Um dia será o último.



Assim como um dia foi o primeiro, um será o derradeiro.

Não haverá um domingo como a tarde de céu pesado de 25 de maio de 1983, em Curitiba. Choveu pela manhã. Acordei na casa de meus tios, no colchão colocado no chão. Ouvi os pingos de chuva. Pensei: gramado pesado, ruim para nós, meu deus, eu vou ver o Flamengo!

Abri os olhos. Meu pai me olhava. – Vamos lá, campeão, é hoje.

Estávamos em Curitiba para a semifinal da Taça de Ouro, a primeira vez que eu veria o Flamengo jogar.

Meus pais viviam o final de um longo processo de divórcio, já irreversível. Meu pai me tirou por alguns instantes daquela realidade e pegamos o avião para Curitiba. Meu primeiro voo, meu primeiro jogo do Flamengo no estádio, depois de já centenas ao pé do rádio e dezenas em frente à Telefunken da sala.

As imagens se misturavam na minha cabeça naquele domingo pela manhã. Os dias conturbados em casa, vingados pelo futebol límpido do Flamengo nas quartas de final contra o Vasco e nos 3×0 da ida contra o Atlético Paranaense, pela semifinal.

Já escrevi sobre o jogo algumas vezes. O Flamengo entrando em campo de branco. Os gols de Washington. O sufoco. Zico acalmando as coisas e Adílio driblando como se não houvesse amanhã. A defesa de Raul em bomba de Capitão. O Flamengo na final e a sensação indescritível, insubstituível e inesquecível de: meu deus, eu vi o Flamengo.

Na saída do estádio, em meio à multidão do Atlético Paranaense espremida entre as paredes, subi nos pés do meu pai que abraçou e fomos nos movimentando lentamente, silenciosamente felizes. A vida haveria de mudar sempre, mas sempre teríamos o Flamengo e, que se dane se já conto 44 anos de idade, eu ainda consigo voltar para o calor daquele abraço.

Aquele foi o primeiro. Um dia será o último.

Cada vez que o Flamengo pisa um gramado, eu penso isso. É provável que alguém esteja vendo o Flamengo hoje pela primeira vez. Um filho levado pelo pai, um rubro-negro de visita ao Rio ou, nos jogos em outras praças, rubro-negros de muitos lugares indo em busca da santa experiência de ver o time em frente ao seus olhos.

E também penso que alguém está vendo o Flamengo pela última vez. Que alguém, depois do jogo presente e antes do próximo futuro, será alcançado pela finitude: uma doença teimosa, uma tiro perdido, um atropelamento. Vai morrer. De susto, de bala ou vício, como diz a canção, e aquele terá sido seu último jogo do Flamengo.

Por isso não existe um jogo qualquer. Não do Flamengo. Afinal, alguém estará vivendo o amor à primeira vista, alguém estará se despedindo de tanto vermelho e preto.

O primeiro já foi. Um dia será o último.

Assim como não existe um jogo qualquer, não existe um ano qualquer. Não é possível esperar pelo ano mágico, porque muitos de nós, muitos mesmo, não podem esperar. É claro que isso não dá a ninguém o poder de fazer o Flamengo vencer na marra, mas gera obrigações.

Quem está no Flamengo tem o dever de fazer o máximo, sempre. É cruel pedir que se tenha calma porque o ano mágico virá, mas manter Márcio Araújo no elenco, e insistir em tantos erros que condenam tantos jogos, porque alguns destes jogos para vários de nós foram os últimos.

Os últimos.

Seu Expedito recém viu seu último jogo. E agora o Marcos, no Mineirão. Se eu pudesse, daria ao Marcos ainda muitos anos de vida, com muita saúde, e muita vitória. Daria nele um abraço, porque vê-lo na televisão, assistindo ao jogo junto ao aparelho de respiração, me trouxe uma emoção que não sei há quanto tempo não sentia.

Na impossibilidade de dar ao Marcos ainda muitas felicidades e muitos anos de vida, eu gostaria realmente que o Flamengo houvesse se portado no Mineirão à altura de seu gesto. Que tivesse um goleiro bem capacitado para a decisão, que não adotasse a estratégia de pular só para um canto, como um goleiro de anedota. Que Diego houvesse suprido a falta de inspiração com um pouco mais de transpiração. E talvez Marcos houvesse então saído do Mineirão com um sorriso de campeão, porque se ele cumpriu à risca o até morrer eu sou, o Flamengo não cumpriu com o vencer, vencer, vencer.

Eu prometo, Marcos, que no próximo título do Flamengo eu vou estar no estádio por mim e por você. E que ao final do jogo, vou erguer as mãos para o céu e falar o seu nome, como sempre falo o de Valido.

Obrigado, Marcos. Espero que ao lembrar de você, os responsáveis pelo futebol do Flamengo não se irritem com cobranças. Que entendam que o Flamengo não é só deles. Que não se contraria uma Nação. Que não se chama de falso quem ama tão loucamente.

E que todo jogo deve ser jogado com todas as forças.

Porque só podemos ter duas certezas.

Um dia foi o primeiro.

E um dia será o último.

 
Mauricio Neves é autor do livro “1981- O primeiro ano do resto de nossas vidas” e escreve no MRN todas as sextas-feiras. Siga-o no Twitter: @flapravaler
 



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