Por Thauan Rocha | Twitter @Thauan_R e @flaimparcial

 

Saiu o já famoso estudo do Itaú BBA onde são analisados 27 clubes do futebol brasileiro. Por ser muito extenso, resolvi resumir os 217 slides que estão disponíveis na íntegra aqui. Não resumirei os estudos individuais de todos os clubes e tentei expressar da forma que entendi, mas o ideal é que você veja o estudo completo.


O resumo está dividido entre uma análise geral e uma individual focada no Flamengo. Fiquem agora com a primeira parte.

Veja a segunda parte clicando aqui: Agora analisando o Flamengo

 

Geral

Em 2015 houve um crescimento de 5% acima da inflação, parece pouco, mas em 2014 houve uma queda.

Evolução das receitas brutas totais Evolução das receitas brutas totais recorrentes

Analisando a composição das receitas vemos que os clubes continuam a ser dependentes da TV com 42% do total das receitas, o aumento da venda de atletas está relacionado a desvalorização do Real, mas não alterou a sua participação do total que continua em 12%. A bilheteria/sócio torcedor representa de 19% para 17%, publicidade de 17% para 15%, estádio 6% e de 8% para 7% outros. As variações foram: TV +25%; direitos econômicos +22%; estádio +18%; bilheteria/sócio torcedor +7%; publicidade +3%; e outros +5%.

Breakdown das receitas totais por origem Comportamento das receitas por origem

Direitos de Transmissão

Analisando a divisão da receita de TV parece ter algo errado. O Cruzeiro foi o que mais recebeu e o Atlético-MG passou até do Vasco, mas isso ocorreu porque os mineiros receberam luvas por renovações, o que deve aparecer no balanço de outros clubes em 2016. Nas variações podemos ver que o Criciúma perdeu 71% da receita por cair de divisão e o Vasco ganhou 40% por subir (e perdeu logo em seguida). A liderança ainda pertence ao Flamengo, mas o Corinthians ganhou um aumento ligeiramente maior – 11% e 12%, respectivamente.

Receita total com TV Share e concentração Receitas com direitos de TV Variação anual

Direitos Federativos

Podemos ver que a variação do dólar causou uma perda de receita – as transações mais significativas são feitas em dólares.

Devido ao título de 2014, o Cruzeiro foi quem mais vendeu com R$67 milhões, o São Paulo ficou em 2º com R$62 milhões e o Corinthians em 3º com R$52 milhões, já o Flamengo ficou em 9º com apenas R$12 milhões, menos até que o Goiás em 8º com R$18 milhões. Se pegarmos os valores desde 2010, o São Paulo é o 1º, Corinthians o 2º e Internacional o 3º, enquanto o Flamengo está em 12º. Não somos uma boa vitrine e nem revelamos muitos jogadores. O Santos, que tradicionalmente é uma clube formador e vende bastante jovens, é o 4º com 8,50% do total. Juntando todos os 12 clubes representados no segundo gráfico, temos 90% da arrecadação total no período, que foi de R$2,4 bi.

Evolução da receita anula | Reais x Dólares Participação no Total de Venda de Direito Federativos

Publicidade

A crise desde 2014 vem afetando o mercado – houve uma redução de 7% da arrecadação em valores reais -, mas os clubes ainda precisam evoluir bastante neste quesito. Se analisarmos os investimentos totais do mercado publicitário e o que é investido nos clubes, vamos ver que só 0,40% de R$132.100 milhões foi destinado para eles em 2015.

Os que normalmente mais arrecadam são Flamengo e Corinthians, com um proporção de R$2,6 e R$2,4 por torcedor em um ano, mas o Palmeiras conseguiu o 2º lugar com um crescimento absurdo, passando a arrecadar R$6,6 por torcedor. Essa proporção é menor que a do Fluminense e do Internacional que possuem R$7,6 e R$7,1, respectivamente.

Receitas estabilizaram em termos nominais ...mas perdeu da inflação em 2015 Flamengo e Corinthians recorrentes Receita de Publicidade x Torcedor (Base Ibope 2014)

Bilheteria e Sócio-Torcedor

Podemos ver que o crescimento alcançado não superou a inflação, ou seja, em valores reais houve uma queda de 2%. Outro ponto importante é que a participação do ST vem aumentando – representa 52% em 2015. Com o aumento de sócios acaba diminuindo o que arrecada com bilheteria, mas aumenta no geral e é uma receita bem mais segura.

Nesse segundo gráfico podemos ver que o Internacional e o Grêmio são os que mais faturam com ST, o Palmeiras arrecadou bastante com bilheteria e com ST, mas não são valores muito maiores que os do Flamengo, mas a diferença de crescimento entre 2014 e 2015 é muito grande, o maior entre todos os clubes.

No terceiro gráfico entendemos porque Internacional e Grêmio, que tem 81% e 99% do público sendo ST, não possuem renda de bilheteria. Corinthians, Cruzeiro e Figueirense possuem um público 100% de ST em 2015, enquanto isso o Flamengo tem apenas 40%. Além de não ter muitos sócios, o Mengão costuma jogar no Maracanã, estádio com capacidade altíssima, logo não há demanda tão grande que justifique a vantagem do sócio de comprar antes.

Evolucao bilheteria e sócio-torcedor Bilheteria x Sócio-Torcedor Relevância do Sócio-Torcedor

Receitas

Há o famoso mito da espanholização, mas isso não é verificado pelos dados no gráfico abaixo. Ao longo dos anos os grupos se mantiveram estáveis na porcentagem de arrecadação e só houveram algumas trocas de posição entre os clubes. Apenas três – Flamengo, Corinthians e São Paulo – se mantém no primeiro grupo. Houve um aumento da diferença nominal, mas o que podemos ver é que os clubes crescem juntos.

São 4 grupos com 5 em cada um dos 3 primeiros e os outros 12 no último.

Concentração estável... ...mas nominalmente, diferença aumenta.

Em 2015 o campeão de receita foi o Flamengo, seguido pelo Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro e São Paulo. O novo vice-líder foi uma surpresa, pois teve uma crescimento muito grande e passou na frente de outros times que vinham de anos bem melhores que ele na arrecadação.

Histórico de arrecadação

Um ponto que é muito levantado nesse mito é a divisão das cotas de televisão, mas na média geral elas representam 42% das receitas dos clubes brasileiros e no Flamengo são 38%. Em 2016 esse valor vai aumentar por causa das luvas, mas a diretoria rubro-negra trabalha para que a renda da TV passe a representar cada vez menos nas receitas.

Custos e Despesas

Pior parte da administração dos clubes, os custos cresceram abaixo da inflação, então houve uma queda real, isso fez a geração de caixa crescer 250%. Com custos estáveis e um crescimento tão alto do EBITDA (Lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização), os clubes tiveram lucro após 2 anos de prejuízo. Agora o prejuízo acumulado no período 2010-2015 foi de R$176 milhões. É importante destacar que Flamengo e Palmeiras juntos representaram 36% do EBITDA, já no EBITDA Recorrente a dupla representa 86% e o Mengão é o único clube que se mantém estável e em crescimento ao longo desse três anos.

Custos estáveis ...e parece sobrar dinheiro.

EBITDA Recorrente

EBITDA Recorrente

De fato houve uma melhora, mas Flamengo e Palmeiras puxaram os valores pra cima. Ainda é preciso que muitos clubes entendam a importância de manter uma boa saúde financeira. Mas onde os clubes gastam tão errado? Não é na folha de pagamento (desde direitos de imagem até o salário do roupeiro) que reduziu de 57% para 50% das receitas totais, são os investimentos que drenam caixas futuros e que farão falta para fechar a conta.

Despesas com pessoal em queda ...ajudando na equação do Profut

Podemos ver que os investimentos vem de dois anos seguidos de redução e 2015 foi a primeira vez em 6 anos que o EBITDA foi maior que os investimentos. Essa redução significa que os clubes terão dinheiro para pagar dívidas, não precisarão pegar empréstimos, atrasar salário e/ou impostos, mas essa não é uma regra geral, alguns clubes puxam os números de formas diferentes. Infelizmente os investimentos na base também diminuíram, não proporcionalmente, mas nominalmente. Os clubes estão investindo mais em estrutura e na formação do elenco com jogadores de outros clubes, o que é muito mais caro que revelar jogadores.

O São Paulo continua sendo o destaque no investimento de base, tanto em 2015 quanto no acumulado em 6 anos onde investiu de forma regular. O Corinthians reduziu drasticamente seu investimento, mas 2014 foi um ano atípico para os garotos, o máximo de investimento feito antes foi em 2010 com R$15 milhões. O Santos, outro clube destaque, está com um investimento reduzindo. O destaque em MG é o Cruzeiro e no RJ é o Vasco. Vejam que o Flamengo sequer aparece nesses gráficos.

Investimentos perdem força... ...e as categorias de base não são prioridade. Investimento por clube Acumulado

Dívidas

A dívida cresceu apenas 4%, ficando abaixo da inflação, ou seja, houve uma redução real. Isso foi possível graças a redução dos investimentos e do aumento do EBITDA. A relação entre as dívidas e o EBTIDA mostra a capacidade dos clubes pagarem suas dívidas – no terceiro gráfico podemos ver uma redução clara.

As dívidas tributárias de longo prazo (LP) aumentaram por causa do PROFUT já que alguns clubes passaram a atrasar pagamentos  para que os mesmos entrassem nesse projeto federal. As dívidas bancárias podem ter crescido graças aos juros mais elevados de 2015. Nas dívidas operacionais podemos entender que o aumento dos fornecedores indica que os clubes estão parcelando a compra de jogadores e a redução das provisionadas indica que os encargos e tributos estão em dia.

Dívida Total Dívida x EBITDA Alavancagem Dívidas Tributárias Dívidas bancárias Dívidas Operacionais

Liquidez

Liquidez é a diferença entre os Ativos Circulantes (tem a receber) e os Passivos Circulantes (tem a pagar). Valores positivos significam que há condições de pagar todas as dívidas que vencem no próximo ano com os valores que tem a receber no mesmo período. Todos os clubes da amostra tem valores negativos, ou seja, não há recursos suficientes para pagar todas as dívidas no período, com isso é preciso rolar as dívidas, atrasar pagamentos, ou aumentar as dívidas de outra natureza e/ou reduzir custos. Já considerando que o Profut ajudou a ajustar a liquidez, os números de 2015 mostram quão ruim é a situação dos clubes.

Liquidez Variação da liquidez

 Gastos totais e fluxo de caixa livre

O Fluxo de Caixa Livre aqui considerado será o resultado da soma entre Receitas Líquidas, Custos e Despesas, Investimentos em Base, Aquisição de Atletas e Despesas Financeiras. A partir de 2016, quando o Profut entrará em vigor, será incluído o pagamento dessa dívida na conta.

Saldo positivo significa que o clube geriu bem suas contas e sobrou dinheiro para pagar Impostos atrasados e liquidar Dívidas Bancárias, bem como reforçar o caixa para investimentos futuros. Saldo negativo significa que o clube precisou captar recursos em algum lugar (aumentando as dívidas), consumir receitas futuras ou atrasar impostos e salários. Nos últimos 4 anos os clubes gastaram mais do que arrecadaram, mas, após dois anos muito ruins (2013 e 2014), em 2015 o cenário parece inverter o sinal e começa a melhorar, reduzindo o déficit.

Analisando cada clube individualmente há um destaque: o Flamengo. Poucos conseguiram manter a Geração de Caixa Livre positiva nos dois últimos anos, Atlético PR e Goiás foram os únicos, além do Flamengo. Bahia e Vitória reverteram o sinal da conta em 2015. Negativamente o Fluminense se destaca, pois aumentou de forma relevante seu déficit. No último gráfico podemos ver que ainda há muito a ser feito, mas boa parte já trabalha com esse objetivo.

Valores Proporção Receita x Gastos totais Comportamento das contas - Variações anuais

Fluxo de Caixa Livre por Clube

 

Se houvesse um campeão, este seria o Flamengo, que já “ganhou” nos dois anos anteriores e tem tudo para continuar sendo, mas vamos falar mais disso em um post específico.

SRN!


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Thauan Rocha escreve no Flamenguista Imparcial, da Plataforma MRN Blogs. A opinião do autor não reflete necessariamente a opinião do Mundo Rubro Negro.

 

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