Aos poucos o futebol foi aparecendo na televisão. Era algo raro, e mesmo os jogos dos outros times eram um acontecimento. Nada que nos permitisse questionar a eternidade do rádio. Da Copa União de 1987, por exemplo, de toda a fase classificatória, foram transmitidos ao vivo apenas quatro jogos do Flamengo, contra Santos, Coritiba, Grêmio e Corinthians. Naquele campeonato havia ainda um requinte de crueldade: nas rodadas iniciais, um sorteio definia o jogo a ser transmitido momentos antes de a bola rolar.

Imaginem os milhões de rubro-negros espalhados Brasil afora roendo as unhas a minutos da estreia contra o São Paulo, torcendo para que a bolinha a cair do globo (sim, um globo desses de bingo, girado por uma modelo) fosse a do jogo do Flamengo. Não foi. O jogo sorteado foi Atlético Mineiro 5×1 Santos, o que nos obrigou a tirar o volume do televisor e erguer a antena do rádio em busca de uma emissora carioca.

Um marco na transmissão dos jogos do Flamengo foi o campeonato carioca de 1989. Quinze jogos televisionados ao vivo pela TV Manchete, que desde o ano anterior transmitia o estadual, batizando-o de Copa Rio. Jogos narrados por Paulo Stein e Alberto Léo, e comentados por Márcio Guedes e João Saldanha, um ano antes de sua morte.

Mesmo com o aumento de jogos na televisão, o rádio ainda era fundamental naquele mundo sem internet. Notícias do Flamengo? Era preciso esperar o relógio dar 17 horas, quando entrava No Mundo da Bola, na Nacional, e aí os programas esportivos seguiam quase sem interrupção até a meia-noite. Em janeiro de 1995, com o Flamengo tentando tirar Romário do Barcelona, ficávamos ouvindo a Rádio Globo o dia todo, na esperança de que Elso Venâncio entrasse em plantão, anunciando a contratação do melhor jogador do mundo. Um mundo sem F5.

No final dos anos 1990, com a expansão da “rede mundial de computadores” e do pay-per-view da televisão a cabo, o rádio foi perdendo espaço. Anunciantes foram diminuindo seu investimento, e as super equipes acabaram. Atualmente, é raro uma rádio carioca fazer uma transmissão in loco dos jogos fora do Rio. Manda um repórter, e estamos conversados. O resto é off tube, quase um sacrilégio para os antigos radialistas e ouvintes.

O que ouvimos atualmente no rádio do Rio é quase um Requiém. Luiz Penido, o Garotão da Galera, já conta 62 anos. Jovem, se comparado ao Garotinho, com seus quase 80, marca já ultrapassada por Washington Rodrigues. O rádio esportivo envelheceu e estamos na prorrogação da última grande era. Tristemente, a geração Twitter nem vai se importar, ignorando a história que a antecede.

Foto Anibal Philot / Agência O Globo.

Para mim, o rádio faz parte de um Flamengo que prezo muito. Um Flamengo de Zico e Junior, um Flamengo do velho Maracanã. E o rádio fazia muito bem a isso tudo, pois seus repórteres sempre falavam diretamente com os jogadores, sem coletivas, zonas mistas e assessores de imprensa engomados. Os longos gritos de gol eram o orgasmo dos lances que só podíamos imaginar, e como era bom imaginar.

Meus velhos ídolos; o velho estádio que foi demolido, e o único que merece ser chamado de Maracanã; as velhas vozes que vão se apagando lentamente como o eco de um tempo quase perdido: eis o meu Flamengo mais pungente, que chamo de o Flamengo do nunca mais.

Nunca mais, aquele Flamengo. Nunca mais, Maracanã. Transglobe, velho de guerra, nunca mais.

 
Mauricio Neves é autor do livro “1981- O primeiro ano do resto de nossas vidas” e escreve no MRN todas as sextas-feiras. Siga-o no Twitter: @flapravaler
 


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