“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativou.”
 

A frase acima, escrita pelo francês Antoine de Saint-Exupéry, encontrada no seu famoso livro “O Pequeno Príncipe”, é um dos pensamentos mais disseminados pelo mundo. Virou lugar-comum, clichê.

O que chamou a atenção em relação a chegada de Reinaldo Rueda ao Flamengo foi o movimento da torcida. Por mais que qualquer dirigente do clube diga o contrário, quem contratou Reinaldo Rueda foi o torcedor. Cansado das decisões azonzadas dos últimos anos, o rubro-negro resolveu encarar o departamento de futebol do clube, que mostrava-se desorientado mais uma vez. A primeira opção foi Roger Machado. Se este não tivesse negado o convite, Rueda sequer receberia um contato do Flamengo.



Com contrato até o final de 2018, a passagem do colombiano precisa ser agora respaldada não apenas pela diretoria, sejam os primeiros resultados ruins ou até péssimos. A torcida se tornou responsável por aquilo que cativou: Rueda está no Flamengo exclusivamente a seu pedido.

Após a apresentação do treinador na sala Victorino Chermont, no Ninho do Urubu, muitos jornalistas, comentaristas, ex-jogadores e até o técnico do Botafogo, Jair Ventura, coincidentemente adversário de estreia de Rueda, demonstraram desconforto com a chegada do estrangeiro.
 

 
A vinda do último campeão da Libertadores, que estava na Europa fazendo cursos, oficinas e debatendo futebol com nomes do quilate de Joachim Löw, Carlo Ancelotti, Peter Bosz, Pepe Guardiola, Marcelo Bielsa, entre outros, em congressos de intertemporada, parece ter ficado em segundo plano para muitos articuladores da imprensa que pedem uma retomada de técnicos estudiosos no Brasil.


Antes mesmo de proferidas estas sentenças de insucesso, recalque e até xenofobia por parte de alguns, lúcidos torcedores começavam o importante processo de conscientização daqueles menos sagazes. Estes torcedores audazes serão fundamentais. Precisarão de grande força mental nos momentos de insatisfação pós-jogo, serão chamados de torcedores de diretoria, serão alvos de impropérios daqueles que dias atrás soltavam rojões com o anúncio.

Reinaldo Rueda tem tudo para dar certo no médio prazo. Entretanto, os desafios mais próximos podem estremecer quem acredita em salvadores que andam pela terra e se denominam treinadores de futebol. Eles até podem ajudar bastante assim que chegam em terras arrasadas, porém, vencer o Botafogo na quarta não deve ser considerada a prova-de-fogo do novo comandante. Muito menos passar para as finais da Copa do Brasil. Ou ser campeão da Sul-Americana.

O que a torcida deve fazer a partir de agora é confiar em si mesma. Ao trazer seu nome preferido para treinar o forte time do Fla, pôs a roda pra girar, com o perdão do trocadilho. Agora deve cumprir seu papel secular: o de torcer nas arquibancadas, carregar o time, transferir sua força vital para aqueles jogadores que nos últimos jogos atuam como se estivessem adoecidos, uns tão entregues que até parecem desenganados.

O mundo não pode acabar se o ano terminar sem título. É necessário que todo rubro-negro tenha em mente que seu apoio incondicional a Reinaldo Rueda será fundamental para evitar as famosas panelinhas de jogadores insatisfeitos com a reserva e/ou implemento de metodologia que exige trabalho, dedicação e disciplina.

Também será importante esse acordão para não deixarmos a imprensa minar o trabalho com suas convicções oportunistas, seus direcionamentos sensacionalistas em torno do circo e da polêmica e, em última análise, para que não digam que estavam certos em suas narrativas canalhas, vaidosas e anti-flamenguistas.
 

 
Além disso, o triunfo de Rueda será um pé no saco do corporativismo e da moleza instaurada no círculo de técnicos brasileiros. Jair Ventura não é apenas xenófobo. Quando ele critica a chegada de um estrangeiro há um claro pedido nas entrelinhas: a manutenção dos clubes brasileiros como reféns de um pequeno grupo de técnicos brasileiros que passarão uma geração inteira revezando-se entre eles, pulando de um para outro, após cada fase ruim. Essa ciranda de técnicos no futebol brasileiro prejudica apenas os clubes e seus torcedores, sob o ponto de vista financeiro e esportivo. Se engana quem acredita que os técnicos são vítimas desse sistema viciado. Até a imprensa movimenta sua programação com a ida e vinda dos cavalinhos felizes desse carrossel da bola tupiniquim.

Um Rueda campeão de tudo no Flamengo forçará Jair, Renato, Dorival, Luxa, Levir, Cuca e tantos outros a saírem do comodismo, sob pena perpétua da perda de espaço entre os doze grandes. Separará os homens dos meninos, os sérios dos brincantes, os motivadores dos estrategistas, quem aprendeu de quem apenas estuda.

Neste mundo repleto de clichês, o mais sofrido para a torcida é aquele que diz que o Flamengo perdeu seu DNA vencedor nas últimas três décadas. Se Rueda vai conseguir a cura, ninguém sabe. O nosso dever é confiar até o fim. Sem esquecermos a responsabilidade por aquilo que cativamos.
 


*O Pequeno Príncipe. Antoine de Saint-Exupéry. Da tradução de Ferreira Gullar; Editora Agir, 2014.

 
 
Diogo Almeida é editor-chefe do Mundorubronegro.com. Também escreve no coletivo Cultura RN. Siga-o no Twitter: @DidaZico.
 


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Imagem no post e destacada nas redes sociais: Divulgação / Botafogo

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