Fui ontem na estreia da Ilha do Urubu. O estádio é lindo, aconchegante, e organizado. O acesso é fácil, o campo é perfeito e a iluminação é incrível. De improviso aquilo ali não tem nada. É um estádio que não deve nada a vários outros da primeira divisão. Um dinheiro bem gasto. Ontem, porém, não estava lotado. E a diretoria terá que explicar o porquê.

Ontem foi um estádio frio, sem pulmão. Pode ser apenas a torcida se acostumando com a nova casa. Pode ser também que a sonolência do time não inflame a arquibancada. A gente sabe que a magnética é capaz de puxar o time, mas o contrário também é verdadeiro. Ontem, a Ilha foi um estádio sem alma.

Cito aqui Eduardo Galeano, em seu magistral livro “Futebol ao sol e à sombra”:

“Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém.

Em Wembley ainda soa a gritaria do Mundial de 66, que a Inglaterra ganhou, mas aguçando o ouvido você pode escutar gemidos que vêm de 53, quando os húngaros golearam a seleção inglesa. O Estádio Centenário, de Montevidéu, suspira de nostalgia pelas glórias do futebol uruguaio. O Maracanã continua chorando a derrota brasileira no Mundial de 50. Na Bombonera de Buenos Aires, trepidam tambores de há meio século. (…) O estádio do rei Fahd, na Arábia Saudita, tem palco de mármore e ouro e tribunas atapetadas, mas não tem memória nem grande coisa que dizer.”


Precisamos decidir que tipo de estádio queremos ter. O que o nosso templo vai ter a dizer.

A lei do mercado

Todo mundo lembra de 2013 como o ano do título da Copa do Brasil. Ano de Brocador, Elias e Paulinho. Mas a verdade é que passamos por péssimos momentos naquela temporada. Tivemos quatro treinadores no ano. Dorival fez jus ao apelido: Do Rival. Jorginho não deixou nenhuma saudade. Mano Menezes montou um time que parecia mais um bando em campo, não trouxe nenhuma boa ideia (na verdade, nenhuma ideia, boa ou ruim), ganhou uma baba por isso e ainda saiu choramingando. Jayme só chegou para arrumar um pouquinho a casa no fim de setembro.

Eu e boa parte da torcida roemos um belo osso naquele ano. Cansamos de ir para o Maracanã ver o Flamengo jogar muito, muito mal. Mesmo assim, em todo jogo, debaixo de chuva ou de sol, o torcedor estava lá. Chegamos na final da Copa do Brasil! E o ingresso mais barato custava duzentos e cinquenta reais. O mais caro, oi-to-cen-tos. Roemos o osso, mas na hora do filé mignon… “É a lei da oferta e da procura”, nos disseram.

Palhaçada! Imagina que você está na fila por um transplante de fígado há anos e o médico te diz que vários órgãos compatíveis já foram encontrados, mas foram para pessoas que puderam pagar mais que você. Imagina você viajar no fim de semana com os amigos, mas aqueles que pagam mais podem se servir primeiro no jantar e nunca sobra nenhuma batata frita para você. Imagina se o seu candidato a presidência recebe mais votos, mas é derrotado porque o peso do voto de cada pessoa é proporcional a quanto ela tem no banco.

O mercado é uma ferramenta muito útil para facilitar relações de troca. Mas só isso. Se deixarmos esses mecanismos mediarem todas as relações humanas, o nosso tecido social se corrói.

Com um programa de sócio torcedor, é possível saber quem foi a qual jogo. Seria possível usar esse critério para dar prioridade na compra para a final. Seria muito mais justo do que o critério econômico. Ninguém é mais Flamengo que ninguém. Cada um tem seu jeito de torcer e tem torcedor que prefere ficar em casa. Respeito totalmente, mas a arquibancada deve dar prioridade para quem a frequenta na saúde e na doença. Quem rói o osso deveria ter prioridade no filé.

Foto: Gilvan de Souza

Febre de bola

Poderia falar muito sobre a relação do torcedor com o clube, mas vou citar Nick Hornby, que é preciso em seu ótimo livro “Febre de bola”. O trecho abaixo foi escrito na Inglaterra em 1992, mas poderia ter sido escrito no Brasil atual.

“Os grandes clubes parecem ter se cansado das suas torcidas, e sob certo aspecto quem pode culpá-los? Jovens trabalhadores e homens de classe média baixa trazem consigo problemas complicados e ocasionalmente perturbadores; os diretores e presidentes podem argumentar que eles tiveram sua chance e a desperdiçaram, e que as famílias de classe média – o novo público-alvo – não só irão se comportar bem, como pagar muito mais para fazê-lo.

Esse argumento ignora questões básicas que envolvem responsabilidade, justiça e o papel que os clubes têm ou não a representar nas suas comunidades. Mas mesmo sem essas questões, parece-me haver uma falha fatal nesse raciocínio.

O prazer que um estádio de futebol pode proporcionar é, em parte, uma mistura do vicário com o parasítico, porque a não ser que a pessoa poste-se no Lado Norte, no Kop ou na Ponta Stretford, fica dependendo dos outros para que a atmosfera seja criada; e a atmosfera é um dos ingredientes cruciais da experiência futebolística. Essas torcidas imensas são tão vitais para os clubes quanto os jogadores (…) porque sem as torcidas ninguém se daria ao trabalho de ir ao jogo.

Muita gente – o pessoal das cadeiras que custam vinte libras, e os caras dos camarotes executivos – também paga para ver a torcida que foi lá ver Paul Merson. Quem iria comprar um camarote-executivo se o estádio estivesse cheio de executivos? O clube vendia os camarotes incluindo a atmosfera de graça, de modo que o Lado Norte gerava tanta renda quanto qualquer um dos jogadores. Mas quem irá fazer o barulho agora? Será que a garotada suburbana de classe média ainda virá com suas mamães e papais se o barulho tiver de ser feito por eles mesmos? Ou será que se sentirão tapeados? Porque a realidade é que os clubes estão lhes vendendo ingressos para um espetáculo no qual a atração principal foi afastada para dar lugar a eles”

É bom deixar muito claro: não é só o preço do ingresso. Esse é apenas um fator. Conta também a forma como se construiu a relação dos clubes com suas torcidas e seus ídolos nos últimos anos. Conta o posicionamento da mídia nisso tudo, já que o resumo do jornalismo esportivo se tornou “veja aqui os memes de zoação com o rival”.

É um programa de sócio torcedor que não dá prioridade a quem comparece. É a venda casada de ingresso, que não permite que o cara vá a um único jogo com a grana que sobrou no fim do mês. É o fato de não poder levar bandeira, não poder pintar a cara, não poder acender sinalizador. É fazerem um estádio lindo e maravilhoso, mas que não tem espaço pra faixa nenhuma. É o cerco se fechando não só contra as organizadas, mas contra todas formas tradicionais de se torcer por aqui.

Às vezes me parece que a diretoria do Flamengo preferiria embolsar R$ 1 milhão para jogar com o estádio vazio do que R$ 900 mil para jogar com o estádio lotado. Não gosto de acreditar nisso, mas é o que parece. Isso tudo é o torcedor sendo tratado como gado. Ou, muito pior, como mero consumidor.

Se fôssemos apenas consumidores, não pagaríamos para ver o Flamengo. Não esse time do Flamengo, pode apostar. A Ilha precisa de alma. Para isso, precisa de torcida, não plateia. Precisa de gana, não de grana. De raça, não de pedigree.

Respeitem o torcedor. Ele é o próprio futebol.

Foto: Reprodução

Téo Ferraz Benjamin escreve as análises táticas do MRN. Siga-o no Twitter: @teofb


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