Esse assunto muito polêmico ressurgi de tempos em tempos. Dessa vez a Cynara Peixoto, do Blog A Bola Não Sai Por Acaso, escreveu um texto trazendo algumas questões que talvez não sejam levadas em consideração quando resolvem falar da extinta geral do Maracanã. Fiquem com o texto dela e deixem suas opiniões nos comentários e na nossas redes sociais.

 

 Por onde anda o Geraldino?

2017 e voltamos ao clamor de jornalistas por geraldinos. De novo. Toda vida que vejo o assunto vir a tona, passa um monte de coisas na minha cabeça. Vou compartilhar algumas delas aqui, refletir sobre o assunto.

Antes de mais nada, que tal tentar entender o que é Geraldino? Geraldino era como a imprensa chamava popularmente os torcedores que ficavam nas famosas gerais do Maracanã, que existiram até meados da década de 90. Lá era onde as castas mais pobres da sociedade na época assistiam o jogo de futebol em pé, espremidos pela superlotação, alguns à beira de um fosso de mais de 3 metros de profundidade que os separava do campo  praticamente sem visão do jogo, sujeito a levar banhos de saco de xixi arremessados por quem estava na arquibancada, os Arquibaldos, de poder aquisitivo maior. Quem batizou-os com este nome? Nelson Rodrigues, há muito, muito tempo atrás, quando já enxergava o grande desequilíbrio social da época refletido no Maior do Mundo.

Que saudade de ficar assim, né? Só que não.

Em 1995, assim como neste ano, houve uma decisão de carioca entre FlaxFlu (não era final, mas valia o título). Neste jogo a geral esteve aberta, um dos últimos grandes jogos com a sua existência. 22 anos depois, um saudosismo romantizado clama pela volta dos Geraldinos. Mas aonde estão eles? Ainda existem?


Muita coisa mudou em 22 anos. O Brasil mudou muito em termos de desigualdade social, com uma vasta camada de miseráveis subindo de classe social. Vou citar alguns dados para demonstrar essa mudança:

– Em 1995 a renda per capita era equivalente a 3.680 dólares. Em 2015 é de 9.990. Praticamente triplicou.
– A expectativa de vida em 95 era de 67,6 anos. Em 2015 de 74,6.
– Em média as mulheres tinham 2,5 filhos em 1995. 2016 tem 1,8.
– Em 1995, no Índice de Gini (que mede a desigualdade) o valor era de 59,6. Hoje é de 51,5. Ainda alto, mas já foi bem pior.
– Em 1995 chegava a internet no Brasil. Poucos possuíam telefone fixo. Praticamente ninguém tinha celular. TV a Cabo? Só quem era rico. Hoje praticamente todos possuem banda larga. Telefone fixo? Só quem quer, porque temos uma média de mais de um número de celular por pessoa. Não conseguimos mais viver sem internet, nem por um dia sequer. E 18,6 milhões de casas possuem acesso a TV paga (oficialmente, porque suponho que seja bem mais).

Mais uma informação: em 1995 aquele Fla x Flu teve 109.204 pagantes, com renda de R$ 1.621.850,00. Ou seja, o ticket médio foi de R$ 14,85. Este valor corrigido pelo IPCA nos dias atuais equivale a R$ 64,90. O FlaxFlu realizado domingo passado teve tíquete médio de R$ 55,51 (renda de R$ 3.242.130 e 58.399 pagantes). Pasmem: em valores atualizados foi mais barato assistir o gol do Rodinei que o de Renato Gaúcho.

Outro fator que é ignorado pelos jornalistas é o fato de que o Maracanã mudou. Em 1995 ele era sustentado pelo Governo. Ou seja, todo o povo carioca sustentava o gigantesco estádio. Subsidiava-o. Depois da malfadada reforma para a Copa do Mundo, o “Maracanã on Steroids” não poderia mais ser bancado pelo governo, que passou a bola para a iniciativa privada. Ao ser privatizado, sem ter quem o subsidiasse (e com as maracutaias que depois ficamos sabendo), os custos foram repassados para os clubes. E hoje este custo está maior do nunca, com clubes tendo que pagar valores astronômicos para pisar em tal solo (extremamente mal conservado) sagrado. Se baixar o preço do ingresso a conta vai fechar? Me explique como, por favor, com prova dos nove fora como na 6ª série.

Concordo que o ingresso poderia ser mais barato se os custos também fossem, mas não acredito que haveria mudança significativa no perfil da torcida se diminuísse 10, 15 reais no valor do ticket médio. Mesmo que tirassem as cadeiras atrás do gol (que eu também gostaria de ver acontecer), não creio que mudasse muito o perfil do torcedor que vai para o estádio hoje. A coisa vai muito além disso.

A questão é que o Brasil mudou muito em 22 anos. As classes sociais mudaram. A miséria diminuiu, mesmo que nos últimos dois anos as coisas tenham piorado. A nova geração tem mais acesso ao estudo, a ascensão social, a tecnologia. Se há 22 anos o futebol era uma das únicas formas democráticas de entretenimento para os mais pobres, hoje ele concorre com outros tipos de entretenimento: o lançamento em 3D e Imax no cinema, a TV a cabo mostrando o que há de melhor no futebol europeu, os videos na internet, o Netflix. Ele quer qualidade, quer conforto e não vai aceitar ser tratado como gado, como no passado. E se for tratado, vai abrir a boca e reclamar nas redes sociais, com razão.

O Geraldino não vai mais voltar. Nem mesmo que tirem todas as cadeiras do Maracanã e botem ingressos a 5 reais. O mundo mudou, o futebol mudou, as pessoas mudaram. Essa que é a verdade. É melhor se conformar e aceitar que o Geraldino está extinto.

 

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