Após jogar em ritmo de treino contra a Portuguesa, que chegou a ter 2 jogadores a menos em campo, Flamengo enfrentou o maior rival da história recente, o primeiro jogo contra time grande no Carioca. Jogou mal e perdeu com gol no final do 2° tempo.

Muricy não fez mistério sobre a escalação, descartou Cuellar que ainda está se preparando fisicamente e escalou o mesmo time do jogo anterior, o que apesar de ser positivo do ponto de vista do entrosamento, pode levantar a dúvida sobre a capacidade de mexer no time e identificar os erros que se repetem jogo após jogo.

O 4-3-3 estava formado com Paulo Victor – Rodinei, Wallace, Juan, Jorge – Willian Arão, Márcio Araújo, Mancuello – Cirino, Guerrero, Sheik.

Antes do jogo começar, a alta temperatura ambiente e o forte vento chamavam a atenção. Era indicativo de que os dois times sofreriam fisicamente e que no 2° tempo o jogo poderia mudar. De positivo, havia a confiança no preparo físico do Flamengo que vem jogando muito bem mesmo em jogos com grande intensidade.

O Jogo

Nos primeiros minutos de bola rolando, vimos ambos os times marcando sob pressão para dificultar a saída de bola do adversário, mas já na metade do 1° tempo o desgaste em ambos os lados afrouxou um pouco a pressão, permitindo um jogo mais franco apesar de truncado. O juiz marcando todas as faltas para não deixar o jogo ficar muito agressivo. E a arbitragem, tão em xeque antes do jogo, não foi ruim em qualquer momento, até os impedimentos estavam bem marcados e não influíram no resultado.

Alguns podem falar que o jogo contra o Atlético-MG foi o primeiro contra um time grande, mas ambos os times estavam saindo da pré-temporada, longe da forma ideal, o que afetava o desempenho de ambas as equipes, desfalcadas e em formação. Já o clássico contra o Vasco tinha duas equipes com ritmo de jogo, que entraram em campo olhando para o adversário como um igual, dispostas a ir para o confronto aberto e não segurar o resultado como time pequeno.

Essa igualdade entre as equipes pode ser vista na posse de bola, 54,3% para o Vasco e 45,7% para o Flamengo. Ambas tiveram chance de trabalhar a bola e criar opções em um jogo franco, apesar do início de marcação forte. Desde o início, o Vasco conseguia ser levemente melhor no ataque e acabou tendo mais e melhores chances ofensivas, acertando 5 dos 12 chutes a gol, enquanto o Flamengo errou as 7 finalizações que teve.

Os Problemas do Meio-campo

Dentre os problemas do time, destaca-se o meio-campo ineficiente, a recomposição lenta e sem as coberturas devidas, além de um ataque encaixotado na marcação e irritadiço, o que favorecia os erros individuais. Guerrero era visivelmente o jogador mais pilhado do time pela provocação vascaína. Fez faltas bobas e reclamações acintosas e não houve um companheiro que tentasse acalmá-lo, tão pouco Muricy o fez nas paradas técnicas ou intervalo.

Márcio Araújo sempre atrasado. (Fonte: Vasco)

Márcio Araújo sempre atrasado. (Fonte: site do Vasco)

Márcio Araújo fez, talvez, a pior partida pelo Flamengo. Não conseguia proteger a zaga, recorrentemente estava atrasado no lance e ainda fez faltas bobas perto da área, inclusive a que originou o gol. Com a bola no pé não conseguia fazer a saída de bola, atrasando o ritmo do Flamengo e obrigando os meias a recuarem muito para executar a saída.

Ofensivamente, Mancuello era quem tentava criar situações de gol, seja na bola parada ou com a bola rolando e dando dinâmica ao lado esquerdo ao fazer trocas com Sheik ou Jorge. Já Willian Arão esteve mais discreto, não conseguiu criar sem ter espaço, mas continuou subindo e dando opção próximo da área.

Defensivamente, o meio-campo sofreu com um problema que eu venho apontando desde o início do ano: excesso de exposição e falta de cobertura adequada. Não tem como Mancuello e Arão subirem ao mesmo tempo na intensidade que fazem. Esse triângulo de base alta é bom para penetrar defesas compactas de times pequenos que entram em campo para ficar entrincheirados, mas suicida para enfrentar times fortes que entrem para vencer. Arão não é um volante que aparece de surpresa, pois para ser surpresa isso precisa ser feito de vez em quando e não sempre como o jogador faz, deixando o meio praticamente a cargo apenas de Márcio Araújo, o que hoje permitia que o Vasco tivesse mais liberdade para trabalhar a bola, principalmente nos pés de Nenê.

Os Problemas das Laterais e Pontas

Os lados do campo também não funcionaram contra um time mais sólido, Cirino não conseguia trabalhar com Arão e Rodinei, a movimentação dos três não estava afinada e Rodinei novamente mostrou que tem vontade, velocidade, mas não consegue transformar em produção. Na esquerda, Emerson Sheik por vezes prejudicou as jogadas por excesso de individualidade. Mancuello e Jorge se moviam para receber e Sheik tentava um drible a mais ou cavar uma falta. No melhor lance do Flamengo no jogo, Sheik tinha a opção de Cirino em velocidade, que entraria sozinho na área, mas resolveu chutar de longe com a frente obstruída e isolou a bola.

Vemos a repetição dos problemas da falta de recomposição defensiva dos pontas, que após começarem o jogo com gás, deixam de marcar e passam a correr apenas para frente, por volta dos 20 minutos do 1° tempo. Essa falta de apoio defensivo deixa os laterais sobrecarregados ou forçam os meias a abrirem para dar cobertura, o que deixa buraco no meio. O problema é ainda mais grave na direita, onde Rodinei não tem um bom senso de posicionamento defensivo. Inclusive, na melhor chance do Vasco no primeiro tempo, Jorge Henrique recebe a bola na cara de Wallace. Rodinei e Arão sequer aparecem na imagem, chegando só após o zagueiro ter sido driblado.

Outro problema tem sido o uso das substituições por Muricy, que montou algumas formações bizarras de banco nas últimas partidas. Hoje foi com o que tinha de melhor a disposição, porém terminou o jogo com 2 substituições a fazer. O time tinha jogadores visivelmente muito cansados, outros com o equilíbrio comprometido pelas provocações dos vascaínos, como Guerrero, amarelado ainda no 1° tempo. Havia ainda os que estavam muito mal e comprometiam o restante do time como Sheik e Márcio Araújo. O único a sair foi Cirino, aos 23 minutos, para a entrada de Éverton, que deu mais consistência defensiva ao lado direito.

Uma Possível Solução

Espero que após o jogo de hoje, Muricy mexa no meio campo começando por barrar Márcio Araújo e testar Ronaldo e Canteros, que vem treinando desde o início do ano na posição, inclusive após a chegada de Cuellar. O triângulo de meio campo tem que ser invertido para que de fato o 2° volante apareça como surpresa no ataque, o que não necessariamente passa pela troca de Arão por Cuellar. Já nas pontas não dá para ver Sheik como titular absoluto, Éverton não é tão habilidoso, mas contribui muito mais coletivamente e pode ocupar a posição enquanto Ederson não está liberado para jogar.

O próximo jogo do Flamengo é contra o América-MG pela Primeira Liga. Depois outro clássico, contra o Fluminense, pelo Carioca e, se Muricy não mexer no time, podemos esperar mais um jogo muito complicado como o de hoje, onde uma derrota não seria grande surpresa.

Saudações Rubro-Negras