Uma federação que impõe seus regulamentos à revelia dos clubes grandes e só serve para explorá-los. Uma aliança inquebrantável entre essa federação e o Vasco da Gama de Eurico Miranda, que leva outros clubes a se rebelarem e ameaçarem de desistir do campeonato. Um campeonato jogado mais nos tribunais do que em campo, com o Maracanã deixado de lado em nome de pequenos estádios com baixa capacidade. Um dos mais tradicionais clubes do Estado envolvido em uma série de rebaixamentos que desvalorizam a dificuldade da conquista dos riivais. Por fim, uma tentativa frustrada de criar um campeonato paralelo para esvaziar de vez o Estadual, abortada pela aliança entre federações estaduais e CBF.

Parece que estou descrevendo o atual cenário do Campeonato Carioca, que chega neste fim de semana às semifinais sob reduzido interesse do público – o Flamengo anunciou no fim da quinta-feira que apenas 5.700 entradas já foram vendidas para o clássico contra o Botafogo. Mas estou resumindo a situação na virada do século, período em que, após ameaçar até migrar para Araçatuba e não comparecer às últimas partidas do campeonato de 1998 pelo claro favorecimento da Ferj de Caixa D’Água ao Vasco, o Flamengo enfileirou uma série de três campeonatos seguidos sobre o maior rival, encerrada com o mítico gol de Pet – que nenhum rubro-negro ousaria dizer que valeu nada.

Entretanto, aquele gol histórico poderia ter sido o canto do cisne do Campeonato Carioca. No ano seguinte, os clubes do Rio e São Paulo se uniram para estender o torneio interestadual e deixaram os Estaduais de lado. A reação das federações veio com a criação do Brasileiro de pontos corridos, que tirou o espaço no calendário para o Rio-SP, que nunca mais foi disputado. Já naquele tempo, os clubes já sabiam que o Estadual era um torneio pouco atrativo, e as federações fizeram tudo o possível para que eles continuassem existindo. Isso não diminuiu em nada o peso das conquistas do Flamengo dentro de campo naquele período e nos anos seguintes..

O Estadual certamente valeu alguma coisa em 2004, quando Jean marcou três gols na final e o Flamengo impôs mais um vice ao Vasco. Valeu entre 2007 e 2009, quando o Flamengo conseguiu outro tri sobre um mesmo rival, desta vez o Botafogo.Valeu em 2011, quando, comandado por Ronaldinho, o Flamengo conseguiu o quinto Carioca invicto da sua história. Valeu até em 2010, quando o Flamengo perdeu a chance de ser tetra e a presidente Patricia Amorim demitiu o técnico Andrade, que havia tirado o time de uma fila de 17 anos no Brasileiro e cumprido, mesmo aos trancos e barrancos, o objetivo de classificar o Flamengo à segunda fase da Libertadores – o que na época poderia parecer obrigação, mas não aconteceu em 2012 e 2014.

Aí entra uma diferença fundamental da virada do século em relação aos dias atuais. Naquele tempo, como já escrevi em outro texto, o torcedor do Flamengo sequer sonhava em disputar a Libertadores. No Brasileiro, más campanhas se seguiam a outras ainda piores. O Estadual era o momento de alegria do torcedor rubro-negro no ano — e acreditem ou não, era possível ser feliz ganhando o torneio da Ferj sobre os rivais.

Léo Moura ergue a taça do Carioca de 2014, última vez que o Flamengo conquistou o troféu

 

O Vasco, que comemorou euforicamente até a inócua Taça Rio, mostra que, apesar dos pesares, hoje em dia ainda é. No entanto, boa parte da torcida do Flamengo — incentivada pelos próprios dirigentes do clube e parte da imprensa, que desvalorizam o campeonato a cada oportunidade que têm — trata o torneio como um simples estorvo que impede voos maiores. Embora essa mesma parte da torcida não se furte a cobrar boas atuações em jogos em que até o time está claramente desinteressado, nessas horas deixando de lado a crença de que o que vale é a Libertadores — ou o Flamengo não viveu um princípio de crise por empatar dois clássicos depois de já estar classificado com ampla antecedência à fase semifinal, mesmo jogando bem na competição mais importante do ano?.

Se o Flamengo passar pelo Botafogo, irá à final do Estadual com a missão de impedir o tricampeonato do Vasco e manter um tabu que já dura 29 anos, de não perder para eles em finais — tabu que nenhum rubro-negro se furta a comemorar. Ou então enfrentará pela primeira vez desde 1995, quando não é preciso lembrar o que aconteceu, o Fluminense numa final, podendo abrir a maior diferença de títulos sobre o tricolor na História da competição que já disputa há 105 anos. Será que, mesmo espremidos entre duas partidas decisivas na Libertadores e as estreias na Copa do Brasil e no Brasileiro, esses jogos não vão valer nada?

No mundo ideal, o Carioca talvez já teria ficado no passado, junto com as federações estaduais, e se disputaria um Brasileiro de ano inteiro. No mundo real não há a menor perspectiva de o torneio acabar ao menos até 2024, duração do contrato assinado pela Ferj com a TV Globo. Muito provavelmente, vai continuar além disso, já que em outros Estados times e torcidas não dão sinal de desistir dos seus campeonatos — os paulistas vêm lotando os estádios e o Grêmio acaba de poupar o time todo na Libertadores para jogar com força máxima uma semifinal de Gaúcho contra um time pequeno. A torcida rubro-negra pode aceitar essa realidade e tratar o Carioca como mais um campeonato, mesmo com todos seus problemas. Ou pode empinar o nariz e fingir que não está ligando enquanto o campeonato continua acontecendo da mesma maneira.

Como já dizia Aristóteles, a única verdade é a realidade. E a realidade é que, apesar do famoso apelo de Fred, o Carioca não acabou nem vai acabar tão cedo. Decidir que ele só vale alguma coisa quando queremos que seja assim é uma atitude até certo ponto infantil. Pode valer menos que outros torneios, mas vale. Vale história. Vale dinheiro. Vale taça nova para a galeria de troféus. E como vale, temos que lutar até o fim. No campo e na arquibancada. (Até porque não adianta boicotar o campeonato só no estádio e mantê-lo vivo dando recordes de Ibope e assinaturas de pay-per-view à Globo.*)

(*Para não dizer que não falei das flores, é fato que o preço do ingresso para a partida de domingo é proibitivo para boa parte da nossa torcida. Isso é tema para várias outras discussões que não cabem neste texto já enorme. Ainda assim, a Libertadores mostra que, quando há interesse no jogo, temos torcedores em número suficiente para lotar o diminuído Maracanã mesmo a esse alto custo. Certamente, bem mais de 5.700)

Rodrigo Rötzsch é jornalista e coeditor do MRN. Siga-o no Twitter: @rodrigorotzsch.
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