O balanço do Flamengo, hoje em dia, é cool. O Conselho Deliberativo sequer foi convocado para analisá-lo, mas já há por aí umas 10 análises publicadas sobre ele, feitas por torcedores rubro-negros, consultores em gestão esportiva, jornalistas especializados, blogueiros famosos ou nem tanto, enfim, gente pra caramba já dissecou as entranhas daqueles números auspiciosos.

Eu fui convidado pelo MUNDO RUBRO NEGRO para ser mais um desses analistas. Imagino que o convite seja uma gentil deferência ao fato de eu me dedicar a olhar esses números desde que Marcio Braga era presidente. Lembro bem que antigamente o balanço era publicado no mesmo dia que eu entrego a minha declaração de Imposto de Renda, ou seja, no último dia do prazo.

Mas isso nem era o pior.

Pra começo de conversa, o balanço ficava meio escondido lá no site. Aliás, ele só estava lá porque a lei obrigava. Me lembro de um ano, já na gestão da Patricia Amorim, que ele foi parar na seção de Notícias. Porém o responsável pelo site fez questão de desligar o alimentador (“RSS Feeds”) para que ninguém ficasse sabendo desta publicação.

E depois que a gente achava o balanço, entendê-lo era ainda mais difícil. O clube adotava uma lógica contábil diferente da atual e algumas coisas eram inusitadas. A dívida do Consórcio Plaza está afetando o resultado? Então vamos tirá-la da provisão de contingência, bola pra frente. O patrimônio líquido está muito negativo? Então vamos contratar um laudo para reavaliar a propriedade imobiliária da Gávea, afinal naquele enclave do Leblon/Gávea/Lagoa o metro quadrado vale uma fortuna – o fato de que a gente não consegue nem cortar uma árvore ali é só um detalhe do mundo real que não precisa ser expressado em algarismos.


Eu gostava de usar o balanço do Flamengo no treinamento interno de advogados e estagiários recém contratados no meu trabalho – e estou falando sério. É muito raro que advogados tenham familiaridade com demonstrativos financeiros, mas naquela época eu estava trabalhando em uma quantidade insana de processos judiciais movidos por acionistas minoritários onde o balanço patrimonial era o centro da controvérsia.

Balanços patrimoniais, via de regra, são a coisa mais insossa que um departamento pode produzir, tanto assim que os pareceres dos auditores independentes parecem sempre seguir a regra do “copy and paste” e o relatório da diretoria é uma mera formalidade. Menos os do Flamengo de antigamente….já naquela época os pareceres dos auditores eram extensos, cheios de alertas, avisos, súplicas para que o clube tomasse tenência…e eu ficava imaginando como os dirigentes e, convenhamos, os sócios podiam ler aquilo e agir com a fleuma de quem nada tem a ver com o desastre financeiro.

Eu tinha a forte impressão de que praticamente ninguém dava bola para aqueles demonstrativos macambúzios, mas que eram riquíssimos como aprendizado de tudo o que não se deve fazer na gestão de uma instituição, daí porque eu os adotei como paradigmas dos meus treinamentos e passei a escrever os primeiros artigos sobre os malditos balanços.

Naqueles tempos, que parecem tão distantes, mas foram nessa década mesmo, também era de bom tom falar mal dos dirigentes e seus feitos, elogios eram só para os jogadores (vá lá, de vez em quando). Como se diz por aí, parece que esse jogo virou, ou melhor, se inverteu, porque hoje sobram elogios para a cartolagem e jogadores são perseguidos impiedosamente, mas isso também não vem ao caso, só lembrei disso porque já naquela época eu também falava mal dos cartolas, mas já tinha o hábito que até hoje me acompanha, de procurar ver o lado bom em tudo que tem Flamengo no meio, até naqueles balanços tristonhos eu conseguia ver boas notícias e vislumbrar que dias melhores poderiam vir, como de fato vieram.

E quando, muito honrado, aceitei o convite deste MUNDO RUBRO NEGRO para falar do balanço, eu não imaginava que o balanço sairia com quase 30 dias de antecedência, sendo publicado bem no dia em que eu saí de férias e deixei o computador em casa.

O que mais alguém pode dizer sobre este balanço tão hipster 2 semanas depois que ele já foi escarafunchado por tanta gente mais qualificada e séria do que eu?

Pouca coisa, talvez. Mas coisas que espero não tenham sido ditas ou ao menos não tenham sido tão destacadas.

Uma delas é sobre o “ano mágico”. Desde 2013 algumas pessoas me perguntam quando seria o “ano mágico”, ou seja, o momento em que o Flamengo teria dinheiro bastante para fazer a diferença no futebol.

A má notícia, antecipo, é que não há e nem haverá propriamente um “ano mágico”. O Flamengo era um obeso mórbido que não fez uma cirurgia bariátrica, mas sim um lento processo de reeducação alimentar, no qual, diga-se de passagem, ainda não perdeu nem a metade dos excessos conquistados quando usava e abusava do pecado da gula.

Mas eu sempre disse – e mantenho – que o ano da “virada”, isto é, o ano em que o peso das dívidas passadas será menor do que a sobra para investimento será 2018. Não que em 2018 o clube vá ter dinheiro a rodo para contratar quem bem entender. Mas pela primeira vez o clube poderá ter um excedente de caixa que realmente comece a fazer diferença.

Vejam, por exemplo, um dado muito interessante do balanço de 2016.

Quando em 2013 o Flamengo começou a pagar seus impostos atrasados, obviamente não havia dinheiro para dar conta do parcelamento na Receita e ainda tocar o dia-a-dia. Foi necessário recorrer ao mercado de crédito para honrar as prestações, o que gerou críticas de que o clube estaria simplesmente trocando um credor público por credores privados.

Pois bem. Em 2016, pela primeira vez o volume de empréstimos caiu, de R$ 161 milhões para R$ 111 milhões, sendo que 85% deles vencem até o final de 2017. Acrescento que ao longo deste ano o clube previu captar mais R$ 50 milhões de empréstimos. Se tudo der certo, o clube chegará em dezembro devendo menos de R$ 100 milhões de seus financiamentos.

Ora, como a dívida tributária (R$ 282 milhões) foi parcelada em 20 anos, em 2018, pela primeira vez o superávit do clube deverá ser mais ou menos o dobro do que será gasto com o carregamento de exercícios passados. Por isso 2018 não será um ano mágico, não será um ano mitológico, não será um ano folgado. Mas será, talvez, o primeiro de muitos anos onde o clube terá a capacidade de investir com mais tranquilidade.

Por falar nisso, bom notar que o clube praticamente dobrou o valor dos direitos econômicos dos seus atletas em apenas 2 anos. Em 2014 eram R$ 37,5 milhões e em 2016 saltaram para R$ 74 milhões. Não é de se estranhar que o desempenho em campo tenha acompanhado esse crescimento.

Claro que nem tudo são flores: por exemplo, serão necessários R$ 11,3 milhões para pagar a parte que falta dos direitos de Rodinei, Cuéllar e Mancuello, que malgrado custarem uma boa grana, são habitués do banco de reservas e às vezes nem isso. Sem falar no Cirino, o homem de 3,5 milhões de euros, mais juros de 10% ao ano, que São Judas Tadeu nos proteja de vir outro igual a ele agora que rompemos a barreira dos 80 mil STs, entendedores entenderão.

Tem mais coisa chata de lembrar também. Todo mundo gosta dos Esportes Olímpicos, ai de mim falar mal deles aqui ou em qualquer outro espaço, mas fiquem sabendo que o prejuízo por mantê-los foi de quase R$ 5,9 milhões em 2016. (Nota do Editor: André Amaral antecipou uma explicação sobre o item negativado no balanço. Vale a leitura em aqui)

Dinheiro pra caramba, mas pequeno quando comparado ao rombo da conta “outros”, onde entram a sede, o clube social e tudo o que não for futebol ou esportes olímpicos. Embora essa conta “outros” precise ser relativizada, afinal o clube precisa ter uma sede, tem o estádio José Bastos Padilha e seus jogos das categorias de base, tem o patrimônio imobiliário, o Morro da Viúva, etc e tal., não custa lembrar que o futebol, sozinho, gerou um superávit de R$ 220 milhões e o superávit do CRF foi de R$ 191 milhões. Arredondando, foram uns R$ 30 milhões de “prejuízo”, consumidos pelas atividades off-futebol.

Por falar em superávit, que coisa, hein? O Flamengo tem uma “rentabilidade” (isto é, o superávit comparado à arrecadação líquida) de quase 40%! Vá lá que os números receberam um reforço da antecipação das luvas da Globo (o Flamengo registrou no seu balanço de 2016 as parcelas futuras), mas ainda assim é um resultado espantoso.

Afinal, basta lembrar que em 2009 – aquele sim um ano mágico, quando um time formado por um atacante de vida errática, um armador que comprou a vaga no time para retardar sua aposentadoria e um goleiro psicopata que alimentou seus cachorros com o corpo da ex-namorada foi hexacampeão brasileiro – a situação era praticamente a inversa: o clube tinha um prejuízo que era equivalente a uns 30% da sua receita. Vocês acreditam que naquele Maracanã lotado até a tampa em todos os jogos o Flamengo só tinha conseguido faturar R$ 20 milhões naquela temporada memorável? Pois é…

E como o Flamengo virou esse jogo? Detesto lembrar, mas foi fazendo o inverso do que deseja parte expressiva de seus fãs: cobrando ingressos caros, levando o time para jogar onde dê lucro, vendendo planos de ST só para quem tem cartão de crédito e oferecendo pouca coisa em troca, contratando jogadores pagando o menos possível de direitos econômicos.

Até quando vamos seguir assim? Para sempre, espero. Mas se serve de consolo, o balanço de 2016 traz o alento definitivo: o pior já passou. Daqui para a frente, a tendência é só melhorar. Que São Judas Tadeu, já falei nele hoje, siga olhando por nós, porque só ele pode explicar que o Flamengo não tenha sucumbido nos tempos de grana curta e gastos fartos.

 
Walter Monteiro é advogado com MBA em Administração. Membro das Comissões de Finanças do Conselho Deliberativo e do Conselho de Administração do Clube de Regatas do Flamengo. Escreve sobre as finanças do clube desde 2009, em diferentes espaços

 

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