Menos de vinte e quatro horas separaram a final da UEFA Champions League entre Juventus e Real Madrid do clássico carioca disputado em Volta Redonda entre Flamengo e Botafogo. 

A tentação pela comparação é inevitável, ainda que ela seja absurda por todos os pontos de vista. É óbvio o abismo técnico que separa as equipes. Lá, os times mais ricos do mundo esbanjam seus milhões para comprar os melhores jogadores do planeta (o time reserva do Real Madrid provavelmente chegaria nas quartas ou semifinais da Copa do Mundo), enquanto aqui perdemos cedo os nossos talentos e vamos se virando.

Mais importante que isso, não acredito que no futebol só é importante a qualidade técnica apresentada no “espetáculo”. Para o torcedor, futebol não é apenas entretenimento. Se fosse, a gente não seguiria o mesmo time por uma vida inteira, não é mesmo? Acho que um bom jogo não precisa necessariamente de craques. Portanto, qualquer reclamação comparando as duas partidas é injusta e indevida.

Apesar de tudo isso, vou falar sobre os dois. O objetivo não é comparar os times ou os jogadores, mas entender as lições que podemos aprender com dois dos melhores times do mundo.

Lição 1: a flexibilidade da Juventus

A lição do time de Massimiliano Allegri é clara e pode ser definida com duas palavras: fluidez tática.


A Juventus jogou quase toda a temporada no 4-4-1-1, com Daniel Alves e Alex Sandro nas laterais e Juan Cuadrado e Mandzukic abertos na linha de meio-campo.

Quando saiu a escalação com Barzagli, Bonucci e Chiellini, colocando Cuadrado no banco, todos anunciaram um esquema com três zagueiros. Os comentaristas da Globo previam alvoroçados as subidas mortais de Alex Sandro e Daniel Alves como alas (afinal, todo jogo na Globo tem que ser sobre o jogador brasileiro) e o Maestro Junior chegou a desenhar na mesa tática a formação no 3-5-2.

De fato, foi assim que a Velha Senhora venceu o Monaco na semifinal. Mas desta vez não foi o caso. Allegri optou por voltar ao 4-4-1-1, com Barzagli (e às vezes Bonucci) deslocado na lateral direita e Daniel Alves jogando na segunda linha.

Toda vez que o Real começava a jogada, os italianos formavam duas linhas de quatro bem compactas, com Dybala e Higuaín também recuando para congestionar o meio-campo. Era claro e cristalino. Mas só até o gol.

Quando Cristiano Ronaldo abriu o placar aos 20 minutos, Allegri mudou sem substituir. Mandzukic se aproximou da área, abrindo espaço para Alex Sandro pular para o meio-campo e a defesa se tornar, de fato, uma linha de três.

Seis minutos depois, praticamente no primeiro ataque construído pela Juventus, o gol sai justamente assim: Mandzukic se aproximada de Higuain arrastando Carvajal, Alex Sandro dispara no corredor aberto, cruza para trás e o croata marca, como centroavante, num chute improvável.

Imediatamente após o gol, a Juve voltou à formação inicial. Uma decisão que parece estranha, já que tomou 1 a 0 no 4-4-1-1 e empatou logo que mudou para o 3-4-1-2. Mas eles sabiam que o time do Real era melhor queriam se precaver com uma formação mais compacta.

Repare que Allegri mudou completamente a forma do seu time sem fazer uma única substituição. Barrar Cuadrado cumpriu o objetivo: tornar o time mais flexível taticamente.

No meu último texto aqui no MRN, falei um pouco sobre as variações táticas de Zé Ricardo, que não têm nada perto desse nível de sutileza e sofisticação. O Flamengo tem jogadores versáteis, mas sempre precisa de uma substituição para mudar o padrão de jogo. Além disso, as variações são muito poucas. Aliás, a única variação tática do Flamengo-2016 simplesmente desapareceu nesse ano: a inversão dos pontas.

Lição 2: o meio-campo do Real

Cristiano Ronaldo se tornou o jogador mais decisivo do mundo. Toca pouco na bola, mas tem uma capacidade impressionante de antever as jogadas. Quando ela chega, ele faz. Mas a característica mais interessante desse time do Real está, sem dúvidas, no meio-campo.

Vamos começar por Isco. Zidane deu liberdade total ao camisa 22 pelo seu dinamismo. Ele se movimentava por todo o gramado quando o Real tinha a bola para formar triangulações e garantir a supremacia na posse de bola. Quando o time perdia a bola, ele recuava pelo flanco para formar uma linha de quatro no meio-campo e bloquear um dos alas da Juventus.

O Real é um dos únicos times do momento que joga com dois atacantes de área (ainda que tenham muita mobilidade, são dois atacantes de área) e Isco flutua por trás deles para confundir a defesa. É ele quem abre espaços, enquanto Cristiano e Benzema se preocupam em atacar a área.

Diego tem características parecidas com Isco e até cumpre uma função parecida, mais por ser o “dono do time” do que por ser a formiguinha. Mas com apenas um atacante à sua frente e dois pontas ao seu lado, não consegue flutuar como o espanhol e muitas vezes fica encaixotado entre Guerrero e um amontoado de zagueiros e volantes adversários.

A função de Isco é interessante, mas o jogo dos três volantes é que é fascinante. Modric, Casemiro e Kross são jogadores completamente diferentes entre si, mas usam seus características de maneira impressionantemente complementar. Modric é dinâmico, Casemiro é potente e Kross é preciso. Combinados, são praticamente um único super-jogador.

Eles formam um bloco sólido no meio-campo. Parece que os três volantes jogam com uma corda ligando-os pela cintura. Veja os melhores momentos do jogo e procure algum lance em que eles um está distante do outro mais de 15 metros. Procure algum lance em que Modric está à esquerda de Kross ou Casemiro à frente dos outros dois. Não há. Os três têm perfeita noção do posicionamento desse bloco de meio-campo. Jogam como um só e, juntos, formam uma incrível máquina de jogar futebol.

O Flamengo entrou contra o Botafogo em uma formação muito parecida com a do Real Madrid. Arão, Márcio Araújo e Cuellar formavam essa linha de volantes. De novo, é bom lembrar, não pretendo comparar a qualidade técnica deles, pois essa comparação é absurda, mas quero sim olhar para como jogam juntos.

É claro que facilita ter jogadores do calibre dos madrilenhos, mas estou mais interessado na ideia de movimentação deles do que na qualidade em si. Até porque, convenhamos, apesar do uniforme parecido, o Botafogo não é a Juventus.

Faça o mesmo exercício nos melhores momentos. Pare o vídeo em cada lance e procure os três volantes. Não há padrão nenhum.

Houve muita reclamação por parte dos torcedores do Flamengo pela opção de entrar com três volantes contra um time que joga na retranca. Há certa razão nisso, mas o Real é prova de que jogar com três volantes não é ser defensivo. Depende de como jogam esses volantes.

Cuellar e Márcio Araújo nunca atacam a área. Arão só tem duas funções específicas: errar a tabela com Pará e pedir o cruzamento no segundo pau. Os três não parecem conhecer o companheiro. Em vez de amarrados, parece que jogam vendados.

Conclusões

O Flamengo tem que se virar com o elenco que tem. Para os padrões do futebol brasileiro, todos sabemos, não é ruim. Eu até respeito as convicções de Zé Ricardo, mas como seria bom ver ideias mais sofisticadas com as apresentadas por Allegri e Zidane.

Não há porque imaginar que não possamos ter um time taticamente mais robusto e imprevisível.

E você? Viu outros conceitos interessantes que poderiam inspirar Zé Ricardo? Deixa aí nos comentários.
Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb


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