamengo unido fica mais forte. Apesar de me sentir pessoalmente atingido por algumas críticas e acusações deles ao SóFLA, grupo político ao qual faço parte, esta minha mágoa é muito menor que meu desejo de ver o Flamengo sempre melhor.

 

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