Já morei no Irajá.

Quer dizer, não era bem o Irajá. A Rua São Leonardo faz uma espécie de “linha fronteiriça” com Vista Alegre, bairro ali colado. Então, de pequeno sempre escutava morar “na Rua São Leonardo, em Vista Alegre”, o que não vai mudar o preço do dólar, ao fim das contas.

Corriam os idos de 1977.



Família começando a vida, eu o mais velho de dois filhos pequenos, meu pai trabalhando numa fábrica na Avenida Brasil em regime de plantão, minha mãe em casa cuidando das crianças, ou seja, nós. Vida simples, sossegada, sem luxos mas sem faltar nada.

 
Avenida Brasil… A descomunal, ampla e vasta passarela de veículos nervosos, rasgando-se em plena velocidade, era como uma porta de entrada para o mundo. Sair do sufocante cercado das vielas de Vista Alegre e ter diante de si toda uma existência, um universo querendo ser explorado, tateado, sentido. E, no horizonte de uma criança de cinco anos, isso se resumia às compras do mês no Carrefour (uma aventura sempre consumada com um brinquedo, um indefectível caminhãozinho de plástico tratado qual preciosa joia), ao sundae de morango na beira da pista, às inevitáveis passagens por um valão preto que fedia tanto que parecia ser o riacho de entrada do inferno. Ou aos domingos na Urca. Sim, a Urca. Dia de Urca era dia de festa, era a tarde no parquinho, no velotrol, de correria em algum gramado, de picolé, de pipoca, da tarde silenciosa no pé do morro à brisa da maresia que amolecia corpos e mentes. Até o triste momento da volta pra casa e pra realidade da rotina de todo dia de arroz e feijão.

Rotina muitas vezes vivida à frente da Telefunken em branco e preto, que tocava musiquinhas diárias anunciando coisas que interessavam à mãe ou ao pai, dependendo do horário. “Hora do jornal, hora da novela, você é muito pequeno pra isso. Vá pro quarto”. As barulhentas corridas de fitipaldi, essas eram liberadas. Mas logo me entediava ficar vendo uns carros pra lá e pra cá, um cara de voz grave falando coisas que eu não compreendia. Um dia apareceu algo pegando fogo, uma fumaça preta, meu pai me levando rápido pro quarto, fiquei sem entender nada.
 


 
O cotidiano também dentro do meu quarto verde, onde construía meus “enredos fantásticos” com minhas corridas de carrinhos, ou as lutas com os bonecos, essas coisas de criança. Sim, quarto verde. Tinha o nosso quarto verde e o quarto dos adultos (mãe e pai), que era rosa. Parece que o dono do apartamento (alugado) era mangueirense, bem depois soube. Não deixou repintar. Mas não incomodava.

Um dia cruzamos um túnel e fomos parar num lugar de praia, um calçadão grande, tão colorido, cheio de luzes ofuscantes, um sol que cegava a gente, balões enormes, carros, gente pra lá e pra cá, causando revolução na minha cabecinha de menino, o olho brilhando, sem saber onde pousar. Meu pai não curtia muito ir na área Sul, achava tudo muito caro, muito tumulto, ruim pra estacionar. Ele tinha um Doginho amarelo, morria de ciúme do carro, só não gostava que dava muito defeito. Tava juntando dinheiro pra trocar num Passat.

Da escola eu gostava. Tinha os coleguinhas que eu já tava acostumado, a professora era legal, carinhosa, tinha espaço pra brincar, gangorra, escorrega, era divertido. E faziam uns passeios agradáveis, conheci uma fábrica de refrigerante, aquele mundo de garrafa pra lá e pra cá, depois fomos numa floresta grande, um lugar cheio de árvores, tomamos banho num laguinho, essas coisas. É interessante como não precisa de muita coisa para fazer a vida de uma criança se encher de fantasia.

E tinha o Flamengo.

Meu pai sempre falava do Flamengo, sempre dizia que um dia a gente ia ver jogo do Flamengo, que agora não dava, que eu era muito pequeno e tal. E eu não sabia o que o Flamengo fazia, mal e porcamente chutava bola pra lá e pra cá, mas não tinha ideia do que era futebol. Só sabia que existia o Flamengo, e que o Flamengo era um super-herói que toda hora estava envolvido numa luta do bem contra o mal.

“Papai, o Flamengo ganhou hoje?”

 
Da resposta a essa pergunta dependia toda a integridade anímica do meu dia. Dissesse, “Sim, meu filho, hoje o Flamengo ganhou”, e tudo se descortinaria em ânimo e alegria. Eu desceria correndo as escadas do prédio e sairia gritando de felicidade, pronto a chutar ou atirar alguma coisa, ou a pedalar no meu jipe de lata. Mas, saísse a resposta “Não, hoje não deu. Perdemos”, e tudo estaria inapelavelmente arrebentado. A comida entraria empurrada, o muxoxo no canto do quarto, a falta de vontade pras coisas. Como o bem não vence o mal? Era algo muito complexo, transcendental.

Meu pai gostava de ir ao Maracanã, mas tinha meio que parado com o hábito, por conta do horário da fábrica. Ia mais raramente agora. Mas conhecia um pessoal do Bangu, chegou a pegar amizade com um zagueiro Ananias, gostava de trocar ideia com o Zózimo, que foi campeão do mundo e morreu precocemente, foi sócio do Flamengo e de vez em quando ia ver os treinos, participava. Às vezes, quando ele ia pro ponto da Avenida Brasil esperar a condução pra fábrica, aparecia um sujeito magro, irrequieto, cheio de pente e gingado, elegante todo na calça boca de sino e a camisa de botões estampada meio aberta, o embrulho debaixo do braço levando um par de chuteiras. Tava indo treinar, tinha que pegar três conduções pra chegar na Gávea. “E aí Vanderlei, o Mengão tá firme pra domingo? Olhe lá, hein?”, e o lateral-esquerdo, só no meneio, respondia com um sorriso, engatando uma conversa amena e tão breve quanto o tempo de espera.

Um dia meu pai foi levar o Doginho no posto pra botar gasolina. Pouco antes de chegar, viu um movimento estranho, pessoas correndo. Parou o carro e se entocou na esquina. Alarido, gritaria, tiros. Gente caída no chão. Era um assalto. Escapara por pouco, questão de minutos. Parou, pensou. E pensou mais um pouco. Gostava do trabalho, era louco pela cidade. Mas coisas como isso do posto estavam ficando cada vez mais frequentes. E chegando aos lugares mais improváveis. Dois filhos pequenos, família. Assim não podia ser. Lembrou-se da proposta. Estavam abrindo fábricas na Bahia e precisavam de gente qualificada, com experiência. E pagavam bem, coisa de dobro ou triplo. Muitos colegas já haviam aceitado. Ele relutava. Não queria ir, não queria sair de onde estava estabelecido, da cidade onde se sentia tão bem. Mas as circunstâncias se impuseram.

E de repente, não mais o sorvete, não mais a Urca, não mais o Carrefour, não mais o valão, não mais a praia colorida, não mais os coleguinhas, não mais o quarto verde, não mais nada. Toda uma existência, toda uma vida empacotada num caminhão trambolhudo num monte de caixas feias, tristes e sem cor. Ao menos uma última aventura nos foi dada, a de ir na caçamba do bicho, com o vento na cara. Zé Buscapé.

“Pai, o que é Bahia? É um lugar bem longe”, “Na Bahia tem sorvete? Tem, sim”. “Na Bahia tem praia? Também tem, meu filho”. “Tem Urca? Não, lá não tem Urca”. “Pai, na Bahia tem Flamengo? Sim, o Flamengo está em todo lugar”.

“Pai, quando é que a gente volta pro Rio?”

“Breve”.

* * *

Nunca mais voltei à Rua São Leonardo.

Depois de quarenta anos, a gente passa a relevar determinadas reminiscências, guardando-as com certo carinho, às vezes passando pano nas memórias, mas com o cuidado de não se tornar delas escravo. Vez por outra vem à mente uma ou outra tinta dessa breve existência de carioca, usualmente provocada por alguma passagem que meu pai até hoje conta (ele ainda se diverte ao recordar a figura do espevitado Vanderlei). Assim foi, e assim é. Mas às vezes a vida gosta de nos pregar peças, de nos atiçar com suas ironias.

Pois. Sai a notícia de que o Flamengo pensa em comprar um terreno pra fazer seu Estádio. E aparece o terreno. E surge gente do Flamengo confirmando a história. E os jornais já se apressam em estampar mapas, e fotos de satélite, entre outros apetrechos e análises de se é bom, se é ruim, de onde é perto ou longe, se vai ser vantajoso, quais os problemas, essas coisas que hoje em dia já se gosta de cravar, pro bem ou pro mal, antes mesmo de se ter a certeza.

O terreno fica em Manguinhos. Era uma Fábrica de Metanol. A Fábrica. A fábrica onde meu pai trabalhou durante tantos anos.

Não sei se essa história do Estádio vai prosperar ou não. Se é despiste para pressionar o Maracanã. Se é “coelho” escondendo outro terreno. Se o lugar é violento ou não. Se vão construir, se vão dar com a cara na porta, se é uma coisa boa, se é apenas conversa mole. Não sei de nada disso, e por enquanto não quero saber, até que isso ganhe mesmo corpo ou não.

O que sei, e isso eu tenho todo o direito de saber, é que, de uma forma ou de outra, um estranho e extravagante enredo se forma na minha irrequieta mente. De repente, volto a ter cinco anos, a tomar meu sorvete, a correr pela Urca, a brincar de carrinho no meu quarto verde, a cegar com a praia brilhante do Sul. E agora, sentindo o fedor da valeta que vai dar na Avenida, meu pai está me levando pro Ponto de Ônibus esperar a condução. Estamos indo pra Fábrica. Vestimos negro. E vermelho.

Vamos ver o jogo do Mengão.

 
Adriano Melo escreve seus Alfarrábios todas as quartas-feiras aqui no MRN e também no Buteco do Flamengo. Siga-o no Twitter: @Adrianomelo72
 

Imagens do post e destacada nas redes sociais: Reprodução
 


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