Vou ser sincero com vocês: fazia tanto tempo que o Flamengo não demitia um treinador que eu já tinha ficado desacostumado com a coisa. Mais que isso: ver o Flamengo trocar o treinador e não fazer merda nesse processo é algo que me parece ainda mais surpreendente. Nós estamos tendo que nos acostumar com muita coisa nova ultimamente.

O que não muda é o fato de que no futebol brasileiro o Flamengo é o sol e todo o resto orbita em torno dele. Digo isso porque, como não poderia deixar de ser, o acontecimento da semana foi a chegada do señor Rueda ao Maior do Mundo.

Foi um blábláblá em torno da impactante contratação do técnico mais vitorioso das Américas na última temporada pelo Maior Clube da
Galáxia e Arredondesas que vimos o deprimente espetáculo de treinadores locais pagando mico entoando discursinho xenofóbico e pseudo-protecionista. Mas a verdade, sabemos muito bem, é que no fundo só estavam era pensando “ai meu Deus, se o Flamengo entendeu que pode trazer um gringo competente, quem poderá nos defender?”.

Para nós, o lado que importa, foi uma semana contraditória em termos de sentimento. Iniciamos um mata-mata decisivo, prenunciando aquele período do ano onde jogos importantes se sucedem e seus resultados tendem a nos revelar a sensação de “puta que pariu, que ano foda!” ou “vai tomar no cu, que temporada merda”. E é justamente em pleno alvorecer dessa fase decisiva que voltamos ao (re)começo, com um quê de pré-temporada que o ponta-pé inicial desse novo ciclo nos traz.

Havia décadas que um estrangeiro não assumia nosso time. E havia milênios que um treinador não chegava ao Flamengo trazido pela mão pela torcida. Isso mesmo, amigos. Quem trouxe Rueda fomos nós. Bandeira só formalizou o contrato que a gente redigiu.
 

 
E tê-lo no banco contra o Botafogo foi alentador. Mesmo sem tempo hábil para qualquer influência significativa na forma da equipe atuar, o que vimos em campo no Engenhão foi algo mais próximo de um time. A barração de Marcio Araújo mostra que Rueda entendeu onde está pisando e quem lhe garantiu o trampo. E a atuação do Cuéllar só deixou mais claro ainda que o Zé Ricardo só podia estar muito doidão para insistir nesse cabra.

No mais, o maior destaque da partida foi a pequenez do nosso adversário. Mesmo jogando em casa, mesmo tendo à disposição 90% do assentos (nem todos ocupados), passou os noventa minutos e mais os acréscimos numa postura tão covarde que me fez ter saudade do jogos contra o Americano em Campos, quando eles ao menos tentavam nos levar perigo de alguma forma. Jair Ventura deve se considerar o Mourinho de Engenho de Dentro. Dizem os especialistões que seu time conhece suas limitações. Que é uma equipe “reativa”. Bom, pra mim o que ele fazem é NÃO jogar e rezar por uma cagada do adversário que permita um contra-ataque.

Pra piorar a situação, o juizão resolveu aparecer. Inventou uma expulsão esdrúxula pro Muralha que vinha jogando com segurança pela primeira vez no ano em um lance que não era digno nem pra cartão. E ignorou a atropelada que o Pimpão pimponamente deu nosso velocista disfarçado de atacante Berrío. Amarelo ali saiu mais barato que móvel nas Casas Bahia.

O zero a zero foi também culpa do travessão caprichoso que protegeu os vilões de um golaço histórico na batida de falta do Diego-Meu-Craque. Mas não há porque nos preocuparmos. Quarta-feira que vem o Maracanã vai estar tomado por vermelho e preto e tenho certeza que os caras não estão nem dormindo pensando nisso.

Antes, porém, teremos um compromisso pelo Campeonato Brasileiro de extrema importância e periculosidade, só que ao contrário, contra o gigantesco Atlético-GO, também conhecido como primeiro rebaixado do ano.

A real é que o Brasileirão desse ano tem só um problema: ainda não acabou.

Faltam modorrentos 18 jogos que não nos interessam muito. Fazendo um esforço, notamos que nossa tabela aponta para uma sequência de partidas no Rio que são fundamentais para garantir o lugar no G6 e evitar um desagradável derramamento de sangue que uma não classificação para a Libertadores do ano que vem causaria no Ninho do Urubu.
 

 
Portanto, Rueda, sinto muito mas o senhor não terá muito tempo para realizar sua mágica. Terá que cair pra dentro e fazer seu portuñol ser compreendido rapidinho.

A nós, torcedores, resta ter a serenidade que nunca tivemos e apoiar o novo e inédito processo em curso. Evidente que temos todos os motivos que ser parte da Maior Torcida do Cosmos nos dá para acreditar que a coisa vai melhorar imediatamente, que a equipe vai encaixar e que vamos terminar o ano cheio de troféus novos na Gávea. Mas, sobretudo, precisamos entender que é tudo novo de novo. E como diz a canção, “Peço-te prazer legítimo | E movimento preciso | Tempo, tempo, tempo | Quando o tempo for propício | Tempo, tempo, tempo”. Nosso momento é assim: tão claro e confuso quanto a linda letra do Caetano.

 


Pedro Henrique Neschling nasceu no Rio de Janeiro, em 1982, já com uma camisa do Flamengo pendurada na porta do quarto na maternidade. Desde que estreou profissionalmente em 2001, alterna-se com sucesso nas funções de ator, diretor, roteirista e dramaturgo em peças, filmes, novelas e seriados. É autor do romance “Gigantes” (Editora Paralela/Companhia das Letras – 2015). Siga-o no Twitter: @pedroneschling

 


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