Onde estiver estarei. Carlos Alvarenga vive conforme a frase, estampada na faixa rubro-negra que leva consigo mundo afora. Sua última aventura aconteceu esta semana, quando saiu do Rio de Janeiro para ver o jogo Salgueiro x Flamengo, válido pela segunda fase da Copa do Brasil deste ano.

Por intermédio de Delmiro Júnior (que comanda o perfil instagram.com/maiordomundo), o MRN obteve o contato do Alvarenga, famoso por compor a letra que se encaixou perfeitamente no Tema da Vitória (composta pelo Maestro Eduardo Souto Neto). Trilha sonora das manhãs vitoriosas de domingo, quando Ayrton Senna fazia renovar a crença na magia de ser brasileiro.

Carlos Alvarenga no Salgueirão, feliz da vida! (Foto: Arquivo Pessoal)

Carlos Alvarenga no Salgueirão, feliz da vida! (Foto: Arquivo Pessoal)

E eis que a magia do Tema da Vitória ressurge nas arquibancadas do Maracanã no final da década passada! O canto embalou o time nos títulos importantes daqueles anos e até hoje arrepia a galera no New Maracanã, entrando definitivamente no rol de cantos perenes e míticos da Maior Torcida do Brasil.

Time de Tradição (Letra: Carlos Alvarenga/Música: Eduardo Souto Neto)

¶Eu sempre te amarei
Onde estiver, estarei
Óh meu Mengo!

Tu es time de tradição
Raça, amor e paixão
Óh meu Mengo!

Eu sempre te amarei
Onde estiver, estarei
Óh meu Mengo!

Tu es time de tradição
Raça, amor e paixão
Óh meu Mengo!

A ida para Salgueiro-PE

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Chegando ao destino! (Foto: Arquivo Pessoal)

– A CBF demorou a confirmar o dia e o local da partida. Quando confirmou, estava em cima da hora. Fomos ver passagem pra cidades mais próximas de Salgueiro, tendo em vista que Salgueiro não tem aeroporto. Tinha Petrolina, Pernambuco e Juazeiro, na Bahia – cidades que são divididas por uma ponte. Mas a passagem aérea para esses destinos estavam caras. Entre R$ 1.400 e R$ 2.000 ida e volta. Outra opção seria Juazeiro do Norte, a cidade do Padim Ciço… também caro. Vimos que Recife ou João Pessoa seriam as opções mais viáveis. Fomos pra João Pessoa. Chegando lá alugamos um carro e seguimos pra Salgueiro. Nosso grupo era formado por quatro pessoas – conta em detalhes o rouco Alvarenga.


Na estrada: Registro da obra de transposição do Rio São Francisco (Foto: Arquivo Pessoal)

Na estrada: Registro da obra de transposição do Rio São Francisco (Foto: Arquivo Pessoal)

O que move esta paixão? Como é o processo de identificação que ocorre na alma rubro-negra? Alvarenga confidencia que nunca deixou de comprar ingresso. Nunca deixou de pagar suas despesas com o Flamengo. Ao perceber que não conseguiria viver longe das arquibancadas, estudou muito, de forma a ter condições para seguir seu destino vermelho e preto. Esteve recentemente em Cancún para ver o FlaBasquete na Liga das Américas 2015, por exemplo. E conhece todos os estados do Brasil. “Até Tocantins, Alvarenga?” “Rapaz, teve um Kaburé e Flamengo… 1995” (risos).

– De João Pessoa até Salgueiro são 4 rodovias federais e uma estadual! Chegamos em Salgueiro. O preço do ingresso: uma fortuna. Pra todos os estados da federação já seria uma fortuna… No Maracanã, nos estádios da Copa, que têm uma infraestrutura pro torcedor, já seria uma fortuna. Aí, naquele estádio acanhado lá… sem preconceito algum, sem juízo de valores… mas eu digo, comparando com o Maracanã. Uma fortuna – continua o relato.

Na cidade de Salgueiro-PE

Totonho e sua cadeira de rodas viajaram de Cariús para Salgueiro: A força de uma paixão. (Foto: Arquivo Pessoal)

Totonho e sua cadeira de rodas viajaram de Cariús para Salgueiro: A força de uma paixão. (Foto: Arquivo Pessoal)

Imaginem os perrengues. Lugares caóticos, intransitáveis com o Manto. A vida em risco, o manto no corpo. Os caminhos precisam ser delineados sob a égide da segurança. A família depende, aguarda em casa. O torcedor rubro-negro que viaja atrás do seu time é um mestre dos caminhos, dribla as encruzilhadas. O flamenguista recebe muitas vezes apenas o ódio quando sai de sua cidade natal, seja ela Rio, Paris ou Salvador, para acompanhar o Mengo. Todos nós aqui sabemos os lugares que grupos de rubro-negros (atenção: pais de família, crianças e adolescentes – não estamos falando de grupos pertencentes a conflitos entre torcidas organizadas) são xingados já nos saguões dos aeroportos e rodoviárias. Alvejados em portas de hotéis e restaurantes. Uma cultura do ódio. A cultura da mochila futebolística sofre, e o comércio e o turismo brasileiro perdem. Em Salgueiro foi diferente.

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Blecaute e chuva no sertão! (Foto: Arquivo Pessoal)

– Um Carnaval na cidade. Caravanas e caravanas foram chegando. Cidade toda de braços abertos. Fomos muito bem recebidos na cidade, sem estresse algum. Tudo na paz, muito legal. Nos hospedamos em um lugar bem próximo do estádio, chegamos por volta de 13h. Dormimos um pouco. Por volta de 19:30h entramos no estádio. E as curiosidades começaram a surgir: Choveu e a energia no estádio caiu. Eu fiquei sem entender nada, me causou espécie, estranhei mesmo! Chuva forte no sertão! (risos). Falei com alguém ao lado que o Mengão causa até chuva forte, mesmo no lugar mais seco do Brasil (risos). Logo depois a chuva passou o o problema que ocasionou o blecaute foi resolvido. Mengão entrou em campo muito ovacionado, maioria nossa, umas 9 mil pessoas. Se o preço não fosse tão fora da realidade o estádio estaria cheio – continua nosso grande torcedor.

A partida. O jogo. A meta. Objetivo alcançado. Desta feita 2 a 0 para a favela mais rica de amor do Brasil. A maior parte da Nação comemora o resultado de suas casas. Vibrando depois de um domingo de derrota para o arquirrival do cinto de segurança na camisa. Alívio de Alvarenga e seus amigos de estrada. O cara que acompanha o time pelo time.

– Não torço pra jogador. Pode ser o time que for. Eu gosto do Flamengo – e ao falar Flamengo a voz de Alvarenga se torna assoviada e doce – eu gosto é da Instituição. Amo o clube e a arquibancada. Vou contar uma coisa, quando tem Flamengo na TV e estou em casa eu nem vejo.

A volta de Salgueiro-PE

Carlos Alvarenga e Carlos Alvarenga Filho no Maraca: Heróis do presente e do futuro da Maior Torcida do Mundo (Foto: Arquivo Pessoal)

Pai e Filho no Maraca: Heróis do presente e do futuro da Maior Torcida do Mundo (Foto: Arquivo Pessoal)

O grito de gol ficou reverberando pelo espaço. É passado. É história. O presente surge e a necessidade de voltar para os seus, para o filho de 10 anos que já conhece mais cidades e estádios Brasil e mundo afora do que este que vos escreve, por exemplo. Meia noite de quarta. Nosso protagonista de aventura e mais dois amigos, outros Alvarengas, que – quem sabe!? – também serão compositores cantos eternos. Estrada de volta, aeroporto de volta, de volta ao lar. A mega odisseia, como denominou o próprio torcedor, teve fim.

Flamengo pode enfrentar Jacuipense ou Náutico. “Você vai?”

A Nação sempre vai.