saloon do urubu

“O Pistoleiro começou a subir e, após um momento, Jake foi atrás. Juntos galgaram o caótico amontoado de rocha ao lado das quedas d’água, frias como aço, e pararam onde o Homem de Preto havia parado. E juntos entraram onde ele havia desaparecido. A escuridão os engoliu.”

  

Difícil dizer onde começou a Era das Trevas no Flamengo, mas penso haver uma concordância razoável que seria em algum ponto após a sequência gloriosa de títulos dos anos 80 que culminou no penta em 92. Claro que por ‘Era das Trevas’ me refiro ao caos financeiro e administrativo que tomou conta do Clube. Nada referente ao Mengão dentro de campo.

Lógico que quando se ignora as Leis Fundamentais do Sr. Adam Smith por anos seguidos a conta vai ser cobrada em algum momento lá na frente. Todo rubro-negro sabe que essa conta chegou faz tempo. E a eleição d’Os Azuis foi pra tentar tirar o clube desse beco sem saída financeiro. Porque neste mundo, em particular no futebol, não há nada de graça. Como defender a honra, a história e as tradições do Clube de Regatas do Flamengo sem dinheiro? Um clube sem dinheiro fica refém de tudo e de todos, principalmente dos mal-intencionados.

E é aí que entra aquele trecho entre aspas do começo do texto. Ele relata a entrada do Pistoleiro e do garoto Jake (sim, é um garoto) em um túnel no encalço do Homem de Preto. É o primeiro livro da série ‘A Torre Negra’, do Stephen King. Jake e o Pistoleiro precisam atravessar esse túnel em completa escuridão, tateando no escuro em busca da saída e acompanhados todo o tempo pelo ronco forte de um rio.

gunslingers low mutants

O Pistoleiro e o garoto Jake, e também o Flamengo, precisam atravessar o túnel na escuridão e enfrentar seus perigos

Bem poderíamos dizer o mesmo do Flamengo. Perdido num túnel de escuridão, sem saber ao certo pra onde ir, refém do acaso e incapaz de tomar decisões fortes para o bem do clube (falta de grana), nosso Mais Querido avançava trôpego. E sempre acompanhado pelo ronco forte de sua torcida que na maior parte do tempo vaiava a sequência de anos sem protagonismo nas principais competições, quando não ausente delas. Ao longo do túnel, o Pistoleiro conta para Jake a decadência de sua terra natal. ‘Transformaram a coisa em algo decadente. Um brinquedo. Um jogo.’ E completa: ‘ Os reis acabaram, rapaz. Pelo menos no mundo da luz.’

Nesse túnel de escuridão o Flamengo podia se dar conta da sua decadência pelas vozes que vinham de sua torcida. Desânimo, críticas feroses, referências ao bom-mesmo-era-na-época-do-time-de-81. Vaias. Crise financeira sem fim. E todos se perguntavam se haveria saída. A mesma pergunta que o Pistoleiro e o garoto Jake se fazem o tempo todo. A torcida arco-íris não hesitava em decretar que saída não havia.

E então, após dias e dias vagando pela escuridão, o Pistoleiro e o garoto Jake encontram uma estrada de ferro. E um vagonete, como nos antigos desenhos animados. E juntos, agora sem precisar tatear, eles avançam pela escuridão ligeiros na estrada de ferro, bombeando a manivela do vagonete num contínuo vaivém. Logo divisam um tênue faxo de luz que anuncia a saída e continuam a avançar até o ponto em que se deparam com um viaduto em péssimas condições que obrigará o Pistoleiro a tomar uma decisão dramática.

O Flamengo, após anos e anos vagando pela escuridão, encontrou uma estrada de ferro. A estrada de ferro é a convicção de que não se pode driblar as Leis do Mercado. Não pode gastar mais do que tem. É um caminho rígido, reto. Uma estrada de ferro. Os Azuis seriam o vagonete que permite avançar com maior rapidez pela estrada de ferro e que já nos faz, vejam vocês!, enxergar uma tênue luz no fim do túnel. Muito bem fez o Flamengo em encontrar sua estrada de ferro e seu vagonete azul pois a crise econômica que começa a tomar conta do Brasil chegou pra ficar e a época das vacas magras só começou. Ainda vai piorar bastante antes de melhorar.  A crise com certeza fará nossa saída do túnel ser mais demorada, mas enquanto o Flamengo se mantiver na estrada de ferro e impulsionado pelo vagonete azul a luz no fim do túnel vai ficar cada dia mais próxima.

 

Sérgio Vieira é Mengão, fã d’A Torre Negra e escreve histórias de faroeste no seu blog  http://poeiraepedra.blogspot.com

 

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