A numeração de camisas foi introduzida no futebol lá pela década de 30, quase setenta anos após o surgimento do esporte bretão. No Brasil, a utilização de números chegou logo antes da 4ª edição da Copa do Mundo. E assim como os lenços “torcidos” de suor das grã-finas originou o termo “torcida”, os números foram associados às posições dos atletas que os envergava, dando origem à outras expressões que se tornariam parte fundamental da identidade do jogo. “Camisa 10”, por exemplo, se refere ao maestro, o articulador de jogadas, o craque do time. Quantas vezes você não ouviu comentaristas e técnicos clamarem por um “camisa 10 clássico” num determinado time, em alusão à necessidade de encontrar alguém que pense as jogadas ofensivas? Essa mesma associação se estende ao número 9, quando buscamos ilustrar um goleador. O “9 típico” é o centroavante que se enfia na área, que finaliza do jeito que dá e que tem faro de gol. É dele que esperamos o toque final; é o seu nome o que queremos ler na tabela de máximos goleadores de um torneio – mesmo que ele não vista, efetivamente, a camisa número nove.



Romário era 11, Adriano foi 10 (ou 7, na selecinha), Obina tinha a 18 e Edílson só desandou a marcar com o Manto Sagrado quando trocou o 9 pelo 11. Mas, no fundo, todos cumpriam à mesma função, cada uma à sua maneira. E, guardadas as diferenças técnicas, todos foram matadores no Mais Querido. A busca por um sujeito capaz de não tremer frente ao gol adversário é tão incessante quanto a busca pelo camisa 10 (embora o Rei Zico tenha colocado o sarrafo à uma altura tal, que buscamos um “messias” e não mais um organizador de jogadas).

adriano

Sdds, Didico

Depois da saída de Adriano, encontramos nosso melhor camisa 9 em um improvável nome. Hernane “Brocador” sofreu preconceito, esquentou banco, lutou pela titularidade e, quando resolveram leva-lo a sério, já era o maior artilheiro do futebol brasileiro na temporada, colecionando as artilharias do campeonato Carioca e da Copa do Brasil, além do posto de segundo principal marcador do campeonato Brasileiro. Muitos atribuíram seu desempenho ao acaso, incapazes de compreender que, ao contrário dos refinados goleadores que o futebol brasileiro viu de perto nas décadas anteriores, Hernane era um cara com qualidades cada vez mais raras no esporte. Dono de um posicionamento espetacular e frieza incomum dentro da área, o Brocador se despediu do Flamengo com títulos e muitos gols; folclórico para alguns, ídolo para tantos outros. Sua saída descentralizou os gols rubro-negros. Alecsandro, Eduardo da Silva, Marcelo Cirino e Nixon foram experimentados naquela função, sem nunca convencer como o antecessor. Até que veio Guerrero.


Contratação mais impactante do clube desde Ronaldinho Gaúcho, o peruano chegou arrebatando corações. Voltou da Copa América com a chuteira de ouro do torneio, virou a noite e foi direto ao Beira-Rio dar ao moralmente abatido Flamengo uma doce esperança. Um gol, típico dos grandes matadores, e uma assistência, cheia de requinte, foram o cartão de visitas do novo ídolo-instantâneo, o exterminador de caôs.

O tempo, entretanto, revelou o que sua bem sucedida carreira já apresentava: por mais talentoso que seja, Paolo sofre um bocado quando isolado no setor. Não tem o talento de Romário ou a potência de Adriano. E um esquema voltado para o seu arremate não funciona como funcionou, por exemplo, para o Brocador. Num esquema tático óbvio, onde a única jogada (mal) ensaiada é o “chuveirinho para Paolo decidir”, Guerrero se torna um jogador comum, que nem de longe vale as muitas centenas de milhares de reais que recebe. Torna-se menos eficiente que o recém-negociado Kayke, toma mais porrada e cartões do que qualquer outro jogador. Entretanto, quando o setor ofensivo se baseia nele e não PARA ele, o camisa 9 desabrocha, torna-se especial.

Guerrero retomou boa fase. Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

“Mim dá um caô aí, fera!”. Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

A visão de jogo apurada, o refinamento na conclusão de jogadas, a inteligência para tabelar por dentro, a movimentação que abre espaços para atacantes aparecerem e meias infiltrarem, e o trabalho de pivô, qualidades intraduzíveis em números, mostram o que há de melhor no badalado atacante. Os gols, tão cobrados para um atleta de seu quilate, se espalham pelos setores, criando um senso de urgência no adversário, que agora deve marcar não um, mas vários jogadores. E aí, vejam só, sobra espaço para que ele, Guerrero, marque seus golzinhos.

Já são 5 na temporada, dos 22 marcados oficialmente pelo Mais Querido. Ao todo, 10 jogadores – cerca de 40% dos jogadores de linha do elenco – já balançaram as redes adversárias. No mesmo período, em 2013 (o ano da BROCAÇÃO), apenas 6 jogadores haviam marcado; em 2014, só 8. A exceção foi 2015, quando 13 atletas balançaram as redes adversárias em 10 jogos – aquele elenco, no entanto, era mais inchado, e a distribuição de gols, mais aleatória.

Hoje, os gols não nascem por acaso. Quando recua para a entrada da área, Guerrero abre a porteira para as infiltrações de Willian Arão, autor de três gols; quando se aproxima dos pontas, cria condições para que Emerson, Cirino e Gabriel estejam em situação de finalização; nas bola paradas, atrai a atenção dos melhores defensores. Nos seus gols em 2016, ainda não repetiu o modelo do seu tento inaugural com o Manto Sagrado. Ora cumprindo o papel de 9, ora cumprindo o papel de 10. Quando deixamos a ortodoxia futebolística de lado, percebemos que o sucesso de um grande atacante não está condicionado ao números de gols que marca, mas do quanto é capaz de envolver seus companheiros nas situações de gol. E aí, tanto faz quem marca.

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