Matinta Perera, as Criancinhas de Manaus e o Mapinguari Rubro-Negro

Matinta Perera, as Criancinhas de Manaus e o Mapinguari Rubro-Negro

O folclore da Amazônia é rico em personagens. Uma delas é a Matinta Perera, um ser voador que ronda a noite a espreita de uma casa para atormentar. Seu sibilo estrilante é tão assustador que faz com que o morador da casa, desesperado, pergunte o que ele precisa fazer para que o trevoso ser desapareça da sua janela ou do telhado de sua casa.



E é aí que a Matinta Perera propõe um pacto para o berreiro parar. O assombrado precisa pagar uma prenda, que lhe será cobrada nos próximos dias. Um naco de fumo, um belo peixe fresco dos riachos da mata próxima, uma pinga braba, café, farinha ou um mocó com um pouco disso tudo deve ser reservado.Um dia, uma velhinha irá bater na porta rogando inocentemente ajuda para  suas necessidades. É a Matinta cobrando seu pagamento. E é bom que o morador lembre-se da terrível noite e do acordo que fez com o pássaro-monstro.

Se o pagamento não for concedido, sua vida vira um inferno.


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Tudo foi muito estranho. O estádio na selva, ou melhor, na cidade grande ao redor da selva, estava lotado e aconteceu o fato: o Fla abandonou as criancinhas na sua entrada ao gramado. Você já conhece a história. O capitão fincou uma bandeira pirata no centro do campo da Arena Amazônia. O problema foi que eles saíram do túnel iguais uns malucos e “esqueceram” as crianças. O clube disse que as crianças foram avisadas, todavia a imprensa se recusa a acreditar e continua no telhado a gritar.

Apenas depois as criancinhas perfilaram com os briosos jogadores do Flamengo e juntinhos cantaram o amado hino brasileiro.

Esse ato horrível fez com que o Brasil inteiro derramasse um Rio Amazonas de lágrimas. Defensor da moral, Juninho Pernambucano, vociferava palavras de ordem pediátricas para seu público geriátrico durante a narração de Luiz Roberto, voltada para a família vascaína.
Portanto, se a transmissão da Globo não gostou, a ação de marketing foi um fiasco.

A ideia era que o Flamengo entrasse em campo como os astros da NFL costumam fazer no reacionário modelo americano de show business, contudo esqueceram que o Brasil é um país de vanguarda e, mais do que qualquer outro no mundo, preza pelo cuidado com suas criancinhas. Desde que Pelé deu o recado, diga-se de passagem.

Preocupados com os traumas das criancinhas abandonadas, portais de notícias esportivos freudianos consultaram ex-jogadores, líderes comunitários, agentes da lei, funcionários do Procon, professores de sociologia e pregadores religiosos em suas matérias investigativas. O jornalismo, essa camada prateada de nossa sociedade cada vez mais intelectualizada, se uniu em torno do tema, de total interesse sócio-econômico.

Finalmente, o que se deu foi um país comovido pelo abandono de suas criancinhas pelos jogadores do Mengo. No Facebook houve protestos pela omissão do Ministério Público no caso.

Tal alarde também foi visto, obviamente em menor escala, quando surgiram boatos de crianças vistas trabalhando em carvoarias, pedindo lanches em pastelarias chinesas, fumando crack no copo de Guaravita nas ruas da Lapa, prostituindo-se nas rodovias e até roubando transeuntes na Praça da Sé. Esta notícia esfriou dias depois, quando o governo disse que não eram crianças e sim pivetes.

Mergulhado neste cenário preocupante, entrei em contato com um primo que fez marketing por correspondência no Instituto Universal Brasileiro para me ajudar a ajudar o Flamengão.
Depois de algumas horas em meditação criativa, meu primo responde:

– EBM deve voar pra Manaus e visitar a casa de todos os sócios-torcedores mirins que estiveram envolvidos na malfadada ação. Com a FlaTV no encalço, gravando tudo. Não será uma visita comum. Além do papo fiado, aquela confraternização rubro-negra de praxe, EBM precisa interrogar a criancinha para saber se ela está traumatizada, irritada ou magoada, de fato. Também vai trocar ideia com os pais sobre o assunto, sempre com interesse psicossomático autêntico. Quando o encontro se encaminhar para seu fim o Caminhão do Zicão [outra ideia pro marketing que o meu primo me passou – depois falo mais disso] estaciona na porta da casa, com toda pompa, circunstância e emoção trazendo milhares de produtos licenciados para a família flamenguista: camisas, toalha de banho, canga, short, meia, óculos, relógio, caderno, caneta, agenda, cooler, cerveja, cachaça, vinho, champanhe, coleira, flâmula, caneca, mouse pad, capinha de celular, headphone, miniaturas de jogadores, miniatura da Gávea, quebra-cabeça, boneco, kit banheiro, shampoo, condicionador, pulseirinha, perfume, tênis, colar, unha postiça, super trunfo, ursinho de pelúcia, jogos de vídeo-game, bicicleta e tudo o mais que puder ser presenteado pelo próprio Zicão em pessoa.

E assim garantiremos o crescimento de mais uma geração de criancinhas felizes por serem rubro-negras, segundo meu primo, que como todo marqueteiro também é versado em ciências humanas.

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Mapinguari é uma criatura que vive na fronteira com a Bolívia. Tem pelo vermelho, cerca de dois metros de altura, grandes garras, cheiro ruim que tonteia a presa, odeia água e pele de jacaré. Sua bocarra quando se abre chega até a barriga. É uma espécie de pé-grande tupiniquim.
Assim como a cobrança do nosso Conselho Diretor por futebol vistoso, vontade de superação e gana por vitórias o Mapinguari também é folclore.

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