Entrevista feita por Diogo Almeida e Rodrigo Rötzsch

O MRN dá continuidade à sua série Política Rubro Negra com um entrevistado especial: o vice-presidente de Tecnologia da Informação, Luiz Filipe Teixeira, no cargo desde o início do segundo mandato do presidente Eduardo Bandeira de Mello. A TI exerce um papel silencioso e fundamental no dia a dia e no planejamento do Flamengo, e nesta entrevista Luiz Filipe fala bastante sobre isso. “O que a TI tem que fazer dentro do Flamengo é prestar os melhores serviços para os departamentos e para os sócios e dar as informações para melhorar o poder de decisão das pessoas”, resume.

luiz filipe teixeira

Para melhor transmitir a mensagem do VP, o MRN decidiu dividir essa entrevista, realizada na última segunda-feira, na Gávea, em duas partes bem distintas: a primeira, na qual Luiz Filipe fala sobre o trabalho da TI, você lê a partir de agora. A segunda, mais focada na vida política do clube, você lê amanhã.
 



 

No plano de metas da última eleição, tinha um slide relacionado à tecnologia da informação. E basicamente era a criação de um Plano Diretor de Tecnologia da Informação, e deste PDTI se deriva duas ações de implementação: que são o ERP (Enterprise Resource Planning – sistema de informação que integra todos os dados e processos de informação de uma empresa em um único sistema) e a modernização do cabeamento de infraestrutura. O que você poderia falar das prioridades e o que já foi feito neste seu mandato?
O Flamengo era extremamente rudimentar em TI. O Flamengo era uma empresa desorganizada, onde as decisões eram tomadas sem pensar em todas as consequências, analisar o que você precisaria antes de implementar algum processo ou até mesmo alguma promoção com o sócio-torcedor. De 2013 para cá, o Flamengo vem colocando prioridades. As prioridades do primeiro mandato do Eduardo foram muito mais sanar dívidas, apagar incêndios e montar um time que fosse competitivo. Essa parcela vem diminuindo. Percentualmente vem diminuindo. A gente continua pagando R$ 150 milhões por ano, incluindo juros, serviço da dívida e abatimento do montante da dívida. A gente vem melhorando essa relação de dívida/time, e a gente começa neste novo mandato agora a fazer alguns projetos estruturantes. Eu chamo até de higiene. Tinha coisas higiênicas que no passado não eram feitas. Você entrava na sala da TI e tinha servidores que não existem mais no mercado, que se parassem não tinha peça para trocar. E aquilo ali chamava muita atenção, porque isso reflete numa porção de coisas. Reflete no sócio que quer ir na secretaria ter um atendimento mais ágil. A TI trabalha muito como fornecedora de serviço para outras áreas. O marketing quer lançar uma campanha ou quer lançar um pacote de venda de ingressos ou quer analisar uma empresa parceira, ele precisa que TI seja envolvida para que TI entenda que aquela empresa tem as melhores práticas do mercado ou no mínimo tem aderência num nível satisfatório que vá prestar o serviço conforme o Flamengo precisa. É o caso claro da venda de ingressos no ano passado, que deu uma porção de problemas.

Por que deu uma porção de problemas?
Porque os ambientes de venda de ingresso não suportavam a demanda que o Flamengo precisa. Você pode ter um mega servidor, mas o desenvolvimento daquele ambiente não foi feito corretamente. Tanto que a gente aumentou servidores e os problemas de desenvolvimento continuaram. Hoje para vender um ingresso para o sócio-torcedor, a gente tem de 3 a 4 ou 5 sistemas integrados, que precisam se falar. O cara entra no site do Flamengo, entra depois no sócio-torcedor e tem o primeiro registro dele, chama gestão de identidade, o cara se identifica ali. Depois que ele se identifica, o sócio-torcedor do Flamengo não é gerido pelo Flamengo, temos um parceiro que faz isso. Então ele entrou num ambiente do Flamengo, se conectou a um ambiente de terceiros, esse ambiente de terceiros autentica ele, ele passa por uma escolha de um ingresso para comprar que tá no site da CSM. Aparece Flamengo, mas é um ambiente da CSM, que vai pra Futebolcard. Que depois você compra na Futebolcard e ele tem um ambiente de um cartão de crédito.


E tem um outro caso em que o cara não é sócio-torcedor, ele é sócio do clube. Ele tem que vir no Multiclubes, o Multiclubes tem que autenticar e dizer que ele é sócio, pra ele ser sócio-torcedor, pra ele ir na CSM, pra ele ir na Futebolcard para depois fechar uma transação no cartão de crédito. Então você tem uma lógica que tem que estar bem amarrada. As conexões para autenticar a pessoa têm que estar bem feitas. E não foram bem feitas.

Por que elas não foram bem feitas?
Não foram bem feitas porque as pessoas que deveriam ter sido envolvidas não se envolveram. Natural. Isso não acontece só no Flamengo. Acontece em todas as empresas onde você têm necessidade de fazer as coisas de uma maneira mais rápida. Hoje tem uma prática de mercado que chama agile que você faz o desenvolvimento das aplicações com o uso. Você vai lá, bota, e a hora que deu problema tem um cara consertando. Só que você tem uma equipe de prontidão esperando os problemas que a aplicação tá dando para você corrigir.

Vamos voltar a falar de ingresso. Você desenvolve uma aplicação do Flamengo ou você contrata uma empresa de ticketing que já faz isso. O que é melhor pro Flamengo? É uma decisão de TI. Só que TI tem que se envolver antes do que com o jogo daqui a um mês. Você não faz um projeto de ticketing em um mês. Se em um mês você recebe a informação que você precisa vender ingresso, você vai catar no mercado o primeiro cara que tá ali. E o primeiro cara que tá ali não é o cara que vai entender o ambiente do Flamengo, o ambiente do parceiro do sócio-torcedor do Flamengo, o ambiente do Multiclubes, todas as autenticações para ele fazer um novo ambiente que se conecte com tudo e que entrem 30 mil pessoas ao mesmo tempo para comprar um ingresso e aquele ambiente não caia. Se você não fizer isso com tempo…. Teve um outro clube que internalizou a venda de ingressos que levou 11 meses para fazer o ambiente deles de venda de ingressos.

Como é o trabalho da TI no futebol?
No futebol hoje a gente montou um ecossistema do que a gente quer no futebol. E aí entra a TI. A TI quer analisar dados médicos, dados fisiológicos, e quer analisar todos os jogos do Flamengo e dos times que ele vai jogar. Este ano a gente fez uma reunião onde todo futebol estava envolvido: Rodrigo Caetano, Marcos Biasotto, pessoal do CIM (Centro de Inteligência de Mercado), CEP (Centro de Excelência de Performance), doutor Tannure, onde a gente organizou qual ecossistema de software a gente vai usar. A gente analisou um software da parte médica, a gente já está com um software que analisa qualitativamente e quantitativamente o desempenho de atletas, a gente tá indo para um software agora que analisa os adversários e a gente já tem um software que analisa passes certos e errados. Montamos uma coisa para ir além do Flamengo nos jogos – também do adversário nos jogos deles.

Isso mudou em relação a 2016?
Eu tinha alguns softwares em 2016 que analisavam qualitativamente e quantitativamente os nossos jogadores. Era só isso. Era o mapeamento que a gente tinha de jogadores. Esses softwares atendiam o CEP. O Tannure conseguia colocar num determinado software os resultados. A gente está melhorando para que se tenha integrado: um software médico, com todos os dados médicos dos jogadores, um software de análise qualitativa, um software de análise quantitativa para que o ecossistema te dê uma análise do que é o jogador. No dado analítico a gente quer ter todas as informações de tudo o que acontece no futebol: saúde, performance, treinamento e adversário, onde você tire informações disso.

São softwares de mercado ou desenvolvidos especialmente para o Flamengo?
Esses softwares são comprados de terceiros, softwares de mercado que a gente analisou que outros times de futebol, e não somente de futebol, usam para atletas, para que a gente consiga ter um ecossistema dentro desses softwares, para que depois a gente decida qual plataforma a gente vai usar para consolidar as informações. O ERP entra aí. O ERP entra consolidando essas informações. Pensa no seguinte: você tem o software que faz determinados tipos de coisa onde todos eles te dão informações. E você tem um software maior. Isso aqui para mim não é informação. Isso aqui é dado. Na hora que eu jogo o dado para cá, num motor, e eu tiro os insights, é isso que a gente quer. Nós temos algumas opções de mercado para fazer isso, e isso aqui se relaciona com o ERP. Onde? Onde o ERP me traz também informações financeiras dos jogadores. Onde eu consigo fazer do futebol uma miniempresa e analisar o futebol só pelo futebol. Pensa no ERP no centro de custo CT: eu tenho alimentação, eu tenho base, eu tenho tudo. Ele cruza os dados da administração geral futebol com outras áreas do clube. O futebol, dentro do que a gente tem hoje, que é um ERP que não atende o Flamengo, ele não me dá informações que eu consiga ter centro de custos quebrados. Vamos dizer: eu quero fazer um centro de custo especificamente do sub-15. Quero saber se o sub-15 está se pagando. Dentro desse ecossistema aqui eu tiro tudo que é só sub-15, jogo aqui nessas outras informações, pego só informações de quanto eu gasto, com técnicos, profissionais, fisiologistas, o que está relacionado à sub-15.

É possível ter todo o histórico de um jogador no clube…
Pensa num garoto que chegou aos 10 anos, aos 10 anos eu começo a mapear e ele está aqui dentro. Consigo historicamente ver tudo que aconteceu com o jogador, contusões, performance. E aí a gente está falando aqui, já teve um filme que falou sobre isso, que é o “Moneyball”, que o rapaz usava os dados que estavam ali e tomava algumas decisões. Aquilo ali não é de todo verdade, mas não é de todo mentira. A explosão de dados analíticos ainda vai acontecer. Mas se dentro de um software desses, você tem todas as informações do San Lorenzo. Você tem todos os jogos filmados. Você pega dez jogos do San Lorenzo e analisa todos os jogos. Imagina na hora que você tiver toda a performance de todos os jogadores onde você consiga combinar perfis de um lateral que apoia menos para um perfil de um lateral que sobe mais. Vamos dizer que o San Lorenzo tenha um lateral-direito que apoie sempre de uma determinada maneira. Quem seria o melhor perfil dentro do elenco do Flamengo para marcar esse cara? É claro que o técnico não toma essas decisões em cima disso. Ele só te dá informação.

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O famoso Centro de Inteligência de Mercado também é responsabilidade sua?
Hoje o CIM e o CEP são responsabilidades minhas, dentro das vice-presidências.Como o CIM e o CEP tem muito a ver com tecnologia, ficaram comigo. O CIM não decide que jogador vai ser contratado ou não. O CIM dá a informação para quem tem que tomar a decisão. O Flamengo estava atrás do Berrío. Tava, tava atrás do Berrío, atrás do outro, atrás do outro, atrás do outro. Só que há jogadores que nem os vice-presidentes sabem. Eu cheguei uma vez lá no CIM e o Biasotto tava vendo um jogador. Eu falei: quem é esse? Ele: é mais um que a gente está analisando. O CIM analisa o mercado como um todo.

E aí aquela coisa que dizem: “o centro de inteligência não viu”. Você nunca vai trazer o jogador perfeito. É claro que alguns jogadores são melhores que os outros. Mas o CIM te dá muitas opções. Pô, mas o CIM não analisou esse cara? O CIM analisa todos os jogadores. Todos. O CIM tem que ter um banco de dados pra na hora que o Flamengo falar “esse jogador”, tem que estar pronta uma análise do jogador lá. Todos os jogadores que estão em evidência estão sendo analisados.

Há um trabalho de monitoramento especial dos jogadores que o Flamengo empresta? É o CIM que cuida disso?
É o CIM que cuida disso. Que monitora qual é a performance. Dentro da análise do CIM tem a minutagem de um jogador. Quando o pessoal fala, teve um jogador que há pouco tempo muita gente falou “vai trazer o Rômulo e não vai trazer o outro jogador que todo mundo quer”. Ninguém olhou a minutagem desse jogador que todo mundo queria. E aí você tem que comparar minutagem com o que aconteceu na temporada, de contusão… O caso do Conca é muito interessante. Ele se machucou, só volta em maio. Mas as pessoas não analisaram o que aconteceu com o Conca antes de ele se machucar. E a minutagem que ele estava. Pô, o cara que tá na China não está jogando tanto. A minutagem que ele tinha no Brasil e a participação em que ele tem na China é a mesma. O mesmo resultado num outro mercado é sinal que ele não caiu. Agora você analisa um jogador que tá na Europa e tá com uma minutagem muito aquém do que ele tinha, de repente salta aos olhos de quem tem que contratar A ou B. Porque você tem que começar a tomar decisões em cima de informações. E é isso que você vem provendo pro futebol. É isso que o CIM faz. E aí qual é a parte do CIM em cima disso? Colocar um ecossistema de software que dê o máximo de informações possíveis para que o profissional que esteja lá dê as informações para os decisores do futebol. Então quando falam assim: o CIM decidiu entre o Berrío e um outro. Não. O CIM deu as informações do Berrío como deu as informações de mais uns seis ou sete. Mas passar por uma contratação não está só ligado ao CIM. Condições, negociação, valores….

Essas informações o CIM fornece também? Contrato de jogadores?
Quando termina o contrato, multa, tudo. É um relatório bem grande, bem completo. A gente está trabalhando para melhorar esse relatório com esses softwares que a gente adquiriu. ERP quando você fala de ERP pensa na parte financeira de uma empresa, com todos os dados. Você tem a parte de orçamento, você tem a parte de RH, você tem a parte de pagamentos, você tem a parte de compras. Tudo que uma empresa tem, e que o futebol está inserido dentro dela. Você consegue isolar o futebol, a performance do jogador, se ele retornou todo o investimento dele.

Esse monitoramento é só de jogadores profissionais ou acompanha também jogadores de base de outros clubes?
Acompanha também. Alguns. Provavelmente quem estava despontando na Copinha teve um relatório feito. E é um desses softwares que ajuda a fazer essas análises. O que você tem que montar aqui? Um banco de dados, com informações de vários softwares, que entre em um consolidador de informações que te ajude na tomada de decisão. Vou dar um exemplo, estava com o Vido aqui. Ele citou que o Felício, quando chegou no Flamengo, tinham bolas que ele não conseguia pegar. Bola vinha, e ele batia, não segurava. Por quê? Ele tinha um problema de visão que não tinha sido detectado. Aí eu te pergunto: você tem um jogador de altíssimo nível que o Flamengo pelas informações que estão contidas aqui, tem um grau não muito satisfatório. Um garoto da base. Que ele possa ter uma deficiência de audição ou de visão. E aí pode ser até um pouco cruel. Mas essas informações aqui hoje dão alguns insights se o cara vai virar jogador mesmo ou não. Se dentro do nosso patamar, do nível que a gente decidiu de atingimento de performance de jogador, que o lado físico e médico está envolvido, se ele não chegar nesse patamar, de repente ele pode ser um puta jogador nas divisões de base, todo mundo tá achando que ele vai chegar, e a gente já pode ter certeza que ele não vai chegar. E aí o clube pode tomar a decisão de negociar o jogador. Já teve um jovem da base que era muito bom, que era visto de uma maneira muito boa, que tinha dentro desse ranqueamento dados deficitários para virar profissional. E ele foi negociado por um bom valor, não quer dizer que deu errado, mas as informações que vinham do jogador é que ele não ia chegar no nível de excelência que o Flamengo hoje requer. Hoje no nível que o Flamengo tem de elenco, o funil está muito mais apertado. Então você vai ter que tirar dessas informações da base do Flamengo, quem realmente é extraclasse, tem informações extraclasse. E você só vai tirar essas informações corretas se tiver um ecossistema.

E aí no futuro eu vou ter essas informações em um monitorzinho na sala do Rodrigo Caetano, que ele vai clicar no jogador tal. Ele vai ver a performance nos últimos jogos, performance médica, qual o valor do salário, até quando vai o contrato. E que tenha um outro monitor na sala do Tannure que ele também consiga entrar no perfil do jogador e ter as informações que ele precisa.

E essa informação é de mão única ou de mão dupla? O jogador que não está rendendo é chamado e toma conhecimento de seus números?
Hoje um dos softwares que está sendo incorporado é exatamente desse feedback. Isso já acontece. Jogador a jogador. Mostra para o jogador onde ele está. Antigamente não tinha isso, tinha uma balança. O jogador subia lá e via se estava no peso ou não. Hoje tem uma devolutiva. Mas é uma devolutiva de uma reunião com o jogador. A gente está trazendo um software para que o jogador receba constantemente essas informações. Mas o ponto crucial disso é que você tenha monitores. Que possa ter um monitor na sala do Eduardo que na hora que ele queira analisar um jogador, que ele abra o perfil dele…. Qual é o perfil do presidente? É um perfil diferente do Tannure. O Tannure precisa de dados técnicos. O nível de acesso é diferente. Então a gente está montando um ecossistema para que, além de a gente ter as informações numa infraestrutura correta de softwares, que a gente consiga colocar as informações na ponta. Pra quem toma a decisão, de forma personalizada.

E vocês estão próximos de tomar essa decisão sobre esse ERP?
A gente já tomou a decisão do que está por volta, do médico, do quantitativo, do qualitativo, dos jogos dos adversários. Eu posso desenvolver isso daqui, ou eu posso comprar um módulo pronto. Temos duas empresas que têm módulo pronto disso. Ou eu posso botar uma RFP (convite enviado a um grupo de fornecedores para apresentarem propostas de venda de produtos ou serviços) no mercado onde eu desenvolva uma plataforma.
A gente esteve próximo de fechar um ERP. Hoje a gente fala de ERP com três empresas. A gente já recebeu a SAP, a gente já recebeu a Totvs, e a gente já recebeu a MXM, que tem um ERP menor, mas que tem grandes empresas no mercado que trabalham com ele. Porém não fechamos ainda porque não estamos maduros para escolher a plataforma. Tem um grande player no mercado que um pedaço do ERP deles atende ao futebol. E que a Alemanha usou esse módulo do futebol deles.

Vocês estudaram modelos de outros clubes? Viajaram para conhecer? Como é que o Real Madrid tem esse sistema, por exemplo?
O Real Madrid tem uma parceria com um grande player de mercado que faz muita propaganda dessa parceria, e que não é uma boa parceria. Quando você fala de tecnologia, tem muito mais propaganda do que informação ali. A gente está sendo agnóstico dentro das nossas decisões. Eu não estou trazendo só uma empresa. Mas é claro que a empresa que faz pro Bayern está dentro dessa concorrência. É claro que a empresa que fez pro Bayern é a mesma que fez pra Alemanha, que virou referência de mercado porque eles ganharam a Copa do Mundo. Mas existe só essa empresa? Não. Um dos players de ERP de mercado é a SAP, que faz ERP e tem um módulo de futebol. É a mais famosa. Existem outras empresas no mercado que fazem a mesma coisa.

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O que o Flamengo tem, sabendo do que ele ainda precisa, já o coloca no topo do futebol brasileiro?
O Flamengo não está no topo. Vamos dividir as coisas. Hoje o Flamengo tem um processo na frente dos outros. De análise de jogador, o centro de excelência, a parte de hardware, o equipamento, o processo que o Tannure implementou, o que a Exos trouxe, a gente tá colocando outra empresa que vai fazer a parte da base (a Double Pass), o processo está implementado. Agora a gente tem que colher as informações que estão lá, botar dentro de um ecossistema tecnológico para ele te dizer alguma coisa. Hoje quando você tem que fazer análise de jogador, você pega uma planilha aqui, uma planilha ali, uma planilha lá e tenta entender aquilo, e aí é uma análise humana. O cara vai entender e vai tomar as decisões. Você tem que colocar um machine learner, como se diz hoje, que entenda tudo que aconteça e te dê alguns insights. Por exemplo: um jogador se machucou em todos os jogos que correu mais de sete quilômetros e meio. Se você tiver em tempo real o que ele está correndo, tá na hora de tirar o jogador porque a probabilidade do jogador se machucar é muito grande. Agora imagina que mesmo com com esses insights todos, você tira o jogador numa final? Não. Você corre o risco. E a gente vai chegar num momento, que a gente quer, de ter um monitor. O monitor pode estar dentro do jogo, num tablet. O que a gente está fazendo é montando um ecossistema que na hora que a gente tenha necessidade de tomar decisões assim, o jogador hoje que já provê dados de suporte para decisões importantes. Mas nunca uma informação analítica vai suplantar uma decisão de um técnico ou diretor de futebol de contratar A ou B. Porque você pode fazer análise de um jogador excelente, se você fizer análise hoje do Neymar ou do Messi, vai sair pra contratar os caras. Mas aí você tem que ponderar, dentro do ERP aqui, quanto que você tem em caixa, e quanto é seu orçamento do ano, e quanto é seu orçamento projetado para 2018.

Esses softwares também têm análise psicológica?
Só não quero falar os nomes dos softwares porque a gente ainda está em negociação. Mas a análise psicológica está dentro da parte médica. Já está em contrato, apenas estamos apertando um pouquinho mais os caras pra colocar um preço melhor. Mas na hora que você tiver um ecossistema de dados para tirar informação… E acabar com essa falsa ideia que o CIM contrata. O CIM não contrata. Ele oferece as condições de análise para quem toma decisão. Você dá possibilidade do departamento de futebol decidir com mais segurança. Mas não dá para eliminar os erros. É apenas uma peça da engrenagem. A gente não vai botar um robô pra treinar o time, a gente não vai botar um robô para negociar o jogador. O que a gente quer é chegar num ponto analítico de um “Moneyball”, mas que você não tenha um nerd dizendo para o técnico o que ele tem que fazer. No futebol você tem que dar todas as possibilidades de vantagem para o seu técnico e a sua comissão, para que ela tome as melhores decisões. Tire um jogador antes de ele se machucar. Pensa no melhor jogador do Flamengo hoje, performando pra cacete e você tem que tirar ele no próximo jogo, porque se você não tirar ele no próximo jogo, você não vai ter ele por dez jogos. São essas coisas que a gente quer dar pro futebol. E não pensar só no futebol, porque o lado legal é o futebol, mas tem o outro lado que não é o futebol. A área financeira do Flamengo hoje precisa ter mais informações financeiras pras melhores tomadas de decisões. Isso também afeta o futebol. O que a tecnologia tem que fazer dentro do Flamengo é prestar melhores serviços para os departamentos e pros sócios e dar informações para melhorar o poder de decisão das pessoas.

O Flamengo sempre foi marcado por muito vazamento de informação interna, até documentos. O que TI está fazendo para conter isso?
Você falou do plano de metas. No plano de metas uma decisão que a gente tinha era tirar os computadores, TI tomou uma decisão de trabalhar na nuvem. Então para você ver, o clube não tinha um ambiente seguro de correio, de e-mail. Trouxemos um parceiro para Flamengo, uma super negociação, que além do correio, que roda em nuvem… Você tinha dentro do Flamengo uma pecha que algumas pessoas não gostavam de usar o e-mail corporativo, com o medo do nível de segurança que aquele e-mail tinha. Então, tecnologia foi lá, analisou os melhores players de mercado, o que os players traziam de mercado, qual era a segurança de cada um e colocamos aqui a Microsoft, com muita dor no coração porque é um concorrente meu (da IBM, empresa onde ele trabalha), mas tomamos uma decisão agnóstica de trazer uma solução em nuvem para todos os funcionários. No passado eu tinha uma solução insegura, nem todas as pessoas eram atendidas por correio, e era uma coisa que me deixava muito chateado como vice-presidente que eu recebia um e-mail de um funcionário do Flamengo no Gmail. Onde os dados do Flamengo estavam transitando por ambientes que a gente não tem ingerência. Outra coisa que acontecia também, e que acabou, todos os softwares usados pelos funcionários do clube estão regularizados. Ninguém usa software pirata, ninguém usa software que não está licenciado. Porque se você usa um software que não está licenciado qualquer empresa pode vir aqui e te dar uma multa. Há pouco tempo saiu que a Univercidade, o prédio da Lagoa, estava sendo leiloado porque eles faziam uso do Windows 95 indevido.

Pensa na quantidade de informação de todos os computadores que têm no Flamengo e que os funcionários usam. Tinha funcionário no passado que usava computadores próprios porque os computadores do Flamengo eram ruins. A gente está aos poucos tirando essa prática. Não há problema hoje de você trazer seu computador, tem uma prática de mercado, chamada bring your device, que você traz o que é seu. Mas você tem que ter regras. O Flamengo até o mês passado não tinha um ambiente seguro de firewall. Usávamos um firewall que não era um firewall top. A gente trouxe agora uma parceria com a Palo Alto, que é uma solução de segurança de informação de altíssimo nível, nem em algumas empresas a gente vê isso. Porque o mais importante para mim hoje é a segurança dos dados que estão no Flamengo. Até para você ter velocidade de dados. A velocidade de dados que a gente tem no CT hoje a gente restringia por uma falta de infraestrutura de solução de segurança. Então quando você tinha que registrar um atleta do CT de vez em quando a internet estava lenta. Você contratou um jogador no último dia da janela e tem que registrar esse cara e não tem um ambiente seguro e veloz para fazer isso. Pensa numa outra coisa. Você tem hoje aqui um outsourcing de impressão, nenhuma impressora é controlada. Imagina você ter que imprimir o contrato do Berrío. Quantas pessoas gostariam de ter a informação do que tem no contrato do Berrío? É isso que a TI tá envolvida. A TI tem muito um peso de manter o valor da marca que poucas pessoas veem. Então a gente hoje está implementando.

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E por que não implementaram antes?
A gente vai voltar ao que eu falei no começo. Se pagava uma parcela de dívida tão grande que só dava para montar um time mediano. Mas o planejamento financeiro do Flamengo de 2017, eu posso dizer que nunca teve igual na história do Flamengo. Porque todas as áreas estão sendo assistidas com dinheiro para ter desenvolvimento dos seus departamentos. Não teve orçamento zero em área nenhuma. Na hora que você tem um caos instalado, de 2013 a 2015, porque era caos. Foi dívida e time, e o que sobrava de dinheiro ia pra dívida. Agora que o nariz já saiu, você já consegue colocar dinheiro em projetos estruturantes. Melhora dos ambientes, você ter uma secretaria melhor. Daqui a pouco a gente vai ter autoatendimento na secretaria. A gente está trazendo um totem para que a pessoa não precise ir na secretaria, que ele consiga comprar ali um convite de um visitante quando você chegue. Que você tenha no site do Flamengo um ambiente seguro, que não caia. O Flamengo era campeão, o site caía. O site do Flamengo desde que a gente implementou uma plataforma nova, ele caiu uma vez e não foi culpa dos servidores. Teve um errinho de desenvolvimento que caiu o site. Não dá pro Flamengo ser campeão e os torcedores não conseguirem entrar no site do Flamengo. Não dá pra todo mundo estar esperando uma contratação e entrar tanta gente no site do Flamengo que derruba o site. Então, você tem TI em todos os lugares.

Você começou falando da venda dos ingressos. Agora daqui a uns 15 dias deve ter venda de ingresso, provavelmente pra Ilha. Vai cair?
Esse ano foi a primeira vez que eu tive orçamento para contratar um gerente de TI. Até dezembro o Flamengo não tinha um gerente de TI. Imagina uma empresa com meio bilhão de faturamento que não tinha um gerente de TI. A gente corria atrás do rabo, dos problemas. O marketing contratava uma empresa para fazer X, o futebol contratava outra empresa para fazer a mesma coisa que o marketing estava fazendo. Vou contar uma situação ridícula que eu tenho no clube. Convocações dos conselhos onde a secretaria faz a convocação dos sócios. Ela não tem uma solução de e-mail marketing para fazer a convocação dos sócios que vão aprovar um contrato da Carabao de R$ 200 milhões. Tem que mandar e-mail um a um. Então TI está analisando todos estes problemas. Marketing tem o e-mail marketing deles, que eles usam a CSM para fazer.. Só que o clube também precisa. E aí, eu continuo terceirizando com a CSM ou compro uma ferramenta de e-mail marketing que atenda todo mundo? Então é nisso que você toma as decisões. Ah, nem todos os sócios recebem as convocações do Conselho Deliberativo… É, porque você não usa uma solução. Na hora em que você não usa uma solução e você bota mais de dez e-mails no mesmo e-mail, algumas caixas direcionam como spam. Então, tecnologia hoje está dentro de tudo. Tecnologia hoje eu costumo dizer para o Orlean, e o Orlean é um cara que veio da tecnologia, que a gente só vai dar um salto mesmo dentro do Flamengo na hora que a gente fizer uma transformação digital. O que é uma transformação digital? Se você quiser comprar uma camisa do Flamengo você sabe que pode comprar em qualquer lugar. Agora, se você quiser um brinco do Flamengo para a sua filha, você não sabe onde comprar. O Flamengo não tem um portal de relacionamento com a torcida. O que é um portal de relacionamento com a torcida? Não é o site do Flamengo. É um portal que os sócios consigam se relacionar de uma maneira correta, que os torcedores consigam se relacionar de uma maneira correta e que os sócios-torcedores se relacionam também. Até a imprensa. Você quer uma liberação para entrar para uma coletiva? O que você faz hoje? Telefone. Você tem que ter relacionamento, você não tem um relacionamento. Tem que dar um salto, tem que dar uma transformação digital, para que você tenha tudo ali. Para você fidelizar, para você rentabilizar.

Você fala de ingresso na Ilha, mas já pensou da acessibilidade na Ilha? Das catracas que a gente quer colocar na ilha? Qual é a acessibilidade que a gente quer ter lá? Você bota uma biometria para os sócios-torcedores, você bota uma catraca que o cara consiga comprar os ingressos no celular e ele aproxime da catraca e ela libera, o que você faz hoje? Não dá mais para daqui a pouco os torcedores ficarem comprando ingresso com bilhetinho, e a gente pensa em Ilha para seis anos. Daqui a seis anos não pode existir mais isso. A gente tem que ter uma solução que acabe com isso. Não dá para ficar trocando ingresso. Quando você vai ao cinema, você não troca ingresso. Você entra lá no aplicativo, o aplicativo gera um código, você baixa na tua carteira do IOS ou vai lá e mostra pro cara e passa num leitor. Porque se não acontecer isso, você tem mais fila, você não sabe quem entra realmente. Dentro da aplicação de jogos você tem que ter a venda de ingressos, acessibilidade e relacionamento durante os jogos. Pensa o seguinte: o Guerrero fez um gol. Eu posso mandar um aviso para todos os caras que estão no estádio fazendo uma promoção da camisa. É o momento que ele vai querer comprar e pode separar, caso tenha uma loja dentro do estádio, para ele retirar na saída do estádio. Eu posso ter na arquibancada o cara fazendo a compra de alimentos num aplicativo, e não que entre numa fila para comprar um ticket para depois ir para outro lugar. Então a gente está falando de coisas que podem ser irreais hoje, mas que a gente espera ter mais 30 anos de não só um estádio, mas de dois estádios, que essas decisões que nós estamos tomando agora sejam importantes lá na frente.

O Flamengo está cada vez mais uma multinacional da América do Sul. Está no planejamento ter uma versão em espanhol do site do Flamengo?
Está no planejamento, mas é uma coisa extremamente complexa. Muito provavelmente, algumas áreas do site serão traduzidas e outras não. Porque o tempo real praticamente é impossível. Você teria que duplicar a sua equipe, é inviável. Eu vou dar um exemplo, depois que o Trauco chegou e fez aquela partida maravilhosa inicial. Teve gente que perguntou: “pô, vocês não vão desenvolver uma plataforma de sócio-torcedor pro Peru?” Porque agora são dois, Guerrero e Trauco. Mas a gente já esgotou tudo que tem que fazer para sócio-torcedor no Brasil? A gente tem uma quantidade de sócio-torcedor que pra gente é confortável? Então para que eu vou pro Peru? Eu tenho 70 mil sócios-torcedores, deve estar faltando só 39 milhões e alguma coisa. Temos que consolidar. Depois que passou de 2015 que a gente conseguiu ir além, a faca ainda está no pescoço, mas saiu um pouquinho do pescoço. Agora é hora de o Flamengo se estruturar verdadeiramente, investir em estrutura para continuar o salto. Por que o Flamengo deu um salto tão grande? Porque antes era tão ruim, tão ruim, que simplesmente você colocar práticas corretas deu um salto muito grande. Por que melhorou o lado financeiro tanto? Porque você não tem nenhum absurdo sendo feito com o dinheiro do Flamengo. O dinheiro do Flamengo é muito bem cuidado e muito bem contado. Ninguém gasta o que não tem.

O Flamengo do futuro, que é a partir de agora, o desenvolvimento dele tem que vir de maneira estruturante, a longo prazo. Então isso depende de TI, depende de uma área boa de marketing, de comunicação, financeira. E para que você faça isso você precisa dar ferramentas de trabalho para todo mundo. Se você não der ferramentas de trabalho, o Flamengo não vai além. Esse é o próximo desafio do Flamengo. Enquanto tá todo mundo pensando no próximo jogador que a gente vai contratar, as pessoas que estão dentro do a paixão – porque a gente costuma dizer que as pessoas que estão aqui dentro são doentes; primeiro porque a gente não tem pagamento, o pagamento são as vitórias, e ao mesmo tempo que a gente está aqui dentro, a gente está deixando de fazer alguma coisa. E a parte mais difícil de estar no Flamengo hoje é a família. É muito difícil, vira uma doença. Você é questionado pra cacete. E você tem que tomar algumas decisões de vez em quando, bem maduras, que contrariam o seu lado torcedor. Mas tem que tomar essas decisões. Para doar esse tempo para o Flamengo, a gente não é mais rubro-negro do que ninguém, mas no mínimo está colado com os mais loucos rubro-negros.
 
 
Continua
 


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