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Gustavo Genovese

O presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Melo, concedeu, na noite desta quarta-feira, ao programa “Boa noite, Fox”, do canal Fox Sports, uma esclarecedora entrevista. Em pouco mais de uma hora, o dirigente respondeu de forma inteligente e, algumas vezes, espirituosa, às perguntas formuladas pelos jornalistas.
Farei um breve exercício interpretativo sobre o que ele disse e, também, sobre o que deixou de dizer.

EMERSON SHEIK
Apesar do discurso de EBM que o Flamengo só anunciará a contratação do jogador quando tudo estiver sacramentado (pois o mesmo participará do jogo do Corinthians no final de semana contra o Internacional), pode-se concluir que o estágio da negociação está muito mais avançado do que foi admitido. Sou capaz de afirmar que Emerson Sheik já tem um pré-contrato assinado com o Flamengo e será apresentado na próxima semana.

ELIAS
Sobre o volante/meia que atualmente presta serviços à seleção brasileira, EBM foi extremamente cauteloso. Adotou um discurso diplomático em relação ao jogador e ao próprio Corinthians. O tom calculadamente respeitoso tem o objetivo de não causar desconforto para o jogador (assim como para a direção do clube paulista) junto aos torcedores, quando, eventualmente, vier a público sua transferência para o Flamengo. A leitura que faço, nesse momento, é que Elias será jogador do Flamengo.

O CAMISA 10
Vejo a contração de um jogador de expressão para desempenhar a função de camisa 10, posição de longa data carente no clube, como algo que ocorrerá ao longo do tempo. Não será imediata. Como disse EBM, “um passo de cada vez”. Esse jogador será negociado com calma, sem atropelos. Com a vinda do Elias, a contratação de um camisa 10 tradicional acontecerá numa oportunidade de mercado. Meu palpite, é que o jogador mais próximo de ser contratado para essa função é o Montillo (por diversos fatores: ter acertado a algum tempo atrás as base financeiras com o clube, por problemas familiares e a própria lesão do jogador, a qual pode ter feito com que os chineses tenham se acostumado com sua ausência). Uma outra alternativa seria o Diego (EBM não foi perguntado sobre o jogador, sendo uma especulação de minha parte), caso venha a rescindir o contrato com o Fenerbahçe, pois que, ao que parece, o clube turco tem atrasado no pagamentos de seus salários.

GUERRERO
O centro avante da seleção peruana foi uma oportunidade de mercado que surgiu, não foi algo planejado desde o início do ano. Nesse aspecto, posso cometer a indiscrição de revelar que o atacante Alexandre Pato, atualmente no São Paulo, esteve muito próximo de ser contratado pelo Flamengo, o que não se concretizou apenas em função da possibilidade da vinda do Guerrero.


SAMIR
Segundo EBM, não existe nada de concreto em relação à venda do jogador. Acredito, realmente, que nada esteja definido, e mais do que isso, que ele só sairá do clube em caso de uma oferta muito vantajosa para o Flamengo. Trata-se do melhor zagueiro do elenco, jogador de apenas 20 anos, e, segundo noticiado o valor oferecido pela Udinese seria irrisório (4 milhões de euros, sendo que ao Flamengo caberia apenas a metade desse valor porque a outra parte ficaria com o Audax). A sequência de lesões que vem sofrendo nos últimos tempos são novidade em sua carreira, pois quando ainda jogador das categorias de base não tinha esse histórico de contusões.

MARACANÃ E UM ESTÁDIO DE MENOR PORTE NA GÁVEA OU UM ESTÁDIO DE GRANDE PORTE EM OUTRA LOCALIZAÇÃO.
Essa é uma questão extremante complexa. Existe um viés político fortíssimo (insinuado por EBM, que tem relação com as preferências clubísticas dos políticos que estão no poder no Estado do Rio de Janeiro). O cenário ideal seria chegar-se a um acordo com o Consórcio Maracanã em condições vantajosas ao Flamengo. Isso se daria com a máxima exploração do potencial do programa de sócios torcedores, permitindo ao clube obter um incremento de receitas não apenas com a bilheteria. Faz parte desse panorama, também, a construção de um estádio de pequeno porte na Gávea, para jogos de menor público.
Como alternativa estratégica à inflexibilidade do Consórcio Maracanã, estaria a construção de um estádio de grande capacidade em localização não tão central. Vejo que a direção do Flamengo considerará essa alternativa em último caso, pois (essa é uma leitura pessoal) o abandono definitivo do Maracanã poderia significar a entrega, de uma forma ou de outra, do estádio ao único clube na cidade que não disporia de estádio próprio, sem ter o custo (a dívida) de construí-lo. Desnecessário declinar o nome do clube eventualmente beneficiário.

LIGA NACIONAL
O Flamengo não é, em princípio, um entusiasta da criação de uma Liga Nacional de clubes. Por uma evidente razão, EBM vislumbra nesse movimento uma tentativa de promover uma redistribuição entre os clubes das cotas relativas ao contrato de TV. O quê, Flamengo e Corinthians, não aceitarão. O Flamengo também não pretende desempenhar nenhum papel de protagonista numa tentativa de enfraquecer institucionalmente o papel da CBF.

PONTOS CORRIDOS X MATA-MATA
Em relação à fórmula de pontos corridos no campeonato brasileiro, EBM foi muito perspicaz. Argumentou que não faz nenhum sentido a existência de dois campeonatos de âmbito nacional obedecendo ao formato de mata-mata. Evitou, calculadamente, referir que interessa ao Flamengo a manutenção da fórmula de pontos corridos pois em tal modelo de campeonato os clubes mais bem estruturados economicamente, com elencos mais fortes (o quê, muito em breve o Flamengo terá) levam uma imensa vantagem comparativa.

FERJ
Nada de novo foi dito ou mesmo sugerido por EBM quanto à postura do Flamengo em relação à FERJ, entidade com a qual o clube permanece rompido. Apenas, foi reiterado que o Flamengo não disputará o campeonato estadual nos moldes em que se verificou o campeonato desse ano. Aproxima-se o momento em que o Flamengo (em conjunto com o Fluminense) definirá o caminho a ser seguido.

NOVO FORMATO DA ESTRUTURA ADMINISTRATIVA O FUTEBOL
Vejo a criação do Conselho de Gestão do Futebol – no qual EBM e Tostes assumem a posição de liderança -, e, por consequência, a não indicação de um novo vice presidente de futebol em substituição a Wrobel, como a materialização de um processo gradual de relativa concentração de poder nas mãos de EBM. Tal processo começou a se delinear no fim do segundo ano do atual mandato, quando o presidente começou a exercer uma parcela um pouco maior do espaço de poder, contrariando algumas decisões tomadas de forma colegiada dentro do CODI. Algumas das quais, diga-se, com toda razão, pois são inerentes à responsabilidade de primeiro mandatário do clube.
O sistema de governo no Flamengo, queira-se ou não, é presidencialista. O Conselho Diretor inicialmente transformado num verdadeiro parlamento, instaurou um modelo de gestão em que as decisões mais relevantes eram tomadas de forma colegiada, como dito. Tal método de deliberação, com o passar do tempo, apresentou certa disfuncionalidade, especialmente, quando EBM começou a ganhar legitimidade (no início da atual administração, EBM tinha um papel quase que secundário, decorrência natural da forma pela qual chegou ao poder no clube, pode-se dizer, de paraquedas, após o impasse criado com a configuração da inelegilibidade de Wallim) a partir dos favoráveis resultados administrativos obtidos.
De minha parte, vejo com bons olhos esse papel de protagonismo ‘light’ que EBM começa a desempenhar na administração do clube. Não o vejo com um centralizador movido pela vaidade, mas antes, alguém que tem o senso de correspondência entre autoridade e responsabilidade. O Conselho Diretor e o recém criado Conselho de Gestão do Futebol, serão sempre esferas de discussão e deliberação, mas haverá uma certa matização, um certo relevo, no papel que EBM desempenhará nas grandes questões. Acho isso positivo para o clube. O Flamengo não é clube para ter como presidente uma rainha da Inglaterra.

A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL
Não vejo nenhuma motivação política por traz da saída de Wrobel da vice presidência de futebol. A forma direta com que EBM falou sobre o tema, sem tergiversação, deixou isso claro. De outro lado, a participação de Wrobel no conselho criado a partir de sua saída corrobora isso.
Quanto ao quadro eleitoral, não há como deixar-se de referir que EBM é candidatíssimo à reeleição. A dúvida que resta é quem será seu vice na chapa da situação. Esse aspecto, que, aparentemente, é de menor importância, encerra uma definição de enorme relevância para o futuro do Flamengo. Imagino que o vice de EBM terá grande possibilidade de ser seu candidato na eleição que ocorrerá em 2018 (vejam que tenho com mais do que provável a vitória de EBM no pleito de dezembro).
Ainda é difícil definir-se o quadro sucessório no clube, existe muito por se jogar ainda nesse xadrez político. Mas diria que a chamada “corja” e a oposição dos desalojados, possivelmente, se aglutinarão em torno da opulenta candidatura de Jorge Rodrigues. Afirmaria, também, que, hoje, ainda vejo como improvável o lançamento de uma candidatura dissidente apoiada por Bap, mas tudo dependerá dos resultados esportivos do time de futebol até o fim do ano.
Por fim, uma aposta no futuro. Tenho que a chapa que concorrerá pela situação será formada por EBM, candidato à reeleição, tendo como vice Tostes. Vamos ver …