Com esta coluna, começo a finalizar minha viagem pelas memórias reavivadas pelo Philco Transglobe que me olha da estante. Trago pequenas recordações da década de 1980, já depois dos anos de ouro rubro-negros. São gols de jogos quase nunca lembrados, mas que foram marcantes para mim, porque trouxeram cura ou alívio em momentos de alma pesada pelos desencantos da vida.

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O rádio esportivo mudou bastante no final de 1988. Luiz Penido, então o “Juventude Globo”, pedia passagem, mas José Carlos Araújo ainda reinava absoluto nos 1220. Penido foi ser o Garotão da Galera na Tupi, levando consigo Eraldo Leite, que vinha de criar o Panorama Esportivo na última hora do dia, campeoníssimo de audiência. A Globo traria da Tupi uma trinca consagrada: Doalcei Camargo, Edson Mauro e Sérgio Noronha. A briga no Ipobe seria ponto a ponto.

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Mas tergiverso. Só o que pretendo nesta coluna é compartilhar algumas narrações que gravei em K7, após os jogos. Pequenos retratos sonoros de um triângulo amoroso: o Flamengo, o rádio e eu.



O primeiro gol é uma cabeçada de almanaque de Bebeto contra o Grêmio, em 1986, empatando um jogo que perdíamos em gol de Lima. José Carlos Araújo no auge, com direito ao auxílio luxuoso de Mário Vianna, e Gilson Ricardo atrás da meta.
 

 

 

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A segunda gravação é já em 1988, um dos últimos jogos do Flamengo narrado por Luiz Penido na Globo antes de sair para a Tupi. Flamengo campeão do Torneio Colombino na Espanha, vencendo o Real Zaragoza de virada e o Recreativo Huelva na prorrogação. Luvanor foi o grande jogador daquela conquista, e Francisco Horta, que comentou os jogos, afirmava que ele nos daria muitas alegrias. Ele não nos deu, mas tínhamos esperança, vejam vocês.



 

De 1989, escolhi três gols. Um do Maestro Junior contra o Guarani, e o segundo dos dois gols históricos de Bujica contra o Vasco, de pé em pé. Estes são com José Carlos Araújo, mas o terceiro gol daquele ano é para matar a saudade de um narrador que raramente fazia os jogos principais. Dário de Paula, voz poderosa e límpida, conta o gol de Nando, centroavante vindo do Bangu, marcado em Buenos Aires contra o Argentino Juniors, pela Supercopa Libertadores.


 

 
Cinco destes seis jogos guardam algo em comum entre si. Deles, apenas o jogo do Bujica foi transmitido pela televisão. É impensável, nos dias atuais, que jogos contra Guarani e Grêmio pelo campeonato brasileiro, um torneio na Europa e um jogo de competição sul-americana não tenham transmissão, seja na televisão aberta ou fechada. Porém, na longínqua década de 1980, era comum. O que nos unia era o rádio e a imaginação.
 

 
Ouvir o jogo era um ritual que só acabava quando conseguia gravar os gols. Ouvi-los agora, depois de tanto tempo, faz pairar no ar um Flamengo que não existe mais e que dói de tanta saudade. Mas ainda que o Flamengo não seja o mesmo, e que não chegue mais até mim com o chiado do rádio, ser Flamengo talvez seja das poucas coisas que não me desconecte da pessoa que já fui, dos sonhos que já tive e das dores que já curei. Afinal, como diz Djavan, ainda bem que sou Flamengo… Mesmo quando ele não vai bem, algo me diz em rubro-negro que o sofrimento leva além.

Semana que vem eu retorno, com o ponto final desta viagem.

 
Mauricio Neves é autor do livro “1981- O primeiro ano do resto de nossas vidas” e escreve no MRN todas as sextas-feiras. Siga-o no Twitter: @flapravaler
 


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