Saudações, Rubro-Negros!

Foi com grande alarde — como sempre o é, quando se trata de Flamengo e Adriano –, que se repercutiu na semana passada a declaração do Imperador ao canal Entrando em Campo. Disse o Didico: “O Flamengo é meu mundo, minha terra. Sou do Rio, minha família quase inteira… Até hoje brinco com a minha vó, ‘vou para o Vasco’. ‘Vasco? Pelo amor de Deus, Adriano!’. Independentemente de qualquer coisa, sou flamenguista doente, não preciso provar para ninguém. Estou aqui, ano que vem vou começar a treinar direitinho. Se me quiserem, estou aqui, não precisa me pagar nada, eu faço por amor”.

Ora, meus queridos, quem é que se surpreende com tal manifestação? Adriano não foi somente um dos maiores representantes da Magnética em campo em todos os tempos, ele é muito mais do que isso. Adriano é um espelho da alma rubro-negra, o qual reflete o que o Flamengo tem de melhor e também o que ele tem de mais autodestrutivo. Adriano é o Flamengo, e o Flamengo é Adriano.

Ao carregamos o Flamengo dentro de nós, carregamos também Adriano. Didico talvez seja a personificação do que é ser Flamengo: gigante, monstruoso, um conquistador quase imbatível, cujo maior inimigo, porém, vive dentro dele mesmo. Os fantasmas que afastaram Adriano do futebol e do clube, do seu mundo, como ele próprio define, são os mesmos que fazem o Flamengo não se agigantar tanto quanto pode. Tomados de euforia, tornamo-nos imparáveis, indestrutíveis; tão logo os efeitos efêmeros dessa euforia cessam, entramos em um grave conflito interno, no qual somos tomados por dúvidas, questionamentos, insegurança e medo. E aí sucumbimos.

E do que pode ter — ou ter tido — medo o Imperador? Seria muita audácia minha, um professor de idiomas, querer responder essa pergunta sob a ótica da ciência, a psiquiatria ou a psicologia. Em mim no entanto fica a impressão de que, motivado sabe-se lá pelo quê, um dia Adriano se convenceu de que não servia para aquilo, que o peso de ser tão enorme quanto todos esperavam e viam que poderia vir a ser era demais para ele suportar. Quando se deparou com seu gigante interno, quando se deu conta de que ao liberá-lo teria automaticamente que arcar com todo o alto custo daquela decisão, algo na cabeça do menino o fez desejar parar pela primeira vez. No justo momento em que houve esse primeiro trinco na vidraça, não era difícil imaginar que não demoraria a se quebrar por inteiro.

E assim também vejo o Flamengo. Tivemos nossa primeira grande chance de nos tornarmos muito maiores no início dos anos de 1980. Porém, ainda nessa década, iniciamos nossa rotina de conquistas alcançadas na base da euforia, que em flamenguês chamamos de “deixou chegar, fodeu”, e as alternamos com campanhas ridículas e sofríveis, tanto em solo nacional quanto internacional, não raro com revezes bizarros e que entraram para a História. Nesses mais de trinta anos, quantas vezes o Flamengo conseguiu emplacar uma sequência de dois ou três grandes anos, com conquistas de peso, campanhas empolgantes na Libertadores etc.? Por outro lado, assistimos com frequência a implosões ocorrerem logo a seguir à maioria dessas conquistas. Somos nós sendo Adriano, aprisionando nosso gigante interno e tendo nossas entranhas consumidas por ele.

O ano de 2017 foi simbólico nesse sentido. Ninguém vai me convencer de que não há espaço para o Impera nesse Flamengo Corporate. Por isso acho fundamental que esteja lá em 2018. Que o nomeiem Embaixador da Nação no Vestiário, ou qualquer coisa que o valha, mas deixem-no voltar para casa, para o seu mundo, para a sua terra. Em campo, não vamos esperar dele mais do que uma ou outra participação num joguinho do Carioca ou da Primeira Liga, se essa sobreviver. Não será com seus gols que ele irá nos ajudar, mas com sua simples presença, a qual reforçará em todos o sentimento de que ali está o Flamengo personificado, e que portanto é preciso cuidar dele, respeitá-lo, abraçá-lo, celebrá-lo, amá-lo, exaltá-lo, porque ao fazer isso estarão contribuindo para que também o Flamengo e os rubro-negros se sintam cuidados, respeitados, abraçados, celebrados, amados e exaltados. E que ele esteja lá todos os dias até o último de sua vida, para que essa lembrança seja tão forte, que jamais sequer pensemos em perdê-la de vista novamente.

SRN


Fabiano Torres, o Tatu, é nascido e criado em Paracambi, onde deu os primeiros passos rumo ao rubronegrismo que o acompanha desde então. É professor de idiomas há mais de 25 anos e já esteve à frente de vários projetos de futebol na Internet, TV e rádio, como a série de documentários Energia das Torcidas, de 2010, o Canal dos Fominhas e o programa Torcedor Esporte Clube, na Rádio UOL.

 
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