Sérgio Vieira (Twitter: @sergiomrvieira)


saloon
A diretoria do Flamengo tem sido muito questionada sobre os resultados do futebol. A quase totalidade da torcida reconhece e apóia a boa gestão que os Azuis vêm fazendo nas finanças do clube. E a quase totalidade da torcida vem assoprando as cornetas com cada vez mais força quando o assunto é o time de futebol do Flamengo. E não sem razão.

O difícil trabalho de saneamento das contas do Mengão que vem sendo feito pela diretoria bem poderia ser classificado como o Décimo Terceiro Trabalho de Hércules. Dívidas astronômicas, gestão financeira caótica, receitas baixíssimas para um clube do tamanho do Flamengo: tudo isso vem sendo muito bem solucionado por EBM & Cia. Mas num clube como o Flamengo, todo esse esforço e trabalho brilhantes podem ir pro vinagre se a rapaziada que manda prender e manda soltar não abrir o olho para o departamento de futebol.

A torcida do Flamengo quer títulos. Glórias. Quer ver e participar da construção dessas glórias. Os Azuis precisam fazer um bom trabalho também no departamento de futebol. Como já escrevi aqui, o Flamengo encontrou sua estrada de ferro e tem de seguir por ela. Mas a questão é como. Há, basicamente, duas opções: na primeira, os Azuis se concentram no pagamento de dívidas e o futebol se contenta com o que der. Se for rebaixado é parte do sacrifício. Na segunda o pagamento de dívidas é prioridade, mas o futebol também o é. Afinal, o futebol é o coração do clube.

Ou seja, a diferença é como atingir o objetivo. E pra falar disso vou lhes contar um pouco da história de Abraham Lincoln, o décimo sexto presidente da América. Afinal, aqui no Saloon do Urubu sempre pegamos personagens do velho oeste, e Lincoln foi presidente precisamente nesta época.

A eleição de Abraham Lincoln foi, grosso modo, o estopim que deu início à Guerra Civil Americana. Sua eleição fez com que os estados do sul declarassem cessão à União, formassem os Estados Confederados da América e proclamassem eles próprios serem uma nação soberana. Lincoln desejava abolir a escravidão na América através de uma emenda constitucional e esse foi o motivo de os estados do sul se rebelarem.


Abraham Lincoln em novembro de 1863. | Foto:  Alexander Gardner

Abraham Lincoln em novembro de 1863. | Foto: Alexander Gardner

Com o advento da guerra, Lincoln, membro do Partido Republicano, teve de usar toda sua habilidade política para que a maior parte dos estados ficassem do lado da União, ao mesmo tempo em que precisava lidar com a ala radical do seu partido, representada principalmente por Thaddeus Stevens. Stevens era um defensor ferrenho da abolição e queria que ela fosse decretada de qualquer modo, mesmo que isso significasse a perda do apoio de muitos estados importantes. Lincoln sabia que isso era suicídio, e deixou isso muito claro numa conversa que teve com Thaddeus Stevens: “Se eu tivesse lhe escutado, Sr. Stevens, eu teria declarado todos os escravos livres no instante em que o primeiro tiro de canhão atingiu Fort Sumter. Em seguida, os estados fronteiriços teriam passado para a Confederação, a guerra teria sido perdida e a União junto com ela. E, em vez de abolir a escravidão, como nós dois esperamos fazer, estaríamos vendo crianças escravas se espalhando pelo sul da América e pela América do Sul”. Stevens então rebate dizendo que as pessoas devem ter uma bússola interna que oriente a alma para a justiça. E que esta bússola estava ossificada nos homens brancos da América, pois eles toleravam algo repugnante como a escravidão. E Lincoln responde: “Um bússola, eu aprendi, vai apontar para o Norte, de onde você está, mas não tem nenhum conselho sobre os pântanos, desertos e abismos que você vai encontrar ao longo do caminho. Se na busca pelo seu destino você vai mergulhar de cabeça, sem se importar com os obstáculos, e conseguir nada mais que se afundar em um pântano, de que serve saber para onde fica o Norte?”

É um belo argumento. A diretoria do Flamengo deveria ser dar conta disso: de que vai servir saldar as dívidas se o futebol, o coração do clube, a paixão máxima da Nação, não conquistar as vitórias e títulos que se esperam dele? A bússola dos Azuis aponta na direção certa, mas eles precisam saber atravessar os pântanos, desertos e abismos. Um time de futebol vencedor é vital para o Flamengo. Sem ele, todo o resto vai por água abaixo.

Por fim, parafraseando Lincoln em seu mais famoso discurso, o Discurso de Gettysburg: “Há 103 anos, seis jovens remadores deram origem a uma nova Nação, concebida e consagrada no princípio de vencer, vencer, vencer. Cumpre-nos a nós, rubro-negros, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente e que todos nós aqui presentes admitamos que esses jovens remadores não se esforçaram em vão. Que esta nação renasça na liberdade, e que o Flamengo da Nação, pela Nação e para a Nação não desapareça desta terra.”


Sérgio Vieira é Mengão, republicano e escreve histórias de faroeste no seu blog http://poeiraepedra.blogspot.com

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