Imagem: Divulgação

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Quando eu era garoto nunca dei bola para a Taça São Paulo de Juniores, atual “de Futebol Junior”. Eu era ligado ao time titular do Flamengo, e via as equipes de base de maneira pontual. Ou seja, eu enxergava cada jogador da base conforme a imprensa o divulgava.

Em uma das poucas vezes em que joguei pelada na Gávea, eu fiquei próximo a um recreativo da base rubro-negra. Esse dia foi muito engraçado, eu ficava olhando para os jogadores. Em certo momento fui para o gol. Aí eu fiquei conversando com um jogador que eu perguntei o nome, um tal Adílio. O mais engraçado é que chutavam as bolas e, mesmo com a minha total distração, os gols não saiam…

Pouco tempo depois eu fui ao Estádio na Gávea para ver uma partida de juniores, onde a Magnética ficava gritando: “Ei! Ei! Ei! Leandro é nosso rei!”. Acho que era contra o Olaria, e o placar deve ter sido 2×0. Na memória, apenas fragmentos.

Do mais distante que me recordo é Zico. Meu pai falava dele em 1972, durante uma campanha desastrosa no Campeonato Brasileiro. Ele lamentava que o jovem craque estivesse contundido. Nem posso atestar se isso era verdade. Afinal, mesmo se destacando, Zico foi se consolidar como craque a partir de 1978, juntamente com um time que se tornaria o maior que eu vi jogar.

Durante um longo tempo acompanhei o surgimento dos novos valores nas preliminares no Maracanã. Vi o goleiro Milagres, o atacante Gaúcho, também tive o privilégio em ver Djalminha, Bebeto, Marcelinho Carioca…


Mas me recordo com orgulho de ouvir jogos do Flamengo na Copa São Paulo de 1990. Se bem me lembro perdemos uma partida para o Santos, mas eu estava viajando e não consegui captar toda a peleja. O bom daquela edição é que formamos uma base que estaria na conquista do Brasileirão de 1992.

Eu já ouvi muitas críticas em relação ao não aproveitamento desta base após se tornarem profissionais. Isso é uma falácia. Não obstante os erros de gestão pós 1993, a base de 1990 não apenas trouxe alegrias ao torcedor flamenguista, como foi consolidar conquistas a outras grandes equipes brasileiras. O Flamengo após 1995 que passou a sofrer por opções equivocadas de seus dirigentes. Endividamos-nos, e os times rubro-negros ficaram deveras instáveis.

Não estou com nenhum rigor histórico. Apenas desejo compartilhar algumas lembranças. Hoje eu gosto muito de assistir aos jogos das categorias de base. Não espero o surgimento de um novo Zico, mas sim que o Flamengo retome o caminho da formação de bons valores.

O que me motivou a escrever sobre esse assunto foi um comentário que li em um grupo de torcedores do Flamengo, de que esse time que está disputando a atual edição da Copa São Paulo é ruim. Na ocasião, do primeiro jogo contra o RB Brasil, eu questionei: como avaliar uma equipe com 30 minutos de jogo?

E hoje, vejo que o problema nem é de avaliação, mas sim de uma expectativa equivocada de ver as coisas. Afinal, muitos defendem que a base não é para conquistar títulos, que ela deve ser para revelar jogadores. Porém, basta o time sub alguma coisa perder, para logo as cornetas do apocalipse já determinarem a existência de “latas da casa”, um deboche com a conhecida expressão “pratas da casa”, da retórica “Craque o Flamengo faz em casa”.

Então, o Flamengo Sub-20 que disputa a Copa São Paulo 2016 apresenta uma significativa consistência. Até o momento são quatro jogos, 100% de aproveitamento, três gols sofridos e mais de dez marcados. Repentinamente fortes elogios são rasgados, com destaque para o versátil Ronaldo.

O que mais me chamou a atenção ao Ronaldo nem foi sua qualidade técnica, que acredito até que tenha, mas sim a disciplina tática, que é algo que não vejo com tanta frequência no futebol brasileiro. Méritos prováveis ao treinador Zé Ricardo (que vi jogar!!!).

Confesso que esse time do Flamengo da Copinha era uma incógnita para mim. Outros que acompanham mais de perto a base demonstravam certo ceticismo. Mesmo assim, eu torço. Torço pelo time vencer, torço para revelarmos jogadores. Torço pelo Fla ser campeão.

O que mais me preocupa é o determinismo, a falta de paciência, a incoerência dos milhares de especialistas e videntes de nossa Torcida, com destaque particular para os que opinam nas redes sociais. Se na época do Zico as cornetas tivessem tanta amplificação, eu tenho dúvidas se ele seria aproveitado. Afinal, Zico tinha físico raquítico, talvez inferior ao de Douglas Baggio.

Eu não sugiro quaisquer comparações em termos técnicos. Mas uma coisa eu tenho certeza: nada está definido! O aproveitamento dos jogadores no time profissional depende muito mais de estrutura do que da sorte. Jogador da base não pode ser salvador da pátria. Neste domingo nós tivemos a oportunidade de ver o jovem Adryan jogando no Campeonato Francês. Fez uma partida razoável, demonstrou bom passe, movimentação, participou do gol de empate do Nantes. Mesmo assim, muitos sequer suportam ouvir o nome dele. Injustamente, a meu ver.

Ocorre que todos os jogadores que conquistaram a Copa São Paulo em 2011 são duramente criticados. Duramente! Eles acabam pagando muito mais do que suas próprias derrotas. Jogador da base do Flamengo não tem vida fácil. Nem mesmo Samir ou até mesmo o lateral Jorge.

Todavia, quando começam a fazer bons jogos, parte da Magnética os promove diretamente do inferno ao céu. E como não são anjos ou deuses, a tendência é de que sejam cobrados além de suas capacidades, e sintam a pressão. Oscilar na juventude é normal. Mesmo Neymar apresentou variações no Santos.

Se quisermos melhor aproveitar os jogadores formados nas categorias de base há que se ter paciência e planejamento. Por mais que rasguem elogios a revelações como o Ronaldo, o tempo será o senhor da razão, não nossas opiniões e vontades. O céu pode esperar.

Cordiais Saudações Rubro-Negras!