Substituto de Zé Ricardo no sub-20, o técnico Gilmar Popoca comanda a partir de amanhã pela primeira vez o Flamengo na Copinha, mais tradicional competição das categorias de base no Brasil, com a missão de defender o título conquistado no ano passado com um time bem rejuvenescido. Grande destaque nas categorias de base, Popoca não repetiu o sucesso como jogador profissional, e agora tenta passar a experiência para que o mesmo não se repita com seus atletas, promessas do calibre de Lincoln e Vinícius Júnior, destaques da seleção sub-17 que disputarão sua primeira Copinha com apenas 16 anos. O MRN acompanhou o último treino da equipe antes da viagem para São Caetano, onde o Flamengo estreia amanhã contra o Central-PE. No fim da atividade, o técnico Gilmar Popoca conversou com os jornalistas presentes:

O Flamengo está defendendo o título da Copinha, e quando ganhou, ganhou também com todo mundo comentando o estilo de jogo do Flamengo, de toque de bola, do Zé Ricardo, que agora está no profissional. Você vê o Flamengo defendendo além do título uma escola, um estilo que está surgindo para virar um jeitão do Flamengo, de repente?

Popoca- O Flamengo sempre foi dessa maneira, sempre jogou com esse estilo técnico, jogadores de habilidade, muita movimentação, muito jogo coletivo, mas sem perder seu espírito competitivo. Pela exigência da torcida, eu mesmo como ex-atleta sei o que essa galera, quando tá gritando lá em cima, exige. A gente não muda, a gente vai procurar fazer um campeonato bem qualificado, vamos jogar futebol, da melhor forma possível. A gente treina, a gente se organiza ofensivamente, defensivamente, mas eu quero uma equipe leve, solta, que os atletas possam ter liberdade de ação dentro de campo. Eu não gosto muito daquela coisa de robotizar, mecanizar muito na parte tática. Tem que haver uma mobilidade entre os jogadores. Você não pode ocupar o mesmo espaço, mas tem que haver sempre uma movimentação para que você possa criar situações de surpresa, diferentes, para surpreender o adversário.

Como o Flamengo chega para essa Copinha? No ano passado o time passou por várias reformulações depois do título, a última na Copa RS.

Popoca- É uma equipe bem jovem. No ano passado a gente teve duas mudanças, perdemos várias atletas, na última competição nós perdemos 50% da equipe. Mas a gente confia muito, a gente não tem que ficar muito preocupado com a idade deles, lógico que a experiência conta bastante, mas a gente tem um grupo muito talentoso, e eles já deram provas na Copa RS, a equipe foi muito bem. O Flamengo nunca tinha passado de fase e chegou à semifinal. É uma expectativa muito grande, pelo talento que esses meninos têm e pela maneira que a gente conseguiu encaixar essa equipe. A gente espera fazer uma grande Copinha, mesmo sabendo da responsabilidade que é ser o atual campeão, de estar num grupo pesado, difícil. Vamos jogar com equipe do Nordeste (Central-PE), que evoluiu muito em relação a suas equipes. Temos duas equipes de São Paulo, São Bento e São Caetano… A gente confia muito. Estou muito confiante de fazer uma grande competição.


Qual é a análise que você faz do grupo, e dos adversários?

É um grupo pesado, não é um grupo fácil. O Central foi semifinalista do Campeonato Pernambucano, foi eliminado pelo Sport em dois jogos, e o Sport ganhando de forma muito espremida. O Nordeste tem evoluído muito em termos de futebol. É um adversário dificílimo, e é nossa estreia. Esses garotos que vêm do Nordeste vão jogar a vida deles, porque é a primeira vez que vão jogar com transmissão da TV para todo o Brasil, contra um Flamengo, atual campeão, é a chance de eles se mostrarem e quem sabe serem vistos por outros clubes. Então vai ser um jogo duríssimo. Então nós temos São Bento e São Caetano, são duas escolas bem trabalhadas lá em São Paulo e que já têm história no Campeonato Paulista. Então vai ser uma competição bem complicada. Mas nosso grupo é muito interessante, é uma equipe bem talentosa, jogadores tecnicamente com um nível muito bom. A gente conseguiu encaixar bem essa equipe e a gente espera que eles possam reproduzir isso dentro da primeira fase, dos primeiros jogos, para seguir firme na competição.

Embora a Copinha seja um torneio muito tradicional, na base o título não é o mais importante, o mais importante é a formação, o processo todo. Que futuro você vê para essa garotada? Você acha que o Flamengo está trilhando o caminho de voltar a ter uma fábrica de jogadores feitos dentro de casa?

Eu acredito que sim. O Flamengo pouco a pouco está se organizando, se organizou administrativamente, está se organizando em termos de infraestrutura, para oferecer aos atletas da base também o que oferece ao profissional. A gente tem uma expectativa muito grande nesse grupo, inclusive eu vou para a Copinha com uma equipe extremamente jovem. Atletas praticamente de primeiro ano de juniores, seis, sete atletas da sub-17, em virtude de serem atletas extremamente talentosos. Essa união de safras que está acontecendo. A 97, que é o último ano, a gente só tem dois atletas. A mescla dessas três safras, 98, 99 e 2000, juntando com esses dois da 97, a gente espera produzir muito coisa boa pro Flamengo. Quem saiba o Flamengo possa voltar àquela velha frase: ‘Craque o Flamengo faz em casa’.

Muita gente fala do Vinícius Júnior, mas também tem o Lincoln. Queria que você falasse um pouquinho do Lincoln que já foi destaque na Copa RS?

Popoca- São dois atletas extremamente talentosos. O Vinícius vinha até se destacando um pouco mais nas competições, na seleção brasileira, inclusive, é titular da seleção sub-17. O Lincoln é um jogador de uma qualidade técnica, de uma definição dentro da área impressionante. O que aconteceu foi que a gente deu oportunidade para ele na RS, que foi a competição anterior a essa, e o Lincoln chegou e fez diferença. Ele manteve um nível muito alto de atuações mesmo sendo um atleta que ainda ia completar 16 anos. A gente sabe muito o potencial, mas tem que ter paciência, o garoto tem apenas 16 anos. Na função do atacante centralizado ele é um jogador diferente mesmo. Agora é trabalhar porque ele vai cada vez enfrentar adversários mais duros, juniores é uma categoria mais pesada, então a gente tem que trabalhar principalmente a cabeça dele para que não aconteça alguma coisa errada no percurso. E o Vinícius é um jogador talentoso demais, a gente está moldando ele às características do futebol de juniores, que é diferente da sub-17, por ele ser um jogador mais de habilidade, de dinâmica, de velocidade, de dribles, a gente tem que estar moldando ele um pouquinho, passar uns ensinamentos para ele para que ele não se prejudique, para que ele não exagere em algumas situações, porque realmente é um jogador decisivo.

Os últimos dois treinadores campeões da Copinha deram um salto na carreira. O Zé Ricardo assumiu o profissional do Flamengo e conseguiu o terceiro lugar no Brasileiro, e o Rogério Micale foi técnico da seleção olímpica que conseguiu a medalha de ouro. O que o Gilmar Popoca espera da Copinha?

Popoca – Eu tô muito tranquilo, porque eu venho pouco a pouco na minha carreira, desde o sub-13, passei pro sub-15-, sub-17, sub-20…. Eu acho que as oportunidades aparecem. Então apareceu com a ida do Zé pro profissional. Eu continuo como treinador da base sendo um formador, eu tenho que formar esses meninos, eu tô mais preocupado realmente em fazer esse trabalho. Eu não tenho uma preocupação, com toda sinceridade, de querer ir pro profissional. A coisa acontece naturalmente, tudo tem seu tempo na vida. Eu quero continuar trabalhando, evoluindo em relação a meus conceitos de jogo, a minha leitura de jogo, e seguir minha vida normalmente. É continuar trabalhando normalmente, fazer um bom trabalho, sendo admirado e respeitado pela diretoria para que eu dê continuidade a esse trabalho. Não tenho essa preocupação, mesmo sabendo do sucesso do Zé, do Micale, do próprio Paulo Henrique que foi campeão da Copinha aqui dentro do Flamengo também, eu quero deixar as coisas acontecerem muito naturalmente.

Você foi jogador de seleções de base. Que exemplos você dá para os jogadores no dia a dia, que talvez você não tenha conseguido ser a estrela no futebol profissional à altura do seu destaque da base. O que você fala para eles da sua trajetória, o que você ensina para eles no dia a dia?

Popoca – Eu converso muito com eles. Eu mostro a eles a minha vida como atleta. Eu vim para o Rio de Janeiro com 15 anos, fui trazido pelo Cláudio Coutinho, na época conseguiu vir de Manaus, na Região Norte, uma região desconhecida, para cá, e consegui me realizar profissionalmente. Joguei no Flamengo algumas temporadas, fui campeão. Lógico que na época o nível técnico era muito alto, tinha Zico, Adílio, Tita, um monte de craques e eu consegui jogar com eles todos. Estive na seleção, fui campeão sul-americano, fui campeão mundial sub-20, fui medalhista em Los Angeles pela seleção olímpica em 1984, e tive uma carreira muito legal, depois do Flamengo joguei no Santos, no São Paulo, no Botafogo, na Ponte Preta. Eu digo para eles o seguinte: que eu poderia ter ido muito mais longe do que eu fui porque eu cometi alguns erros. Talvez uma coisa que tenha me faltado um pouquinho tenha sido um pouco de equilíbrio, em termos emocionais, para saber resolver algumas situações que porventura aconteciam. Muito mais quando eu estava no profissional do que propriamente na base. Na base eu tinha um equilíbrio maior, não sei por quê. Eu sempre tive uma personalidade muito forte, e às vezes o confronto com as pessoas que têm o poder te leva a derrota. Então eu falo com eles sem vergonha nenhuma, conto todas as minhas histórias para eles, minha trajetória para que eles não sigam o caminho que eu segui. Porque eu fui muito bem, mas poderia ter ido muito melhor. Se eu fui a uma Olimpíada, eu poderia ter ido a uma Copa do Mundo. Porque aquela geração que foi campeã em 1994 era praticamente a minha geração, Romário, Bebeto, Dunga, toda essa rapaziada que começou junto comigo. Eu procuro dar nessas conversas, uma resenha entre amigos, mostrar a hora que vai ter que esperar, vai ter que ser reserva, esperar a oportunidade de entrar e não sair mais. Tem várias coisas boas que eu posso passar para eles, sem vergonha nenhuma, com muito orgulho até, para que eles possam construir uma carreira mais sólida que a minha.

E é muito diferente o comportamento hoje da garotada da sua época? Fixação em celular, redes sociais, como lidar com isso?

Popoca- Tem uma coisa que prejudica muito mais rápido, que é o ganho. Na minha época você ralava, para fazer um contratinho era complicado. O garoto hoje de 17 anos já tem um contrato, já recebe um valor que dá para ele até se manter fora do clube, na minha época não era assim, a diferença é muito grande. E além do mais a convivência mudou muito. Antigamente havia a concentração, onde você trocava figurinhas, fazia resenha, fazia aquele bate-bola entre os amigos, hoje é muito mais Playstation, aquele negócio de celular, Whatsapp, às vezes o cara tá na frente do outro e tá conversando pelo Whatsapp, é um negócio de louco, mas eu quebro isso aí deles. Eu quebro. Eu sou um cara que falo pra caramba, eu atropelo eles, eu puxo resenha, conto história, até coisas do passado que acontecem muito menos hoje.

Como é que você trabalha a parte emocional dos jogadores?

Popoca – Na conversa. Eu sou um cara que converso muito. Às vezes no um contra um, eu sento, troco ideia, vou nos quartos. Por eu ter convivido com esses meninos já quase sete anos, porque muitos começaram comigo na sub-13, eu tenho essa facilidade de chegar neles. Eles têm uma confiança muito grande em mim, eu também neles, uma admiração. Eu digo sempre entre a gente: respeito e admiração têm que existir sempre. Fica mais fácil de a gente trocar uma ideia e eu fico muito feliz de poder passar coisas boas para eles. Eu tenho certeza que eles vão assimilar, vão chegar bem tranquilos e vão tentar fazer uma competição de alto nível.

 
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