Existem várias maneiras de contar a história do jogo na Colômbia que levou o Flamengo de volta a uma final internacional. A principal delas, é claro, é uma história de superação de dois garotos da base: o contestado Vizeu, que fez três belos gols nos dois jogos do confronto e selou a classificação, e o improvável César, que chegou para apagar um incêndio de proporções inimagináveis.

Não poderia haver um roteiro melhor. Até o pênalti no fim veio para tornar a noite especial. Todo rubro-negro foi dormir feliz na quinta-feira.

Talvez tenha sido a primeira atuação épica deste Flamengo nesse 2017 que insiste em não terminar.

Mas, para além da história, houve futebol, um jogo tenso, nervoso, em que o Flamengo sempre esteve em vantagem, mas não foi soberano todo o tempo. Há muito o que falar também.

Parando o adversário

A maior arma do Junior Barranquilla era claramente a bola nos seus pontas para o mano-a-mano contra os nossos laterais. Por isso, a manutenção da Avenida Trauco pelo lado esquerdo chamou a atenção logo de início.

O plano de Rueda para neutralizar o time colombiano teve duas partes.

Primeiro, escolheu jogar com uma defesa bastante recuada, normalmente dentro da própria área, para não dar espaços nas costas que poderiam ser aproveitados em velocidade. Como futebol é um jogo de cobertor curto, esse posicionamento matou qualquer pressão na saída de bola do adversário: a linha de defesa recua e todas as outras linhas precisam recuar junto, para não gerar buracos. O Flamengo marcou sempre com os onze atrás do meio-campo, e depois de abrir o marcador colocou os onze na própria intermediária. Rueda fez exatamente isso logo que chegou ao Flamengo e não tomou gols nos primeiros quatro jogos. Depois, veio soltando um pouco mais o time, apostando em algum nível de pressão. Contra o Barranquilla, colocou todas as fichas em criar um bloqueio perto do próprio gol.

O segundo ponto-chave foi dobrar a marcação pelos lados. Sem Everton e Berrío, que fazem o corredor, o treinador preferiu manter Paquetá e Arão abertos quando o time perdia a bola, com Diego, Éverton Ribeiro e Vizeu retornando por dentro para congestionar o jogo dos volantes adversários. Cuellar cuidava do espaço entre as linhas, sendo um limpador de parabrisas na frente da defesa.

O fim do primeiro tempo foi difícil. Na prática o Flamengo não sofreu grandes sustos, mas a estratégia fez com que o Junior Barranquilla tivesse muito mais posse de bola, rondando a área para lá e para cá. Arão foi muito criticado pela torcida pela má atuação, mas parte disso se justifica pela pouquíssima faixa de campo que o camisa 5 teve para explorar. Fez uma função apenas burocrática.

No segundo tempo, Rueda modificou esse posicionamento defensivo. Arão passou a jogar por dentro, com Éverton Ribeiro retornando pelo corredor direito. Aparentemente ficou menos confuso.

Contra-atacando

Um detalhe estranho de Rueda é a sua estratégia de contra-ataques. Quando tem os pontas velocistas à disposição, muitas vezes usa uma marcação mais adiantada, sem atrair o adversário. Se o outro time joga recuado, Everton e (especialmente) Berrío são pouco úteis, pois não têm espaço para aproveitar nas costas da defesa.

Contra o Junior, o espaço era abundante, mas não havia quem puxasse o contra-ataque. Diego e Éverton Ribeiro estavam mal tecnicamente, mas o fato é que não havia uma ultrapassagem veloz no time do Flamengo.

Quis o destino que Vizeu, que não se destaca pela sua velocidade, tirasse da cartola uma arrancada de 50 metros que só parou dentro do gol. A via de ataque estava lá, mas o Flamengo teve muita dificuldade para aproveitar pela característica de seus jogadores. Será que não valeria a pena ter pelo menos Rodinei do lado direito, com ordens para disparar nas costas do lateral quando recuperássemos a bola? Ou Vinicius no lugar de um dos meias?

Segurando a pressão

Nos minutos finais, perdendo por 1×0, o Junior foi com tudo para cima do Flamengo. Um dos nossos principais problemas da temporada começou a aparecer: o psicológico.

Se futebol é tático, técnico, físico e psicológico, certamente esse último fator é o mais fraco desse time.

O Flamengo não conseguiu manter a bola no pé. Vizeu jogava completamente isolado, Paquetá estava exausto e Diego, que já estava em péssima noite, caiu ainda mais de produção. O pênalti assinalado não foi nada, mas poucos minutos antes Cuellar disputou uma bola duvidosa dentro da área.

Quando o juiz apontou a marca do cal, faltavam poucos minutos. A confiança na classificação se manteve, mas um fantasma apareceu. Será que o Flamengo entraria mais uma vez em desespero?

A defesa de César não foi só importante pelo placar, mas para dar confiança a um time que tinha muita dificuldade em lidar com situações difíceis. Veio de um garoto que estava há dois anos sem jogar o lance que pode ser decisivo para o futuro deste elenco.

Conclusões

Não fizemos uma grande partida, mas vencemos merecidamente. O Flamengo ainda pode mais, mas há algumas semanas não esperávamos nem isso. Ir na Colômbia, segurar o adversário, conseguir dois gols e ainda espantar o fantasma dos minutos finais foi bom demais!

O Independiente que nos aguarde. Os 11 em campo ainda precisam melhorar, mas os 40 milhões fora dele estão prontos para jogar muito na final!