Poucos temas são tão complexos quanto à reformulação do calendário brasileiro. É consenso que algo precisa ser feito para reverter o atual quadro, mas o que fazer? Como fazer?

 
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Valdemir Henrique (Twitter: @netobygu)

 
Apenas farei uma explanação sobre o cenário, pois propor soluções do que deve ou não ser feito seria leviano de minha parte já que até mesmo especialistas divergem frontalmente em defesa das mais diversas reformas.

Em primeiro lugar devemos nos perguntar:
– Para quem o futebol é feito?

– Quem financia o espetáculo?

Penso que todos responderão unanimemente os questionamentos. Com horários como 22h, 19h30min e até 21h de um sábado… Com toda certeza não é para o torcedor de arquibancada. O esporte hoje em dia é feito para o telespectador, seja através de transmissões por TV aberta, TV paga ou via Web. Todos os horários e até o número de partidas são pensados para atender a demanda desse público.

A TV, como financiadora majoritária de todo o espetáculo, busca satisfazer seu público. Procura sempre o retorno publicitário e o melhor encaixe em sua grade de programação. Isso não é exclusividade do Brasil, a maioria dos eventos esportivos é voltada para o telespectador, que ganha esta importância em um mundo cada vez mais conectado.


Então aquela velha ideia, abordada na maioria das vezes superficialmente, de mudar o horário dos jogos e diminuir consideravelmente o número de datas não é nada fácil de ser posta em prática. Existe uma grande demanda por jogos, e dessa forma, mesmo que a uma emissora concorde com as medidas, ainda existirá uma demanda dos telespectadores que com certeza será atendida por uma concorrente.

Não abordarei nada sobre as federações por entender que elas são meras chanceladoras burocratas que não se importam com absolutamente nada além de sua existência e poder.

E quem são os atores desse espetáculo?

Muitos apontarão apenas os clubes e seus atletas/comissão técnica. Contudo, os torcedores presentes são peça fundamental para uma boa partida, porque eles contagiam a todos com sua vibração: os jogadores se motivam, os telespectadores ficam ainda mais envolvidos e isso acaba refletindo na audiência.

Falando humildemente como um rubro-negro off-rio, não tem como não se emocionar com o Maraca lotado e a Nação jogando junto. Por outro lado, é deprimente acompanhar um jogo com dois ou três mil torcedores dispersos nas arquibancadas e aquele silêncio entediante.

Os clubes têm pouco ou nenhum poder de negociação, pois a maioria teria fechado as portas há décadas se fossem tratados como empresas. São dependentes do adiantamento das cotas de TV. Como impor condições em uma negociação se você está endividado e gastou a receita dos próximos cinco anos?

Os jogadores começaram se organizar somente agora através do movimento Bom Senso FC, mas ainda é uma categoria individualista e dispersa. Apesar dos altos salários (dificilmente pagos em dia), uma jornada com jogos a cada 72 horas num país de dimensões continentais é um exagero. E, via de regra, prejudica a parte técnica. Um calendário bem planejado elevaria a qualidade das partidas gerando melhor retorno financeiro.

O torcedor de arquibancada… Ah torcedor… Este não é apenas a parte mais frágil, é um pobre coitado apaixonado maltratado por tudo e todos! E das piores maneiras possíveis: Um preço de ingresso que torna quase impossível para a maioria das pessoas acompanhar mais de duas partidas por mês, um transporte público que dispensa comentários, e a segurança pública que de segura só tem o nome. Quando essa figura tão humilhada supera todos esses desafios e chega às bilheterias começa outro inferno, sistemas obsoletos, mau atendimento e cambistas desfilando com ingressos na mão só para mostrar o quanto esse apaixonado é trouxa. Não por acaso registramos médias de público baixas quando comparamos até mesmo com países periféricos no cenário do futebol mundial.

Em minha humilde opinião, a única forma de superar esse grande desafio, e, consequentemente, fortalecer o futebol brasileiro, é o diálogo entre emissora, clubes e jogadores. Com todos pensando no bem comum. Em numa guerra não existem vencedores e se cada um se importar apenas com o próprio umbigo, o cenário atual continuará desfavorável e as questões apresentadas nesse texto se tornarão cada vez impecilhos ao desenvolvimento do nosso futebol.

Enquanto a inoperância reina em nosso futebol, países como EUA e China que até pouco tempo eram irrelevantes no mapa do futebol, desenvolvem boas e organizadas competições, através de Ligas competitivas.

E aqui, no país do futebol, meus amigos leitores, o futebol brasileiro segue padecendo. Aguardando ansioso, à espera de um milagre.