saloon do urubu
 

Sérgio Vieira (Twitter: @sergiomrvieira)

 

“Esses velhos com quem eu falo, se você pudesse ter dito a eles que haveria gente nas ruas das nossas cidades do Texas com cabelo verde e ossos no nariz falando um inglês que eles nem conseguiriam entender, bem, ele simplesmente não teriam acreditado em você. Mas e se tivesse dito a eles que seriam seus próprios netos?”

Estas são as palavras do xerife Ed Tom Bell, protagonista do livro de faroeste ‘No Country For Old Men’. No Brasil, o título ficou ‘Onde os Velhos Não Têm Vez’. O filme baseado neste livro ficou com título quase idêntico, trocando ‘Velhos’ por ‘Fracos’. Eu prefiro uma tradução mais próxima do literal. Meu nome pra esse romance é ‘Os Velhos Não Têm Lugar Neste País’. Ponto esclarecido, sigamos.

O Flamengo está no caminho certo para resolver um dos seus grandes problemas, as finanças do clube. Sem grana, sabemos todos, não há como defender a honra, a história e as tradições do clube. Mas já disse isso no último texto. Estou me repetindo.

O ponto desse texto aqui é o que será do Flamengo num futuro próximo, quando o problema do dinheiro estiver resolvido. O que será do Mengão quando a escalada da montanha de dívidas, que parecia intransponível, estiver terminada? Ao se livrar deste peso e olhar ao redor para o mundo que existe hoje, o que o Flamengo irá encontrar?

A resposta pode ser assustadora. O Flamengo pode se deparar com uma grande dificuldade em entender o mundo atual. A mesma dificuldade do xerife Bell. Ele não entende ser possível que os jovens tenham cabelo verde e ossos no nariz. E que falem um inglês que ele mal consegue entender. Ele lê os jornais na tentativa de compreender melhor o mundo que o cerca. Mas, no caso dele, ler os jornais somente torna as coisas mais difíceis. “Outro dia li nos jornais que uma mulher colocou o próprio bebê num compactador de lixo. Quem poderia pensar numa coisa dessas?”

Ao resolver suas dívidas, o Flamengo olhará ao seu redor e as questões vão surgir. Por que o estádio nunca está lotado para um jogo comum de final de semana? Por que o programa Sócio Torcedor tem pouco mais de 50 mil filiados? Bom, você poderia dizer que essas duas coisas custam dinheiro. E que estão caras. E eu poderia concordar, embora o conceito de caro e barato dependa de quanto dinheiro você ganhe. Mas as pessoas compram coisas caras e com uma freqüência bem maior do que costumam admitir. Por que essas coisas caras nunca podem ser algo ligado ao Flamengo? Difícil explicar. Comprar ingresso caro não torna ninguém mais rubro-negro que o outro, claro, e esse não é o ponto. A questão é de escolha.


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Cada personagem parece determinado a encontrar a resposta à pergunta que um deles faz: como se decide o que sacrificar na vida? (Foto: Sérgio Vieira/Arquivo Pessoal)

Os estádios no Brasil, de um modo geral, estão sempre vazios. Nos Estados Unidos o público é bem maior e o futebol lá nem é popular. É difícil entender. As pessoas só querem ir mesmo numa final. No jogo que decide o título. Mas o campeonato não é feito de um jogo só. Não se constroem vitórias assim.

Às vezes você pensa nos resultados que a atual geração do futebol brasileiro já obteve. E conclui que o maior deles foi um 7×1. Contra. No principal campeonato do esporte. E o jogo foi no Brasil. É óbvio que temos um problema. Você se pega pensando nessas coisas todas e ao invés de uma resposta você sempre encontra um beco sem saída no seu raciocínio.

No fim do livro, o xerife Bell diz que não entende muitas coisas dos dias atuais, mas que sempre vai conseguir entender a verdade. “Acho que quando as mentiras já forem todas contadas e esquecidas a verdade ainda estará lá.” O Flamengo deve sempre andar ao lado da verdade para fazer suas escolhas. Só assim todo o trabalho não vai por água abaixo. Nas palavras do xerife: “Meu pai sempre me disse para apenas fazer o melhor que puder e dizer a verdade. Dizia que não havia nada capaz de deixar um homem com a mente mais tranqüila do que acordar pela manhã e não ter que tentar decidir quem você é. E se você fez alguma coisa errada apenas se levante e diga que fez e que sente muito e siga em frente. Não arraste as coisas junto com você. Acho que tudo isso parece bem simples hoje. Mesmo para mim.”

Sérgio Vieira é Mengão e escreve histórias de faroeste no seu blog http://poeiraepedra.blogspot.com