A sequência ruim de resultados só não foi mais preocupante que os sucessivos jogos ruins. O esquema equivocado, engessado, e a manutenção de alguns jogadores fizeram a torcida perder a paciência e obrigaram Muricy a arriscar algo diferente.

O Flamengo foi escalado com Paulo Victor – Rodinei, Wallace, Juan, Jorge – William Arão, Cuéllar, Alan Patrick, Mancuello – Cirino, Guerrero

O time escalado contra o Boavista possuía 2 meias, porém a formação intuitiva do 4-4-2 pouco ficou nítida em campo durante a maior parte da partida, deixando o Flamengo com uma cara mais próxima do 4-2-3-1.

Mancuello

Cirino


Mancuello volta ao time desequilibrando

Se no jogo anterior chamou atenção a mobilidade e dinâmica de Ederson que se movia por todo o meio, contra o Boavista víamos uma dinâmica quase perfeita de Mancuello atuando aberto, mais preso à lateral. Além de voltar ajudando na saída de bola, por vezes orientava Jorge de modo a organizar as subidas do lateral com seu recuo para cobertura.

Além de ser agudo no ataque, esforçado na recomposição defensiva e marcação, Mancuello voltou a mostrar o porquê de ser essencial para a bola parada do Flamengo. Seja nas cobranças de escanteio ou faltas, mostrou precisão que levou a ameaça direta ao gol ou deixou um companheiro em condições de finalizar.

E foi numa falta, lembrando os ídolos Zico e Petkovic, que Mancuello abriu o placar. Wallace subiu até a intermediária e deu uma enfiada perfeita para o argentino em uma de suas raras aparições na direita e o adversário chegou duro fazendo a falta. Da entrada direita da área, o mais provável era que o argentino levantasse a bola para os companheiros, mas Mancuello foi diferenciado e mostrou um refino deslumbrante ao bater direto pro gol e fazer o primeiro do Flamengo.

O jogo continua saindo mais pelos lados

Jorge e Rodinei foram as principais válvulas de escape do time, assim como Mancuello e Cirino, os quatro jogando pelos lados do campo, alternando entre ir a linha de fundo e entrar em diagonal na área.

Aliás, um fato que mais do que uma realidade mostra o quão grave é o problema de jogar pelos lados são os números relacionados a cruzamentos. Contra o Boavista foram 16 errados e apenas 1 certo, de Jorge, ainda no primeiro tempo.

Talvez por isso, apesar da esmagadora posse de bola, o Flamengo tenha conseguido finalizar apenas 11 vezes, das quais 4 foram na direção do gol. Apesar do time ter mais volume de jogo, sem dúvida ter melhorado nos 2 últimos jogos, ainda está longe da melhor forma.

Não podemos ignorar que o Boavista é um time que jogou na defensiva e vinha fazendo jogo duro até o gol de Mancuello aos 20 minutos, quando começou a dar espaços ao ter que partir mais para o ataque, ainda assim recompunha rápido quando perdia a bola e o Flamengo – lento demais na saída – permanecia tocando a bola incansavelmente no seu campo e fazendo a transição para a intermediária ofensiva lentamente.

As peças que não encaixam no esquema

Um dos principais problemas do Flamengo se chama William Arão. Não que este jogador seja ruim ou não possa contribuir, pelo contrário, o problema está em sua dinâmica no meio-campo que se traduz num estilo “peladeiro”. Como o 2° volante, caberia a Arão auxiliar Cuéllar na saída de bola, fazer as coberturas pela direita e –somente às vezes –subir para o ataque.

Contudo, o que Muricy precisa ver e mudar para ontem é justamente o posicionamento de Arão. Não pode o jogador fazer o que quiser em campo, subir alucinadamente para o ataque e se postar ao lado de Guerrero enquanto a bola ainda é tocada pelos zagueiros no campo defensivo.

Alan Patrick não tem a mobilidade e velocidade de Ederson, praticamente não ajuda em nada a marcação e, assim, apesar de ter momentos de brilho, passa a maior parte do jogo apagado. Para piorar, o armador ainda é sacrificado pela presença do peladeiro Arão.

O que geralmente era visível quando o Flamengo recuperava a bola em seu campo, além dos zagueiros tocando a bola entre si, era a disparada de Arão para o ataque, obrigando Alan Patrick ou Mancuello a retornar para auxiliar na saída de bola. Se eles precisam recuar muito, auxiliam menos na criação, saem da zona onde seu potencial é maior quando o time adversário ainda poderia estar se recompondo.

A jogada que leva a falta do primeiro gol do Flamengo é emblemática nesse ponto. Wallace tem que sair da linha de zaga e subir porque Rodinei e Arão já estão no ataque e Alan Patrick preso na marcação. Mancuello, tentando dar dinâmica ao time, faz uma rara incursão ao lado direito aparecendo entre as linhas, recebendo a bola e posteriormente a falta.

Vitória que traz paz e estimula o trabalho

O gol de Cirino confirmando sua fase matador e o gol de Guerrero, na raça, deram paz para o time e torcida, que já andava questionando o atacante peruano e a permanência de Muricy. Porém é necessário ficar claro que o time está no meio do processo, muito longe de estar preparado para o Campeonato Brasileiro ou para os adversários de peso da Copa do Brasil.

Esse 4-2-3-1 que por vezes vira um 3–5–2 com Cirino e Arão se revezando ao lado de Guerrero, precisa de ordem. Disciplina tática é fundamental no futebol de hoje em dia, os jogadores precisam jogar para o time e não para si. Esse simples conceito não é visto só na Europa, mas é a base dos times bem-sucedidos de Tite, referência de treinador no Brasil.

Saudações Rubro-Negras