Após entrevistar o jornalista Gabriel Fuhrmann, o blog segue sua seção de entrevista com especialistas das categorias de base.

O entrevistado de hoje é um dos maiores conhecedores do assunto no Brasil: Pedro Venâncio.

Confira:
André Amaral – Como especialista de divisões de base, qual sua avaliação do retrato atual do quadro no Flamengo?

Pedro Venâncio – O trabalho se consolidou em 2016 com o título da Copa São Paulo e a ascensão do Zé Ricardo aos profissionais, mas há dois anos já era possível perceber melhoras que se iniciaram lá atrás, na gestão Patrícia Amorim, e aumentaram na gestão Bandeira de Mello. Em 2009, o Flamengo tinha dificuldade até de transporte dos jogadores para os treinamentos, e isso mudou com a chegada do Noval. Ainda não é o cenário ideal, o investimento é baixo, se levarmos em conta o orçamento total do clube, e a transição de jogadores para os profissionais não é a adequada por vários fatores, incluindo uma pressão absurda por resultados imediatos e a contratação de jogadores como Leandro Damião, que reduziram o tempo de jogo, por exemplo, do Felipe Vizeu. Mas a evolução é inegável e a tendência é que as coisas melhorem mais ainda nos próximos anos.

O clube conquistou o estadual sub-13, 14, 15, 17, a OPG sub-20 e a Copa SP. O desafio é fazer a transição. Como funciona esse
processo e quais erros o Flamengo não pode mais repetir?


A transição é um desafio mundial, e não há receita pronta. Futebol não é uma ciência exata, e o que serve para um, pode não servir para outro. Mas basicamente o Flamengo precisa apostar na molecada que tem. É subir o Paquetá, que tem muita projeção, e efetivar como o reserva do Diego, dando chances reais ao moleque. É subir o Ronaldo, que tem condições de ser o substituto natural do Márcio Araújo, e não contratar alguém para barrar essa progressão, como foi feito no ano passado, não só com o Damião. O Flamengo contratou o Antônio Carlos, vindo do Avaí, que mal jogou, sem sequer olhar para o Léo Duarte, que foi o melhor zagueiro da Copa São Paulo. Quando o reforço é indiscutível, como o Conca ou o Rômulo, ok, o jogador da base até pode ficar no banco para aprender. Mas se for para apostar, a prioridade deveria, em tese, ser da base.

O Flamengo ainda carece de uma estrutura para oferecer aos seus jogadores da base. As obras do seu CT devem começar ano que vem. Mas parece ter melhorado a captação de talentos. Com a estrutura formada, o caminho para o sucesso passa pelo CT da base para acolher e formar esses jogadores?

Passa, sem dúvida, mas não é só isso. Uma boa estrutura atrai jogadores e principalmente seduz as famílias dos jogadores, que entendem que seus filhos estão bem acolhidos quando veem, por exemplo, um CT de Cotia, do São Paulo, ou do Caju, do Atlético-PR. Mas é necessário também que o jogador se integre ao clube e perceba que é parte da instituição. A relação não pode ser só “damos do bom e do melhor e você tem que ir lá e jogar bola”. É necessário um método, uma compreensão de que jogadores de base irão oscilar naturalmente, e a confiança de que o trabalho realizado pode dar certo. No Flamengo hoje, eu vejo esse planejamento muito bem executado por profissionais como o Léo Inácio e o Kadu Borges. E o resultado vem não só em títulos, mas também na presença de atletas nas seleções de base.

No começo do ano a ideia era padronizar tática das divisões de base com o time adulto. O caminho é esse? Não engessa demais?

Com o perdão da expressão, eu acho esse discurso de padronização tática uma picaretagem do tamanho do mundo. O futebol é feito por gente, e gente que pensa diferente, joga diferente. Então, por mais que se tente traçar referências posicionais iguais, não sairá um jogo igual, porque as decisões são diferentes. No Barcelona, que virou referência para tudo, eles revelaram uma grande geração (a 87/88), alguns craques esporádicos (Xavi é /80, Iniesta é /84, Thiago Alcântara é /91) e quem mais? O Ajax, outro que fala em alinhar esquemas, não revela um jogador holandês de ponta desde o Sneijder, que já vai fazer 33 anos. Essa padronização foi vendida por quem estava no comando dos profissionais do Flamengo na ocasião, e quem está na base, por ser o lado mais fraco em toda e qualquer discussão, não se pronuncia por medo de perder o emprego. Mas é óbvio que é necessária autonomia para que os treinadores das equipes as adaptem às características de seus jogadores, mantendo, sim, uma filosofia de jogo alinhada. E no Flamengo, um clube grande, essa filosofia precisa ser a de propor, construir o jogo para formar o atleta com o maior número de recursos técnicos possível e um entendimento tático global do que é a partida.

Para 2017 a ideia é utilizar mais o Léo Duarte, Vizeu, Ronaldo e Paquetá. Além destes, quem você apostaria para o ano que vem?
Aposto na recuperação do Matheus Sávio e no Cafu, que é um jogador que conta com a admiração do Zé Ricardo e se encaixa na filosofia de jogo proposta por ele. Gosto também do volante Hugo Moura e do meia-atacante Lucas Silva, que podem surpreender. O lateral-esquerdo Michael é outro que tem muita projeção.

Qual sua avaliação do Vinicius Júnior?
Em oito anos cobrindo base, é o jogador que mais me impressionou. É completo nos fundamentos, rápido, habilidoso, criativo e objetivo. Se aprender a jogar sem a bola (ainda tem muitas dificuldades), vai ser um jogador de seleção brasileira. Também pode aparecer nos profissionais em breve.

Qual avaliação que faz do trabalho do Carlos Noval e da comissão técnica?
Um bom trabalho, organizado, que começa agora a colher frutos. Mas que ainda precisa de um suporte maior dos profissionais na transição, e esse momento, com o Zé Ricardo no comando, é o ideal para que isso aconteça.

André Amaral
Twitter: @Ninhodanacao

 
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