O Campeonato Carioca há muito tempo perdeu o encanto, o apelo popular e sua força esportiva. Os times do interior do estado são sombras frágeis do que já foram graças a administrações lesivas e a uma federação que se preocupa mais em enriquecer do que em criar condições para seus filiados se desenvolverem e fortalecerem.

A fragilidade dos pequenos clubes do Rio de Janeiro foi traduzida pela torcida na frase “estadual não é parâmetro pra nada”. O problema é que fazer 5 gols num adversário ilude não só a torcida como os jogadores e o treinador. Apegam-se às goleadas e ignoram os resultados não tão bons, afinal o que é uma derrota pro Vasco quando se vem de uma goleada de 5 a 0? Em 9 jogos do Carioca foram 7 vitórias, sendo quase metade por três ou mais gols. O que importa se contra o Madureira a vitória foi sofrida e graças a um gol de pênalti?

Obviamente é esperado que um time em formação tropece, jogue mal até encaixar, o que não pode acontecer é vermos jogo após jogo a repetição dos mesmos erros. Carioca é parâmetro sim, quando o time sofre para vencer quem deveria estar goleando, quando não consegue surpreender o adversário ou quando a lesão de um jogador tira o time do rumo.

Contra o Fluminense, no Pacaembu, vimos o Flamengo ter os mesmos problemas que apresentou contra o Vasco, América-MG, Figueirense, Madureira, Confiança e outros. Parte desse problema pode sim estar na falta de cobrança da diretoria de futebol, mas a maior parte é culpa única e exclusiva de Muricy Ramalho.

Pilar I – Imunidade aos Líderes

Faz parte do procedimento dos treinadores boleiros, como Muricy, ter bom relacionamento com os líderes do elenco. Em uma temporada em que o time viaja muito para jogos fora, o que desagrada os jogadores, como vimos em 2014, acaba sendo importante que o treinador tenha os jogadores “do seu lado”, focados para alcançar conquistas.

Esse clima favorável entre treinador – figura que cobra e escala – e grupo de jogadores é algo intermediado pelos “famosos” líderes de vestiário. Quando Muricy chegou, Paulo Victor, Wallace e Sheik já ocupavam os postos e tinham grande influência no grupo. Será que Muricy colocaria qualquer um deles no banco, arriscando perder o grupo?

Não dá para questionar Wallace, enquanto a diretoria não contratar um zagueiro, mas Paulo Victor tem um reserva que custou 4 milhões de reais por 50% e não joga nem quando os reservas vão a campo, o que é um erro já que se o titular machucar, Muralha estará sem ritmo de jogo.

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Mas por que a insistência em Emerson Sheik? Além da idade estar pesando, fazendo com que o corpo não responda tão rápido às suas decisões, deixando-o cansado logo no início do jogo, o que o faz não colaborar como deveria na defesa, o excesso de individualidade está prejudicando demais o time.

Contra o Fluminense não foi preciso mais que dez minutos de jogo para a torcida perder a paciência com Sheik. O primeiro problema é que sempre que a bola chega, ele domina, olha ao redor, avalia se pode bater pro gol, dar um drible, só depois procura opções de passe. Assim, por várias vezes vimos Jorge dar o passe para Sheik, fazer a ultrapassagem, mas não receber a bola. Ederson também não recebeu uma bola de volta. Às vezes consegue uma faltinha após uma correria, mas o normal é perder a bola, seja num passe forçado, finalização errada ou um cruzamento pra ninguém, como todos os 6 que tentou contra o Fluminense.

Quais opções seriam melhores? Ederson no lugar de Sheik com Mancuello pelo meio, em sua ausência ainda há Canteros e Alan Patrick como opções no meio. Se Ederson precisar ser poupado, há Gabriel, Nixon está voltando e ainda há a opção de abrir Guerrero e deixar Vizeu no comando.

Pilar II – Falta de compactação e organização

Qualquer um mais atento percebe que há um abismo entre os setores do Flamengo. Quando o time tem a bola Cuellar é um dos poucos que se move para receber, dar opção, a maioria dos jogadores vai para frente e fica estático, preso na marcação esperando receber. A bola vai sendo tocada despretensiosamente do meio para trás até ser rifada.

Quando o time está sem a bola a situação piora. Do lado direito, Rodinei, Cirino e Arão sobem para o ataque sem se preocupar com cobertura. Do lado esquerdo, Jorge segura no meio campo para evitar que Juan fique no mano-a-mano. Nas poucas vezes que sobe, ninguém dá cobertura e, como vimos algumas vezes no domingo, Juan tem que apostar corrida com jogador mais jovem e rápido e tende a fazer a falta.

PV

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

O trio de atacantes sobe e quase alinha na frente, Ederson e Arão encostam e isso não teria nada de errado se não forçassem Cuéllar a criar ou acabassem forçando alguém da defesa a dar um chutão. Contra o Fluminense, Muricy foi flagrado mandando Arão segurar para cobrir as subidas de Rodinei e minimizar a avenida na qual Scarpa fazia a festa, assim como determinou que Ederson centralizasse mais para criar. Os dois tentaram, mas não foram bem já que não é da natureza de nenhum deles.

Enquanto Muricy não mexer na escalação e reorganizar o posicionamento de alguns jogadores, não irá melhorar a dinâmica de distribuição de jogo. O problema da recomposição passa por rigidez de posicionamento e disciplina tática, dedicação ao jogo coletivo. O problema da saída de bola quando a marcação é forte, como a do Fluminense foi, passa justamente pela movimentação dos jogadores, capacidade de se desmarcar e dar opção, mas também prender menos a bola e buscar os espaços vazios, mesmo que isso implique em virar o jogo.

Pilar III – Falta de variação tática e opções de substituição

Quantas vezes Muricy fez as três substituições em um jogo? Contra o Fluminense terminou o jogo com uma na mão, os jogadores que entraram foram as convencionais trocas de seis por meia dúzia. Às vezes, após as entrevistas, ele diz que não havia opções no banco para mudar o jogo, o que é culpa dele mesmo.

Um exemplo de como Muricy monta muito mal o banco é ver que ele quase sempre leva Pará e Chiquinho, mesmo com todo mundo sabendo que Pará joga nas duas laterais. Márcio Araújo é um jogador limitado, apesar de ser considerado substituto imediato de Cuéllar, mas por que ele e não Canteros que atua em todas as posições do meio?

Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

Aliás, um dos maiores mistérios do Flamengo é entender o que Muricy pensa de Canteros. O colocou para treinar como 1° volante durante toda a pré-temporada, mesmo quando Cuéllar já estava no grupo, mas além de ter dado apenas duas chances para ele desde o início da temporada, em vários momentos sequer o vimos no banco, como no jogo contra o Confiança, em que Muricy levou o menino Paquetá. Ou contra o Fluminense, onde no banco havia Márcio Araújo e Chiquinho, nenhum com a característica de melhorar o passe, cadenciar o jogo ou com qualquer recurso na bola parada.

E, para além das variantes do 4-1-4-1 de Muricy, também sentimos falta de pelo menos um teste do 4-4-2 com Guerrero e Vizeu alternando entre homem de área e atacante de movimentação. Uma opção que poderia ter ajudado o time a se infiltrar na marcação do Fluminense e aumentado a presença na área, já que geralmente os espaços apareciam quando Guerrero deslocava a marcação, deixando espaço para Cirino ou Sheik aparecerem dentro da área, por vezes Arão aparecendo de trás.

Conclusão

Muricy foi ao Barcelona, onde fez um estágio de pouco mais de 10 dias. Viu muito de Base, administração, mas não parece ter visto o suficiente de futebol. Não tem sido o Muricy retranqueiro de outrora, mas sua ideia de time ofensivo parece ser a de um bando de jogadores correndo como loucos com a bola no pé, mas sem qualquer visão de jogo, capacidade de organização ou tendência para jogo coletivo. Não à toa Cuéllar se destaca como exemplo positivo, rompendo com o modelo dos queridinhos de Muricy. O colombiano, ao correr por ele e pelos companheiros de meio-campo, mostra-se um jogador que trabalha para o time e não um que espera que o time jogue para si.

Saudações Rubro-Negras