O excelente e — como diz sem falsa modéstia o título — definitivo livro que o rubro-negro Pablo Duarte Cardoso escreveu sobre o campeonato brasileiro de 1987 do Flamengo causará no leitor duas sensações aparentemente contraditórias, mas perfeitamente complementares.

Com um relato absolutamente detalhado que começa em 1986 e termina nos dias atuais, com a disputa pela Taça das Bolinhas, Pablo documenta, sem deixar sombra à qualquer dúvida. que o Flamengo é o único e legítimo campeão brasileiro de 1987, independentemente do que tenha decidido (mal) o Judiciário de Pernambuco — que como ele demonstra no livro, sequer tinha o que opinar sobre o tema, que caberia a outra jurisdição.

Mesmo os rubro-negros que não tenham vivido aquele campeonato, caso deste autor, que então era uma criança de 5 anos que assistia ao Xou da Xuxa (e uma passagem do livro mostra que até a Xuxa foi uma inspiração para o sucesso da Copa União),com certeza já se debruçaram sobre a questão e sabem explicar de cor os mais de 1987 motivos pelo qual o Flamengo é campeão daquele ano. Mas a versão resumida da história deixa de lado muitos detalhes que tornam ainda mais inabalável a conquista rubro-negra.

Como o próprio Pablo observa, os relatos sobre 1987 geralmente partem do ponto no qual a CBF declara que não teria condições financeiras de organizar o Campeonato Brasileiro daquele ano, dando a senha para a formação do Clube dos 13 e da Copa União. O que esses relatos costumam omitir é a absoluta balbúrdia que foi a disputa do Campeonato Brasileiro de 1986 a partir do momento em que se decidiu que o número de participantes seria enxugado para o ano seguinte. Uma guerra de recursos jurídicos de clubes que não queriam ficar de fora — entre eles, claro, o Sport — inviabilizou o torneio organizado pela CBF mais do que qualquer questão financeira. E toda essa balbúrdia, detalhe histórico que tinha ficado perdido pelo menos para este rubro-negro que aqui escreve, teve início com um Vasco esperneando diante da concretíssima ameaça de começar sua saga de rebaixamentos duas décadas antes.

Outro detalhe que costuma ficar de fora da historiografia oficial é que a Copa União não foi uma simples rebelião dos clubes grandes por si sós: eles eram totalmente amparados legalmente pelo CND, legalmente a principal instância do esporte nacional naquele período, que havia determinado a redução do número de participantes do campeonato , a elaboração do regulamento pelos próprios clubes em conselho arbitral e otras cositas más que o leitor descobrirá no relato de Pablo. Sim, o vice-campeão e o terceiro colocado de 1986 foram alijados da Primeira Divisão de 1987. Mas era um novo campeonato, saindo do zero, que fatalmente cometeria alguma injustiça ao formar seu seleto clube de membros. E tudo aconteceu de maneira absolutamente legal, além de legítima, embora a CBF tenha depois manobrado a legalidade de sua maneira e escolhido quais normas lhe convinha ou não seguir para tentar reter o seu poder — e o das federações estaduais que lhe concediam esse poder.

O livro também expõe as artimanhas tragicômicas usadas pelo Sport para conquistar o Módulo Amarelo — que incluem literalmente SEQUESTRAR o árbitro da semifinal contra o Bangu, como confessou o próprio presidente do clube pernambucano na época — e as diversas violações do próprio regulamento da CBF e normas de CND ao longo da trajetória. O clubista mais/ clubista poderá ler o livro e concluir que, devido a todas as idas e vindas, não há campeão brasileiro legítimo em 1987; mas diante do exposto, sequer esse clubista poderá imaginar que o campeão legítimo é o Sport. Ou para usar palavras de Pablo, “só os desinformados e os desonestos” poderiam insistir nessa tese, “só que gente assim nunca escasseou no Brasil”.

O que causa a segunda sensação a que me referi no início do texto – e já chegarei lá -, porém, é o fato de que Pablo consegue demonstrar que a Copa União esteve longe de ser só mais um Campeonato Brasileiro. Ela foi a maior oportunidade desperdiçada para os clubes se livrarem do jugo no qual permanecem até hoje, de federações que servem apenas para sugar seu dinheiro, comandadas pela maior de todas, a CBF. A derrota — ou melhor dizendo, capitulação — do Clube dos Treze, em 1988, para a qual foi instrumental o papel de Judas desempenhado por Eurico Miranda, foi também a derrota do maior esforço moralizador que já houve no futebol brasileiro, do qual o Flamengo foi um dos grandes líderes. Assim foi colocado pelo próprio Caixa D’Água, por sua vez um dos principais líderes da resistência às mudanças, que afirmou que a eleição de Ricardo Teixeira, com a promessa de acabar com o Clube dos Treze — o que praticamente conseguiu, com a entidade passando a se resumir a um cartel negociador de direitos de TV até de fato acabar anos depois — foi, mais que a derrota do então presidente da CBF Octavio Pinto Guimarães: foi a derrota de Márcio Braga, do presidente do São Paulo, Carlos Miguel Aidar, e do presidente do CND, Manoel Tubino.

Além de ter conseguido o título, o Flamengo foi, sem dúvida, o grande líder dessa revolução frustrada, e um dos únicos que se manteve firme até o último momento, quando nas palavras de João Henrique Areias, os dez anos que os clubes haviam avançado em 1987, foram perdidos, junto com outros dez. Como chegamos a três décadas desde aquele 1987 e nada próximo do Clube dos Treze e da Copa União surgiu — temos neste momento a tímida Primeira Liga, que está longe de ter a mesma força e significado, e a CBF, mesmo com um presidente impedido de viajar por temor de ser preso, reduziu o poder dos clubes sem qualquer cerimônia — podemos concluir que Areias estava sendo até otimista.

Diante deste quadro, volto ao início: munido pelos argumentos muito bem documentados esgrimidos por Pablo, nunca estive tão convencido de que o Flamengo é o único campeão legítimo de 1987. E NUNCA FIZ TÃO POUCA QUESTÃO DE TER ESSE TÍTULO LEGÍTIMO RECONHECIDO PELO MESMO SISTEMA QUE O FLAMENGO DESAFIOU.

A falta de reconhecimento torna esse título ainda mais especial. O asterisco ao lado de 1987 na lista de títulos do Flamengo é uma marca que todos deveríamos carregar com orgulho – por Zico, deveríamos colocar o asterisco em cima do escudo nas camisas neste ano em que ele completa o 30º aniversário! O asterisco é a marca de uma luta que ganhamos dentro de campo, mas perdemos e seguimos perdendo fora: mas como diria Darcy Ribeiro, detestaria estar no lugar de quem nos venceu.

E se você achar que eu estou escrevendo tudo isso porque sou Flamengo e seria convencido de qualquer jeito, você pode estar parcialmente certo, mas revelo que o trabalho de Pablo é tão consistente que, mesmo usando a explicação apenas como pano de fundo, na introdução do livro, ele conseguiu me provar o que eu jamais tinha admitido antes: a disputa do Campeonato Brasileiro começou não em 1971, mas em 1967, e os vencedores do Robertão expandido são tão campeões brasileiros quanto seus sucessores — e isso inclui reconhecer que o Fluminense é tetracampeão brasileiro e que o Palmeiras tem seis títulos, coisa que não tenho nenhum prazer em fazer. Mas é a única conclusão honesta a que se pode chegar diante dos fatos históricos como se deram, e são narrados por Pablo, e não como foram reescritos pela CBF. Assim como é impossível não reconhecer que a taça que Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Ailton, Zinho, Zico, Renato, Bebeto e Carlinhos conquistaram em 1987 não só foi um Campeonato Brasileiro. Foi o maior Campeonato Brasileiro de todos os tempos. Com asterisco.

***

Poderia entrar em maior detalhe sobre os argumentos muito bem apresentados no livro muito bem escrito por Pablo, mas o monumental trabalho que ele produziu merece ser lido na íntegra por cada rubro-negro – sejam os legítimos, sejam os genéricos lá do Nordeste, que terão bastante a aprender.

“1987: a História Definitiva” está em processo de edição, a cargo da Maquinária Editora, e será lançado em novembro de 2017, às vésperas do 30° aniversário do tetracampeonato brasileiro. Para viabilizar a publicação da obra, a editora lançou uma promoção de pré-venda, a preços especiais, com um atrativo adicional: o leitor que comprar antecipadamente poderá, ainda, ver seu nome impresso no livro, num rol de beneméritos do Clube da Verdade 1987.

Eu ajudaria. Ajudaria não, já ajudei.

E viva o asterisco!

Atualização (04/11/2017): O livro foi publicado e já está à venda no site do submarino.

 
 
Rodrigo Rötzsch é jornalista.. Siga-o no Twitter: @rodrigorotzsch.
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