Desde que eu comecei a torcer para o Flamengo, sonhava com a Libertadores.

No caso, em participar da Libertadores, não em ganhar.

Por esses azares da vida, comecei a acompanhar futebol a sério em 1994, início de uma longa época de entressafra para o Flamengo, marcada por títulos esporádicos, vexames nem tão esporádicos e uma longa ausência da principal competição da América do Sul.

Naquele tempo, apesar de a taça da Libertadores já estar disponível para visitação na nossa sala de troféus, era impensável sonhar em vencer uma competição para a qual sequer passávamos perto de nos classificar. Mesmo os sonhos naqueles anos de vacas magras eram mais modestos: ganhar o Carioca, ao menos se classificar para o mata-mata do Brasileiro, parar de levar gols do Edmundo, não ser goleado no Paraná, não cair para a Segunda Divisão. Como chegar até as nuvens com os pés no chão?

A primeira experiência que eu tive com uma competição internacional foi naquele mesmo 1994. Qualquer um que não tenha começado a torcer para o Flamengo para valer naquele ano já vai ter esquecido daquele confronto. Não é o meu caso, que lembro muito bem do Flamengo sendo eliminado da Supercopa por um para mim desconhecido Estudiantes — achei um nome curioso –, apresentado na imprensa brasileira na época como clube pequeno da Segunda Divisão argentina, e não como tricampeão da Libertadores que era — hoje é tetra.

O então tricampeão da Libertadores apresentado no Globo como time de Segunda e sem tradição: eu acreditei

No ano seguinte, a experiência na competição internacional que acontecia todos os anos foi mais longa, mas o final foi mais frustrante. O Flamengo treinado pelo Apolinho Washington Rodrigues — e aqui agradeço não ter na época o discernimento suficiente para perceber o tamanho do absurdo que era o Flamengo, no ano do seu centenário, ser treinado por um radialista — chegou até a final da Supercopa só para fracassar diante de um Maracanã com mais de 100 mil pessoas no último sopro de esperança de levantar uma taça naquele ano tão importante e tão sofrido para o torcedor rubro-negro.

Como esse é um texto de reminiscências, não vou consultar como foi a campanha do Flamengo nas Supercopas de 1996 e 1997 e na primeira Mercosul, em 1998 – nestas, a memória já não ajuda. Mas guardo em um lugar especial do coração rubro-negro o título na Mercosul de 1999, contra um Palmeiras então campeão da Libertadores, que nós continuávamos vendo só pela TV. O meu gol inesquecível do Flamengo não é o do Pet nem o do Angelim, mas aquele do Lê. Mas ainda assim não dava para sonhar em disputar a Libertadores, com mais uma campanha no Brasileiro sem passar da primeira fase.

Enfim Libertadores

Veio 2001 e inventaram uma tal de Copa dos Campeões, que reunia campeões de estaduais e valia uma vaga na Libertadores. E não é que ganhamos? Em 2002, oito anos depois de ter começado a acompanhar religiosamente o Flamengo, eu enfim ia ver o meu time jogando uma Libertadores. Pena que calhou de esse retorno acontecer no início de um dos piores períodos da história do Flamengo, com um dos piores times que o Flamengo já montou e com um dos piores técnicos que o Flamengo já teve. O surpreendente nesse cenário não é que o Flamengo tenha feito só quatro pontos e sido eliminado na primeira fase. O surpreendente é que tenha conseguido fazer esses quatro pontos. Estava presente em um deles, um jogo com o futuro campeão Olimpia, um 0x0 feio, meu primeiro jogo de Libertadores no estádio. O humilde sonho ali era passar de fase. Ganhar aquela Libertadores sequer passava pela cabeça do mais otimista rubro-negro.

Há exatamente 15 anos e 1 dia, minha estreia em estádio na Libertadores: empate e frustração

Fora essa participação episódica, voltamos à nossa rotina de não disputar a Libertadores, e à essa altura já não existiam mais a Supercopa ou Mercosul garantida anual. Tinha a Sul-Americana, mas nessa nós conseguíamos não passar da primeira fase só com brasileiros. Em 2004, chegamos a pensar que íamos carimbar o passaporte até que o “Libertadores qualquer dia tamo aí” virou “Libertadores Santo André não deixa eu ir”. Até que em 2006 veio uma nova classificação, com o bicampeonato da Copa do Brasil. E 14 anos depois voltamos a um mata-mata da Libertadores. Não passamos.

No ano seguinte, surpresa: de novo na Libertadores! Dois anos seguidos. Um feito que ainda precisamos repetir quase uma década depois. Desta vez aquela vitória no México até nos fez sonhar um pouquinho, mas o despertar foi bem duro, um balde de água fria daqueles que nunca ninguém vai esquecer.

Em 2009, sem Libertadores, mas com outro sonho realizado: o Flamengo campeão brasileiro. Algo que eu, sinceramente, cheguei a duvidar naqueles anos que fosse um dia ver, mas essa é outra história. De volta à Libertadores em 2010, portanto, e quase uma eliminação insólita na primeira fase: o segundo lugar do grupo nunca esteve ameaçado, mas justamente naquele ano o segundo lugar não garantia o avanço à segunda fase porque havia dois clubes mexicanos pré-classificados por terem desistido da competição por conta da gripe suína no ano anterior. Mas como “Flamengo é Flamengo” — ei, calma, o cara que dizia isso ainda não chegou na história — o técnico hexacampeão brasileiro acabou demitido, mesmo classificado. Insolitamente, o substituto conseguiu o maior feito que eu já vi em uma Libertadores: ganhou um mata-mata! Mas era contra time brasileiro, e um que então era visto como colecionador de fiascos na Libertadores — essa história mudaria em 2012, mas chegaremos lá.

Aí veio o mata-mata internacional, e dançamos outra vez. E em 2011 de novo não teve Libertadores. Em 2012 teve, e ganhamos um mata-mata internacional! O único, por sinal, desde a Mercosul de 2001. Mas era na chamada pré-Libertadores. Na hora da fase de grupos mesmo, apagão contra o Olimpia e outra eliminação dolorosa e surreal. Em 2014, nem a maior jogada da vida do Negueba foi suficiente para anular o coice do Amaral, a escorregada do Samir, a tremedeira do Léo, as contusões do Elano e Brocador. De novo, não deu nem pra saída.

Discurso que eu já ouvi antes – e deu certo

No início deste ano, dirigentes do Flamengo sofreram críticas por dizerem que o plano é disputar a Libertadores todo ano para eventualmente ganhar. Foram acusados de sonhar baixo. Quando assumiu o Corinthians, Andrés Sánchez dizia a mesma coisa. E foi disputando três Libertadores seguidas — coisa que eu nunca vi o Flamengo fazer e que ninguém vê desde 1984– que o Corinthians conseguiu cumprir o objetivo.

O discurso de Andrés em 2010, ano da eliminação para o Flamengo: dois anos depois, Corinthians era campeão

Claro, há outros caminhos. O Atlético-MG, por exemplo, não disputava uma Libertadores desde 2000 e voltou em 2013 já conquistando o título inédito. Desde então, disputa todo ano e não voltou a se aproximar do título. Mas toda regra tem sua exceção.

Uma coisa eu sei: sem disputar a Libertadores, a chance de ganhar é zero. Disputando, ao menos nos permitimos sonhar. O time montado este ano certamente é o mais qualificado que já montamos para a Libertadores nestes anos desde 2002. Mas também é aquele que pegou, no papel, o grupo mais duro na primeira fase — chamamos assim por costume, mas agora é a quarta fase, ou fase de grupos. Mesmo assim, eu me permito sonhar. Por enquanto, em passar da primeira fase. Se rolar, sonharei em voltar a ganhar um mata-mata internacional. E, de passo em passo, quem sabe em novembro não estou sonhando acordado com o título?

 
 
Rodrigo Rötzsch é jornalista e coeditor do MRN. Siga-o no Twitter: @rodrigorotzsch.
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