Por Gerrinson. R. de Andrade (Twitter: @GerriRodrian) - Do Blog Orra, é Mengo!
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Por vezes, não há exorcismo que funcione.

Outono, vento frio. Uma cena de horror, momento doentio. Uma casa, lar de enlouquecidos, os cães escondiam-se silentes e apenas soava a voz bestificada de uma mulher possuída. Aos seus pés, um mísero homem implorava, de mãos clementes, ofegante, cansado.

– Não! Jamais! Não! – repetia a mulher-satã em seu canto, num grito grunhido, com a boca mole de baba melada.

O homem prostrado, ainda num resto de força-vital, lhe tenta dizer:

– Tem 7 centavos de desconto no Todynho…

– Aqui ninguém bebe disso, aqui ninguém bebe aquela cerveja, aqui temos pilha recarregáveis!! O refrigerante ainda é mais barato no boteco da esquina!!

O homem desfalecia, sua vista fraquejava, era um misto de tontura, fome e medo. Mas sua fé ainda o fazia respirar de narinas largas – era aquele ar de outono que ainda lhe deixava vivo. A outra, olhos vítreos de estátua, mirava o moribundo e voltava a lhe cuspir em palavras:

– Uns pernas-de-pau ganhando 200 mil e você de sapato velho. Uns pernas-de-pau que vão torrar dinheiro na vida de nababo, com selfie em iate, selfie em banheira lotada de quenga! Não, aqui nesta casa ninguém rasga dinheiro!

– O campeonato brasileiro…



– Dane-se, seu infeliz, aqui não. Um monte de gente dá seu dinheiro para enriquecer pastor bilionário, um monte gasta em loteria que ninguém ganha, um monte de trouxa rasga dinheiro com carnê do baú.

– Mas, mulher, os descontos no ingresso…

A gota d’água no pote cheio de rancor – a besta-fera então perdeu o que havia de forma humana, rodopiou feito um bêbado tresloucado, disse nada em mil-palavras, aquela agonia brutal nos olhos flamejantes, um sortilégio de grunhidos e calafrios. Alguns segundos depois, recobrando a calma de um verdugo, sentenciou:

– O Flamengo vem jogar aqui a cada dois mil anos. Agora, cale a boca, maldito.

O homem – enfim – fechou seus olhos, sem argumento que o seu querer, a boca ardendo na secura. Lembrava do que diziam no Twitter, como o acusavam, que não era ele um homem de fé, verdadeira, que não era legítimo torcedor. Sentia vergonha de si, sentia o amargo-acre do fracasso.

A mulher, já preparando a janta, triunfava em sua impiedade. Viu o marido ali, de joelhos, semi-vivo. Sentiu algum tipo de dó, miseração talvez. E lhe disse com a doçura de uma mãe:

– Quer comprar boné da marca oficial? Quer mais livros contando a história rubro-negra? Quer uma action figure do Zico? Isso eu deixo. Mas dízimo, isso nunca.

Orra, é Mengo!

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