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“Tenho enorme orgulho de ter participado de um processo duro de sacrifício e coragem de um grupo…”

 

O Vice-presidente de Esportes Olímpicos, Alexandre Póvoa, trabalhou incansavelmente para organizar uma área que gastava dinheiro do futebol. Em um modelo de governança que privilegiava, gestão após gestão, atletas famosos e vitoriosos, porém, com pouca identificação e que sequer podiam treinar no clube devido a uma estrutura de péssima qualidade. O caso de César Cielo é emblemático. Em todo caso, Póvoa busca justamente o reconhecimento espontâneo dos esportes olímpicos do Flamengo: “O esporte olímpico ainda hoje não é valorizado com um orgulho espontâneo, o mérito repetido é apenas a autossustentabilidade. Há o desconhecimento de que nossos 750 atletas ganharam 97 títulos para o Flamengo nos últimos 34 meses. Uma média de um título a cada dez dias de gestão”. O que a Póvoa quer mesmo é que a torcida vibre com esses títulos. Títulos esportivos. Está mesmo na hora da torcida abraçar o clube em sua totalidade, e esquecer aquela ignominiosa expressão repetida o tempo todo pelos nossos dirigentes, o carro-chefe do Flamengo é o futebol. Não, o carro-chefe do Flamengo é o Flamengo.

E nessa entrevista, Póvoa falou sobre tudo um pouco. Explicou profundamente os motivos que o fizeram optar pela neutralidade eleitoral e o orgulho de participar de um processo de erguimento do clube. Todavia, lamentou o fato de nenhuma chapa enxergar o Flamengo como “um clube multiesportivo e único”, que está “em quinto plano” na corrida eleitoral.  E as críticas da Chapa Branca foram classificadas como “ignorância ou amnésia. Ou um misto das duas”.

 

Foto: Flamengo

Ex-jogador de Basquete, dirigente campeão mundial | Foto: Flamengo

Por que você, após ter participado de toda a gestão nos últimos 3 anos, decidiu ficar neutro nessa disputa eleitoral do Flamengo?

Tenho enorme orgulho de ter participado de um processo duro de sacrifício e coragem de um grupo que se juntou para mudar o Flamengo. Hoje, é até engraçado como as pessoas têm a cara de pau de dizer que “pagar imposto é obrigação e que esse mérito não pode ser atribuído a grupo nenhum”. Engraçado que essas mesmas pessoas ajudaram a construir essa enorme dívida do Flamengo, a partir de apropriação indébita. É uma confissão de culpa o fraco argumento de que trocamos “dívida pública por dívida privada”. Quem se financia com dívida pública é Governo. “Dívida pública” de uma pessoa física/jurídica privada é sinônimo de sonegação de impostos. Muito engraçada também a miopia seletiva de se recusar a enxergar no balanço uma redução auditada de R$ 200 milhões. Teve até um ex-vice-presidente geral que teve a coragem de dizer que “o Flamengo não pagava impostos para sustentar os esportes olímpicos”. Pobres esportes olímpicos, “o culpado pela dívida fiscal do Flamengo”. Risível.

Entre a gente, brigamos muito noite afora nesses três anos, discutimos o tempo todo por todos os meios de comunicação, tomamos decisões certas e erradas, mas fizemos uma reviravolta histórica no Flamengo. Se a FAF entrou para história como o grupo que propiciou a fase mais próspera do futebol do clube, a Chapa Azul original de 2012 (Eduardo, Wallim, Bap, Tostes, Cláudio, Gustavo, Póvoa, Landim, Dr. Walter, Flávio, Wrobel, Rafael, entre outros) vai entrar para os livros rubro-negros como o grupo que revolucionou a gestão no Flamengo, nos livrando da falência. Com todo o respeito às pessoas que saíram logo no começo e/ou as que chegaram depois, que podem e espero até que façam uma boa gestão a partir de agora, a história vai mostrar quem realmente roeu esse osso e assumiu a postura corajosa de enfrentar ciclos viciosos passados.

Fiquei neutro para tentar ainda juntar essas pessoas, objetivo impossível hoje. Na verdade, todos nós (incluindo eu) fomos incompetentes em permitir essa cisão, que somente prejudica o futuro do Flamengo. Faltou inteligência emocional. Depois de tudo que construímos juntos, qual é a condição que eu tinha de tomar partido entre dois lados que tanto contribuíram para a nova realidade? Esse período eleitoral está sendo profundamente frustrante para mim, sobretudo quando ouço agressões de lado a lado entre as Chapas Azul e Verde, com histórias que eu presenciei e que muitas vezes estão sendo distorcidas no calor eleitoral. Começamos a escutar que a Arena Multiuso deixou de ser prioridade, formar time de vôlei não é importante, votar a estrela do basquete no uniforme pode ficar para depois, entre outros fatos que vão esclarecendo muita coisa em termos de visão geral sobre esportes olímpicos.

Comparo o futebol e os esportes olímpicos/clube social a dois filhos do mesmo pai. Ao primeiro, tudo é permitido: hotel cinco estrelas, luxo, investimentos, chance de errar, coluna social, tudo com as bênçãos paternas. Já os esportes olímpicos representam aquele filho ao qual o pai exige total parcimônia, hotel no máximo de duas estrelas. Quando o local tem frigobar, é bronca na certa quando o filho pega uma barra de chocolate, porque “está gastando demais”. Talvez, por tantos sacrifícios realizados, que exigem enorme disciplina e gestão, fizemos e ganhamos tanta coisa.

Enfim, fiquei para ter voz livre para defender e dar voz ao filho que certamente não é o preferido do pai. Por várias razões, a cada dia que passa, tenho ainda mais convicção que tomei a decisão correta de ficar neutro, apesar de como sócio, exercer no dia 07/12 o meu direito de voto.

 

Por que essa sua certeza da neutralidade aumentou e como você está vendo os esportes olímpicos nesse cenário eleitoral?

Evidentemente, somente considero duas chapas para votar, a Azul e a Verde, oriundas da mesma gestão que mudou o Flamengo. Estou cada vez mais convicto da neutralidade por três razões:

Primeiro, era inevitável que as agressões entre ex-aliados acontecessem. Eu, que participei de toda essa luta, ficaria completamente constrangido se, ao escolher um lado, visse alguma agressão a um companheiro, mesmo em outra chapa.

Segundo, porque havia uma lista grande de projetos para serem entregues na Gávea, que os esportes olímpicos aguardam há anos. Tenho sérias dúvidas se conseguiríamos entregar sem a liderança de alguém totalmente focado, para o bem do Flamengo, sem pensar em eleição. Além das inaugurações físicas, tem o Anjo da Guarda que começa a sua campanha para sustentar as modalidades em 2016.

Terceiro, porque, de fora, consegui observar, sem emoção, que nenhuma das duas chapas vê o Flamengo da forma que eu enxergo: um clube multiesportivo e único (Futebol + Esportes Olímpicos + Fla-Gávea) e indivisível. É claro que o futebol é o carro-chefe do clube, o esporte que tanto amamos. Mas é triste ver os esportes olímpicos e o Fla-Gávea relegados ao quinto plano nessa eleição. Os eventos de apresentação das Chapas Azul e Verde, por exemplo, simplesmente ignoraram que o Flamengo foi campeão mundial de basquete há um ano e as campanhas praticamente não comentam esse fato. Triste. Nos museus do Barcelona e do Real Madrid, essas conquistas têm enorme destaque. O esporte olímpico ainda hoje não é valorizado com um orgulho espontâneo, o mérito repetido é apenas a autossustentabilidade. Há o desconhecimento de que nossos 750 atletas ganharam 97 títulos para o Flamengo nos últimos 34 meses. Uma média de 1 título a cada dez dias de gestão.

É claro que houve ajuda indireta aos esportes olímpicos nesse processo de saneamento financeiro. O inegável grande suporte nesses anos foi a conquista e a manutenção da Certidão Negativa de Débito, que permitiu corrermos atrás, com grande suor, de patrocínios incentivados. Alguns patrocínios privados importantes também vieram graças ao trabalho conjunto. As pessoas não têm ideia do que é fazer esporte olímpico no Brasil (onde boa parte das empresas, por falta de cultura, ignora a existência) e dentro de um clube de futebol como o Flamengo. Aqui, independente da época da gestão, normalmente, de dez vice-presidentes, quatro só conseguem enxergar o futebol (literalmente preferindo que o esporte olímpico não existisse), quatro acham até “legal” que o clube tenha esportes olímpicos (até a página em que atrapalhar o futebol em alguma coisa) e somente dois, em média, lutam realmente de verdade por outras modalidades (um é o VP de Esportes Olímpicos). Esse é o padrão, infelizmente.

 

Póvoa com Eduardo Bandeira, no lançamento do Anjo da Guarda, em 2014 | Foto: Flamengo

Póvoa com Eduardo Bandeira, no lançamento do Anjo da Guarda, em 2014 | Foto: Flamengo

Como vê a crítica da Chapa Branca de que, “com exceção do basquete (que foi somente uma continuação do que existia), os esportes olímpicos do Flamengo acabaram e as escolinhas estão destruídas”?

Só posso classificar essas críticas a partir de duas hipóteses: Ignorância ou amnésia. Ou um misto das duas.

A ignorância: 2012: 19 milhões de despesas e 2 milhões de receitas nos esportes olímpicos (17 milhões de déficit financiado pelo futebol); 2015: 30 milhões de receitas e R$ 30 milhões de despesas no mesmo departamento. Será que os esportes olímpicos acabaram ou renasceram?

Em três anos, R$ 57 milhões de recursos foram investidos nos esportes olímpicos, sendo R$ 41 milhões oriundos em leis de incentivo – os bônus de um clube-cidadão – IR, ICMS e Lei Pelé e R$ 16 milhões de origem privada (patrocínios diretos, comitês olímpicos e escola de esportes). Desse montante, R$ 14 milhões foram aplicados diretamente na infraestrutura da Gávea (duas academias de força de alto padrão, dojô totalmente modernizado, Ginásio Kanela e Hélio Maurício completamente reformados, a piscina e o Ginásio Cláudio Coutinho que ainda será inaugurado, além de compra de equipamentos). Investimos na base do Flamengo e em infraestrutura, os alicerces inexistentes para o crescimento foram construídos.

As escolinhas (agora Escola de Esportes Sempre Flamengo) de esportes coletivos só tinham aula em 2012 se os alunos levassem suas próprias bolas para as aulas. Completamente sucateadas. Cada um com sua roupa, sem uniforme. De lá para cá, para equiparar com os clubes da região, dobramos o valor das mensalidades (fomos demagogicamente criticados por isso), passamos de prejuízo e lucro crescente que é reinvestido integralmente no equipamento das modalidades e o número de alunos saltou de 1.900 para 2.600. Com a nova estrutura esportiva da Gávea, planejamos chegar a 4 mil alunos em três anos. Quem realmente é o destruidor de escolinhas?

A amnésia: Passando da ignorância à amnésia, o interessante é a crítica que tenho escutado sobre as duas obras que ainda não foram entregues e que foram exatamente os espaços que encontramos em estado calamitoso em 2012: O Ginásio Cláudio Coutinho (inauguração prevista para o dia 29/11), que sofreu com um lamentável incêndio e a piscina (a nova Myrtha, a mais moderna do mundo, deve estar instalada até o final do ano e em pleno funcionamento em março/16), que foi interditada porque estava literalmente desabando e jorrando litros na conta de agua do clube. Antes de criticar a demora das reformas (feitas com recursos incentivados), seria interessante os críticos puxarem pela memória e perguntar as razões daquele terrível estado dos locais ao responsável pelo Fla-Gávea 2012. Alias, é até covardia comparar a atual condição de infraestrutura esportiva da Gávea hoje com três anos atrás, apesar de eu reconhecer que podemos evoluir muito na parte de eventos sociais.

Quanto ao basquete, realmente a modalidade sempre foi uma tradição no clube, da qual inclusive tenho orgulho de ter participado como atleta laureado. Acho que essa diretoria deve ter tido algum mérito, sem falsa modéstia, na conquista de um tricampeonato da NBB (que não era ganho desde 2008/2009), a inédita Liga das Américas e de ter entrado de forma pioneira no radar da NBA. Fomos simplesmente campeões do mundo, o maior título da história recente do Flamengo (e o pessoal da monocultura futebolística ainda rejeita a estrela do basquete no uniforme do clube!). De repente, tivemos apenas mais sorte que outras diretorias …

Sobre o “Esporte Olímpico grande” que esse pessoal prega – equipe de natação sem piscina, time de judô com dojô quente e com goteiras, time de basquete e vôlei com vestiário caindo aos pedaços, atletas sem receber durante meses (estamos terminando somente agora de pagar algumas dívidas) e tudo 100% financiado pelo futebol – o Flamengo não sentirá saudades.

Tenho profundo respeito pelas antigas diretorias, sem exceção. Fui criado dentro da Gávea, sou atleta laureado. Só chegamos a esse nível hoje, porque desde a fundação do remo, há 120 anos, todos lutaram muito. Sem a nossa linda história, não teríamos chegado até aqui. Por isso, acho lamentável esse tipo de declaração eleitoreira, da pior qualidade e que não reconhece o trabalho que foi realizado (pela gestão original, dos companheiros que hoje estão espalhados entre a Chapa Azul e Verde e os grandes profissionais ao nosso lado). Mas quanto a isso não me preocupo, porque tenho a convicção que o sócio reconhece tudo isso e aposto que o somatório da Chapa Azul e Verde atingirá os 90% nessa eleição de 7 de dezembro.

 

Ganhando a Chapa Azul ou Verde, ambas já anunciaram que convidarão você para continuar como VP de Esportes Olímpicos. Quais são as metas da próxima gestão na pasta?

2013 foi um ano de sobrevivência, 2014 foi de organização e 2015 da autossustentabilidade. No próximo triênio, com a infraestrutura totalmente reformada, o vice-presidente que assumir deve buscar a excelência na formação e a reconstrução paulatina de equipes de alto nível nas diversas modalidades. A autossustentabilidade financeira e de estrutura não deve consistir mais em elogio, mas em obrigação. O Projeto Cuidar, que será lançado até o final de novembro e que vai unificar a Ciência dos Esportes Olímpicos (medicina, preparação física, fisiologia, fisioterapia, nutrição, entre outros) em um só núcleo na Gávea, representa apenas o começo dessa nova fase, a ponta desse iceberg. Temos que aproveitar ao máximo o ciclo até a Rio2016, “sugando” todo o conhecimento possível do Comitê Olímpico Americano e do Comitê Olímpico Britânico (em fase final de negociação), que estarão na Gávea.

A questão é que ser autossustentável não pode ser um fim em si mesmo. Deve ser apenas uma etapa do processo de crescimento que vem agora. Quero lutar para que o sucesso do basquete rubro-negro seja um exemplo para outros esportes, que devem paulatinamente voltar a formar equipes de ponta. Mas fica a pergunta: O Flamengo de hoje quer somente que os esportes olímpicos sobrevivam e não sejam um estorvo para o futebol, ou o Flamengo de hoje almeja um projeto de clube multiesportivo, com sucesso em várias modalidades?

Como não vejo nos grupos que disputam a eleição, sinceramente, essa visão de um Flamengo desse multiesportivo e indivisível (futebol, esportes olímpicos e clube social), acho pouco provável que eu continue à frente da pasta no próximo triênio. Gosto muito de algumas pessoas de ambos os lados, respeito profundamente a opinião de todos os grandes rubro-negros, mas identifico a existência de uma visão grandiosa somente para o futebol do clube. Se esse é o caminho preferido pela maioria, há de ser respeitado, mas me recuso a participar dessa ótica. O meu Flamengo é C.R. Flamengo e não “Flamengo Futebol Clube”, apesar de eu ser “o primeiro” a chegar ao Maracanã ou a qualquer outro estádio, com total assiduidade de quem não gosta pay per view quando o assunto é Flamengo. Com todo o respeito, há dezenas de milhares de clubes de futebol pelo mundo. Agora, o número de clubes de futebol multiesportivos de alto nível não passa de 100 no planeta. Eu me orgulho demais de o Flamengo fazer parte dessa seleção.

A definição estratégica sobre o crescimento de esportes olímpicos e do clube social deve partir claramente do grupo que ganhar a eleição e não apenas de uma minoria que o compõe. Depois de anos de reestruturação profunda, chegou a hora de a chapa vencedora nas próximas eleições se posicionar de forma cristalina sobre o assunto, de preferência antes do pleito. Que sejamos um clube de futebol apenas, se esse for pensamento legítimo da maioria dos sócios do Flamengo. Vou lamentar, mas hoje estou tranquilo quanto a essa potencial transição para uma pessoa na posição de vice-presidente (que atenda os objetivos de quem vencer a eleição), dado que formamos uma área estruturada com um Diretor Executivo de alto nível – Marcelo Vido – e um grupo de profissionais supercompetentes em cada modalidade e na área de projetos incentivados. A Comunicação tem ajudado bastante, mas continuo insistindo que temos que voltar ao modelo de marketing dos Esportes Olímpicos separado do futebol, dado que esse absorve o tempo e a energia de todos.

Enfim, tenho enorme orgulho do verdadeiro trabalho de time que fizemos nos Esportes Olímpicos no triênio 2013-15 (Conselho Diretor, profissionais, comissões técnicas e atletas) e do grupo do qual participei e aprendi muito (a Chapa Azul completa de 2012 – dividida entre a Chapa Azul e Verde de 2015) e que hoje propicia condições ao Flamengo de voltar a sonhar muito grande novamente. Estarei sempre por perto para ajudar o clube da forma que for. Quem sabe, no futuro, terei condições de realizar o meu sonho e objetivo de alçar voos mais altos na política do clube, que sempre será a minha segunda casa. Certamente, propondo de forma clara e aberta, o meu compromisso e sonho de um futebol muito forte, mas sempre acompanhado de outras modalidades vencedoras e um clube social grandioso, colocando o Flamengo na dimensão que ele merece.

 


André Amaral escreve no Ninho da Nação, da plataforma MRN Blogs e também no ninhodanacao.blogspot.com. Twitter: @Ninhodanacao

 

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