projeto base

 Amigos Rubro-Negros,

estou iniciando minha passagem na blogosfera rubro-negra por meio desse espaço que o Mundo Rubro-Negro me concedeu. A proposta da coluna, “Projeto Base”, que não tem periodicidade definida, como o próprio nome já diz, é fazer uma cobertura das categorias de base do Mais Querido do Brasil. Entretanto, o grande diferencial se dá no fato de que a coluna assume caráter opinativo – e não informativo, como nas coberturas tradicionais, embora em alguns momentos seja necessário informar para contextualizar os acontecimentos. Espero então que, entre os muitos erros e acertos que acontecerão na coluna, vocês possam gostar dos pitacos, das análises, das comparações, das histórias, das crônicas, das reportagens e, é claro, das cornetadas que vão surgir ao longo das publicações. Espero, também, conseguir nesse espaço ajudar os leitores a se desvencilharem dos “novos Zicos”, conseguindo identificar as joias verdadeiras e o “ouro de tolo”, escapando daquela frustação anual de esperar o sucessor do Zico e receber um novo Walter Minhoca.

Saudações Rubro-Negras,

  Homer Fla 


Encerrado o momento de abertura, vamos à inauguração da coluna. Clamado pela torcida no profissional, o lateral esquerdo Jorge será o primeiro a passar pelo nosso “Scanner Rubro-Negro”.

Jorge Marco de Oliveira Moraes, ou simplesmente Jorge, assim como a maioria dos jogadores iniciou sua trajetória no futsal. Em 2008, aos 12 anos, fez a transição do futebol de salão para o campo, saindo do Vasco da Gama, onde deu seus primeiros passos no futsal, e incorporando o elenco do mirim (sub-13) do Flamengo.  Nascido em 1996, fez parte da geração comandada pelo treinador Celso Martins que venceu a Lion City Cup – torneio internacional infantil (sub-15), realizado em Cingapura, que contou com equipes como o Everton (ING), Newcastle (ING), Juventus (ITA) e a Seleção de Cingapura – em 2011. Mesmo longe de ser uns dos jogadores mais badalados da equipe – o goleiro Thiago Rodrigues, o zagueiro Lincoln e o atacante Caio Rangel, todos com passagens pelas seleções de base – Jorge atingiu seu ápice na excelente equipe vice-campeã da Copa do Brasil Juvenil (sub-17) em 2013, chamando a atenção por seu ótimo desempenho e a sequência de atuações destacas em seu último ano como juvenil que, ainda assim, não foram o suficiente para fazer com que Jorge fosse lembrado pelas seleções de base, muito pela concorrência do lateral esquerdo Abner, a época no Coritiba (atualmente no Real Madrid), frequentemente listado como o melhor do mundo de sua faixa etária na posição.

No ano seguinte, foi definitivamente integrado ao elenco de juniores – pelo qual já vinha fazendo algumas partidas anteriormente – e estreou profissionalmente pelo Flamengo no empate por 2 a 2 com o Bangu. Em seguida, reencontrou o treinador Celso Martins, agora como auxiliar técnico de Marcelo Buarque no sub-20, e não demorou para desbancar Marquinhos como dono da posição, mesmo em seu primeiro ano de sub-20. Apesar disso, Jorge demonstrou timidez no início de sua trajetória nos juniores, se dedicando mais a marcação do que ao apoio, sua principal virtude. Ainda assim, sua qualidade técnica se sobressaia ao processo de adaptação e Jorge se consolidava, ao lado de Jajá e Douglas Baggio, como um dos melhores jogadores do time. No entanto, o grande divisor de águas para a performance de Jorge no sub-20 foi a chegada do novo treinador, Zé Ricardo Mannarino. Em passo que a chegada de José Roberto desfez uma parceria de quase 4 anos de Jorge com o ex-treinador Celso Martins, também dispensado, foi com o novo treinador que Jorge conseguiu recuperar o melhor do seu futebol e iniciou um fantástico voo ascendente que deve ser coroado com sua incorporação ao elenco profissional.

Nesse jogo, Jorge fez 3. (Foto: Site Oficial/Gilvan de Souza)

Jorge luta pela posse de bola  (Foto: Site Oficial/Gilvan de Souza)

Mais livre, Jorge conseguiu demonstrar as características ofensivas que o fizeram ser utilizado como meia esquerdo, principalmente no decorrer da partida, no sub-17. Com bom passe, uma boa leitura espacial, uma excelente condução de bola e uma finalização precisa, Jorge é um lateral muito forte no apoio. Mais do que isso, Jorge tem como um dos pontos fortes de seu jogo a capacidade de fazer o “Ala Invertido”, função que consagrou os últimos grandes laterais da história do Flamengo, Athirson, Léo Moura e Juan, e que o torna um perigo constante à defesa adversária. Explicando, além de ter a opção de chegar a linha de fundo para fazer o cruzamento, Jorge frequentemente faz a diagonal, conduzindo a bola da lateral para o meio campo arrastando a defesa adversária e propiciando ótimas oportunidades para a finalização, tabelas, a passagem de um outro jogador livre pelo lado esquerdo para invadir a área ou cruzar, o famoso “overlapping” que Cláudio Coutinho tentou implantar no Flamengo de 1980, ou passes verticais. Essa característica de preferir o confronto em detrimento da posse de bola o torna um jogador agudo e incisivo em alguns momentos da partida, buscando acelerar o jogo com passes verticais ao invés de cadenciar e, em determinados momentos, tentando encontrar espaços para deixar o companheiro livre na cara do gol.

Embora sua maior virtude seja o ataque, Jorge também não compromete no setor defensivo – maior deficiência dos últimos laterais revelados pelas categorias de base do Flamengo, Galhardo e Digão. Alto (1,84m) e com bom porte físico, Jorge é capaz de ajudar na bola aérea, além de qualificar a saída de bola e ter um poder de marcação bastante aceitável para um lateral. No entanto, ainda tem de melhorar seu posicionamento defensivo que, por diversas vezes, acaba permitindo o prosseguimento de tramas ofensivas, contra-ataques e lançamentos em sua lateral, carência evidenciada quando enfrenta equipes mais fortes.

A sorte também é um fator preponderante para Jorge. Após começar o ano como uma espécie de sexta opção, viu a liberação de Léo Moreira para o Internacional, a lesão de Anderson Pico, a antecipação da saída de Leonardo Moura e a discrição de Thallyson, o abrirem o caminho para o lateral esquerdo, que após uma ótima Copa São Paulo e um início arrasador de Campeonato Carioca, pede passagem com uma fome enorme de beliscar a vaga de titular.

No entanto, embora promissor, é necessária toda a cautela para consolidar uma eventual (merecidíssima) promoção de Jorge ao elenco profissional. Após demorar oito meses para se adaptar e engrenar no time sub-20 do Flamengo, Jorge já é o ‘dono do time’. No entanto, uma eventual promoção ao elenco profissional vai colocar a prova a solidez psicológica, a personalidade e a determinação do lateral esquerdo, uma vez que se quiser brigar por uma vaga precisará demonstrar atitude e gana, buscando contornar o mais rapidamente possível a fase de adaptação, deixando para trás a timidez demonstrada em seu início de sub-20 e apresentando logo do início seu melhor futebol para conseguir suportar a imensa pressão que é jogar no Flamengo.

As atuais exibições credenciam Jorge, sim, como um eventual candidato à lateral esquerda do Flamengo e, mais do que isso, um atleta que se bem trabalhado pode ser uma solução caseira para assumir a lateral esquerda destacadamente nos próximos anos, além de ser um ativo com um potencial de gerar receitas considerável. Mas a transição de Jorge, mas do que nunca, deve ser feita com toda cautela, uma vez que ainda está em sua segunda temporada de sub-20 e que demonstrou dificuldade na transição dos juvenis para os juniores, o que pode indicar que o atleta precisará de tempo para se adaptar e que, até em função da idade, irá oscilar bastante, mas, se bem conduzida, a ida de Jorge aos profissionais pode não só qualificar o grupo do Flamengo como também render a Jorge a tão sonhada chamada pela amarelinha – mantendo o atual nível exibicional, é questão de tempo para que Jorge seja lembrado por Alexandre Gallo, esteja ele nos juniores ou no profissional.

Mas para uma transição tranquila é necessário, além de uma dose de paciência da torcida e vontade e determinação do jogador, encerrar o frenesi causado pela grande quantidade de gols que Jorge vem marcando. Uma das primeiras dicas para reconhecer o “ouro de tolo” é justamente não deixar-se levar somente por números. Athirson, o grande espelho para Jorge em termos de laterais revelados pelo Flamengo recentemente, não era lá um grande goleador nas categorias de base. Já Digão, que não se firmou no Flamengo, mesmo jogando como lateral, foi o 4º lugar na artilharia do Campeonato Carioca Sub-20 de 2013, com 8 gols.

Contribuição especial de @GenoveseGustavo