Campeonato estadual é um pouco como uma paixão de adolescência. As pessoas vão te dizer que não é tão importante, amigos e pais vão te falar pra não levar tão a sério, colocando em perspectiva você vai notar que fez pouca diferença efetiva na sua vida exceto te levar a passar raiva sem necessidade. Mas enquanto está acontecendo, ah, amigo, enquanto está acontecendo é a coisa mais importante do mundo.

E nesse domingo o Flamengo estreou em mais um Campeonato Carioca, contra o Boavista, em mais um jogo que claramente não valia nada, mas que sim, era a partida mais decisiva do mundo e se o time não fosse bem teríamos começo de crise na Gávea, Zé Ricardo questionado, diretoria na berlinda, pessoas prevendo um futuro nefasto onde caímos pra série b e a água e a eletricidade acabam no ocidente.

Mas vencemos, na verdade goleamos e, ainda que seja muito cedo para tirar conclusões definitivas sobre a equipe, algumas coisas já começaram a se delinear para o resto da temporada.

Uma delas é que Miguel Trauco é possivelmente bem mais do que esperávamos. Ainda que claramente deficiente na marcação – mostrou problemas tanto na bola alta quanto na recomposição – o lateral peruano demonstrou um potencial ofensivo impressionante. Não apenas sobe com intensidade para apoiar como tenta finalizar e, raridade entre os laterais de hoje em dia, sabe efetivamente cruzar e não apenas chutar bolas para a área na esperança de que elas batam em alguma pessoa distraída e entrem, como numa espécie de pinball humano. Mesmo sendo contra uma equipe pequena como o Boavista, uma estreia com assistência e gol é um ótimo sinal e serve pra reduzir um pouco a síndrome de abstinência de Jorge que a torcida enfrentava. Guerrero sempre foi ótimo na bola aérea e talvez Trauco seja o coadjuvante que faltava pro atacante se destacar mais ainda.

Outra é que todos nós queremos uma gatinha que insista com a gente da maneira que Zé Ricardo insiste com o atual esquema tático. Mancuello não é um atacante de lado de campo, tanto que só se destaca quando leva o jogo pro meio, Adryan não é um atleta profissional, tanto que parece aquele seu primo que aos 24 anos a mãe ainda corta a borda do pão de forma pra ele, mas mesmo assim Zé insistiu em improvisar os dois apenas pra não precisar mudar de formação. Por mais que eu confie no nosso treinador, é essa dificuldade de aceitar quando a tática inicial apenas não funciona que me deixa preocupado em certos momentos.


Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Ainda assim é preciso reconhecer que foi exatamente um dos improvisos dele que deu certo, ao colocar Rodinei no lugar de Adryan e não apenas ganhar um jogador que realmente explorava em velocidade a ponta direita como nos mostrar que Marcelo Cirino era tão ruim em ser Marcelo Cirino que até Rodinei, reserva do Pará, é um Marcelo Cirino melhor. A entrada do lateral incendiou o jogo e foi essencial para o placar final.

Também vale destacar a estreia de Rômulo que, mesmo discreta, também foi animadora. Jogador que marca sem fazer faltas, rouba bolas e ainda que não tenha a velocidade de Márcio Araújo, tem muito mais disposição para dar o passe em profundidade e participar na construção do jogo, não se limitando apenas a se livrar da bola como se estivesse num quadro do Domingo Legal e ela fosse uma bexiga prestes a explodir. Passa a sensação de que vai crescer bastante durante a temporada.

Resumindo, o Flamengo venceu de maneira convincente apesar de um primeiro tempo que chegou a desanimar em alguns momentos. Com o time ainda em formação, a esperança é que Zé não apenas descubra as peças certas para o seu esquema – se você quer jogar com atacantes pelos lados precisa de atacantes pelos lados para jogar – como se lembre que existem outros esquemas e pode usar sim, ninguém vai morrer, tá tudo bem, amiguinho. Para uma estreia, para o Campeonato Carioca, foi ótimo. Para uma Libertadores, um Campeonato Brasileiro, vamos precisar de mais.

 
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