– Paiê!
– Quié?
– É verdade que o Flamengo é o filho do Fluminense?
– Oi?
– Isso mesmo. Que o Flamengo é o filho do Fluminense? Essa semana eles tavam falando do aniversário de fundação deles.
– Eu sei, e dai? Todo clube faz aniversário.
– Mas nisso de falar da história deles o Tavinho disse que o Flamengo é um filho, um apêndice do Fluminense. Por causa daquela história que você me contou, do time deles que fundou o nosso.
– [expressão de enfado, de quem terá que parar de ler o jornal]. Filho, vem cá…
– Isso não é verdade, né?



– Você precisa parar de dar conversa pra esse pessoal. Vamos lá. Como alguém pode ser filho de outro se é mais velho que esse outro?
– Como assim?
– O Fluminense foi fundado em 1902. O Flamengo é de 1895. Então, se o Flamengo é mais velho que o Fluminense, como pode ser seu filho?
– Mas o Tavinho falou…
– Esquece essa merda de Tavinho. Você tá bolado por causa da história do futebol, não é isso?
– Pois é, porque nosso primeiro time era o time deles…
– Então, está muito certo. Chega aí porque vou contar uma história pra você.
– [expressão de ansiedade, de quem vai ouvir uma revelação importante]. Opa, pode mandar.
– Há muito tempo atrás, lá pros idos de mil oitocentos e bolinha, alguns jovens de classe média alta, que as famílias mandavam pra estudar na Europa, começaram a voltar com algumas novidades do “Velho Mundo”.

– Até aí, nada de novo. Até hoje é assim.
– Pois é. Mas na época a grande novidade eram alguns esportes que começavam a ser criados e a ganhar popularidade por lá. Especialmente na Inglaterra.
– Certo.
– Um desses esportes era o futebol.
– Eita!
– Então. Lá pelos idos de mil oitocentos e noventa e pouco, alguns rapazes brasileiros chegaram ao Brasil trazendo bolas e equipamentos pra jogar futebol. Você já deve ter ouvido falar do Charles Miller.
– [apertando os olhos e enfim lembrando, após certo esforço] Aquele do bigodão?
– Isso, ele mesmo. Ele é considerado o precursor do futebol no Brasil.
– Tá, mas e o Flamengo com isso?
– [suspirando] Calma, porra! Vocês jovens são muito apressados. Pois, o Charles Miller embora tenha sido o primeiro (segundo a história mais contada, mas isso não vem ao caso), ele não foi o único a desembarcar trazendo a novidade.
– Hum.

– Poucos meses depois, um carioca, filho de ingleses, chamado Oscar Cox, também chegou ao Brasil trazendo toda uma traquitana. Bolas, chuteiras, fardamento, livros de regras, enfim.
– Certo. E o que o bigodudo fez em São Paulo, esse Cox aí fez no Rio.
– Mais ou menos isso. Chamou uma turma, explicou as regras e armou uma pelada. O pessoal gostou, então as peladas se tornaram frequentes, começou a juntar gente, tudo querendo saber como era, como não era, a coisa foi crescendo, então começaram a marcar matches…
– Matches?
– É, jogos. Começaram a marcar jogos contra a colônia inglesa (os caras já jogavam futebol em seus clubes fechados), enfim, tomou-se uma dimensão maior. Já não era mais só uma pelada de uma galera. O jogo alastrou-se tão rápido que não demorou muito o grupo do Cox já estava viajando pra fazer amistosos em São Paulo, contra o pessoal de lá.
– Maneiro.

– Então, chegou uma hora que a turma do Cox já não estava mais conseguindo dar conta de marcar jogos, providenciar campos, manter os uniformes limpos, comprar bolas novas, essas coisas.
– Entendi. Aí resolveram criar uma empresa.
– Quase isso. Lembre que estamos em mil novecentos e bolinha. Não se fundava empresa pra praticar esporte. E sim agremiações. Ou clubes.
– Hum… Então o Cox e sua galera criaram um clube pra jogar futebol.
– Meio isso. Foi em 1902, depois de muito tempo de discussões, convocações, reuniões canceladas, enfim. Iria se chamar Rio FC, mas tiveram um problema com o registro desse nome, então escolheram Fluminense FC.
– O Fluminense?
– Sim, ele mesmo.

– Certo. Até aqui tá sussa. Só não entendo uma coisa.
– O que?
– Por que o Flamengo, se era mais velho, já não tinha então um time de futebol?
– Porque na época o esporte “das massas” era o Rowing.
– Nunca ouvi falar nesse rouin aí.
– Foi mal. Empolguei. Rowing era Remo em inglês. Então, o esporte “popular” era o remo. Os principais clubes do Rio eram voltados para a prática de regatas. Em muitos domingos, organizavam-se regatas na Enseada de Botafogo, ou em Niterói, e juntava gente de tudo que é canto pra assistir. Eram eventos que duravam a tarde toda. Os remadores tinham uma aura de super-herois, as boas famílias estimulavam seus filhos homens a praticar o remo, as mocinhas suspiravam… Clubes como Flamengo, Botafogo, Vasco, Icaraí e Gragoatá, entre outros, dividiam as vitórias nas regatas. Então, o futebol, que na época estava começando a nascer, ainda não chegava perto de ter o mesmo prestígio. Isso só iria mudar algumas décadas depois.
– Legal. Não consigo imaginar uma corrida de barcos tendo esse sucesso todo. Mas e o Flamengo com o Fluminense? Chega que horas?
– Não adianta ter pressa. Preciso falar desses detalhes pra você entender a história toda.
– [resignado] Tá bom, tá bom. Continua, então.
– Então, como estava dizendo, depois de muitas idas e vindas conseguiram juntar 20 pessoas na casa de um deles. O Horácio. E, na casa do Horácio, deu-se a reunião que tratou da fundação do Fluminense FC.
– [meio entediado] Arrã.
– Daí que a casa do Horácio ficava na Rua Marquês de Abrantes 51, Flamengo.
– [dando um salto, brilhando o olho] Cumequié? Você está me dizendo que o Fluminense foi fundado no Flamengo?
– Isso mesmo. Aliás, a casa do Horácio não era muito distante da casa do Nestor, que foi a primeira sede do Flamengo.
– Tá ficando interessante…
– Tem mais. Como eu dizia, vinte pessoas participaram da reunião de fundação do Fluminense. Trataram da ata, do escudo, do uniforme, que seria cinza e branco, da bandeira…
– Tá bom, tá bom. Vá pros finalmentes logo!
– Peraí, moleque! A reunião foi presidida por um sujeito chamado Manoel Rios.
– Arrã.
– Daí que o Manoel Rios, que presidiu a reunião de fundação do Fluminense FC, era Sócio do Flamengo.
– [eufórico, gritando] É O QUÊ?
– Repetindo. O presidente da mesa da reunião de fundação do Fluminense FC se chamava Manoel Rios, associado do Flamengo.

– Mas isso é FANTÁSTICO. Vou ligar pro Tavinho AGORA. Ele tá f…
– Calma que não acabou. O Manoel Rios não era o único.
– Agora desembola logo. Quero todos os detalhes. Mesmo esses mais chatos [risos].
– É assim que você me agradece, moleque? Pois bem. Além do Manoel Rios, outros dois associados do Flamengo participaram dessa reunião. Arthur Gibbons e Virgílio Leite.
– Esse Virgílio Leite não me é estranho…
– Virgílio Leite era o Presidente do Flamengo na época.
– [enlouquecido] Peraí, agora tu tá de sacanagem. O PRESIDENTE DO FLAMENGO TAMBÉM FUNDOU O FLUMINENSE?
– Me respeite, moleque! É isso aí. Com todos os efes e erres.
– [gritando como num gol] PORRA, AGORA NINGUÉM ME SEGURA. VOU SAIR DAQUI VOADO, E É AGORA!
– Só mais um pouco. Estou quase concluindo.
– [mais calmo] Foi mal. É que não esperava essa história. Nunca tinha ouvido falar disso.
– Bem, não vai ser da boca de um tricolor que você vai ouvir, né?
– [risos]
– Enfim, em 1902 o Presidente do Flamengo era o Virgílio Leite. A essa época, com as várias vitórias nas regatas e o aumento do prestígio, o número de associados do Flamengo já vinha aumentando progressivamente. Então, o Virgílio Leite colocou em votação e aprovou a mudança de nome da agremiação. Mudou a denominação de Grupo de Regatas para Clube de Regatas do Flamengo, nome que permanece até hoje.
– [balbuciando] Maneiro. O Presidente do Flamengo. Fundou o Fluminense…
– Ainda há uma história com o Virgílio Leite. Ele seria Presidente do Flamengo em outras ocasiões (na época o mandato durava um ano). Uma delas foi justamente em 1911, quando o pessoal do Fluminense brigou com o clube e veio pedir teto ao Flamengo. Aí o resto é a história que você já conhece. Pois, o Presidente do Flamengo que criou a Seção de Desportos Terrestres (Futebol) foi o Virgílio Leite.
– Impressionante.

– Aliás, os outros dois sócios do Flamengo de que falei, que fundaram o Fluminense, também foram Presidentes do Flamengo. O Arthur Gibbons sucedeu o Virgílio Leite em 1903 e o Manoel Rios presidiu o rubro-negro em 1905.
– Carai, quer dizer que três Presidentes do Flamengo fundaram o Fluminense…
– Isso mesmo. E ainda há uma história interessante. Em 1906, um dirigente chamado Francis Walter acumulou as Presidências dos dois clubes. Foi, ao mesmo tempo, Presidente do Flamengo e do Fluminense.
– Tô achando muito misturado isso aí. Como alguém vai ser presidente do rival?
– É que na época os dois clubes não eram rivais. Na verdade, consideravam-se extensão um do outro. Lembre-se que a prática de esportes era algo restrito a jovens de classe média alta, universitários, essas coisas. Então, muita gente remava pelo Flamengo e jogava futebol pelo Fluminense, frequentava as duas sedes, enfim. Como os clubes ficavam mais ou menos próximos, isso era facilitado. Mas aos poucos o Fluminense foi assumindo um caráter ainda mais elitista, enquanto o Flamengo se pautou pela irreverência, pela galhofa, pelo improviso.
– E a rivalidade?

– A rivalidade só começou a aparecer no futebol. Em qualquer esporte, para existir rivalidade, é necessário o duelo, o confronto. Enquanto um era do remo e o outro do futebol, tudo era amor. Depois que ambos passaram a dividir títulos no futebol, a relação passou a ser outra. Até porque o Flamengo já “chegou chegando”, foi logo ganhando dois títulos, impôs ao Fluminense, que nadava de braçada, um jejum de campeonatos… Enfim, essa era a história que eu queria lhe contar.
– Pô pai, valeu mesmo. Espera até a galera saber disso. Nunca mais Tavinho vai se criar.
– Pois é. Toda vez que alguém vier com esse papo de “pai, filho”, lembre-se do que eu lhe falei.
– Não vou esquecer. Fui! [e sai apressado]
– Esses garotos… [sorri e volta a ler seu jornal]

Ilustração de Mario Alberto (Twitter: MarioACharges) para seu livro Meu Pequeno Rubro-Negro, ed. Belas Letras.

 
Adriano Melo escreve seus Alfarrábios todas as quartas-feiras aqui no MRN e também no Buteco do Flamengo. Siga-o no Twitter: @Adrianomelo72
 


Fotos no post: Reprodução. Imagem no post e destacada nas redes sociais: ilustração de Mario Alberto (Twitter: MarioACharges) para seu livro Meu Pequeno Rubro-Negro, ed. Belas Letras.

 


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