Analise

Após a eliminação na Copa da Primeira Liga pelo Atlético-PR o discurso do Flamengo girava em torno do cansaço. Rodrigo Caetano e Muricy deram entrevistas dizendo que o desgaste dos jogadores era muito alto pela sequência de jogos e excesso de viagens, mas que a partir de agora jogariam o Carioca apenas em Volta Redonda para pôr fim a questão.


Essa desculpa não é aceitável. De fato, os jogadores estão cansados pelo excesso de jogos e viagens, ainda possuem pouco tempo para treinar e isso tudo é culpa do Muricy e do Rodrigo Caetano, nessa ordem mesmo. Abaixo a lista de jogos em que o Flamengo jogou com titulares, reservas e time dividido.

Titulares: Atlético-MG, Boa Vista, Macaé, Portuguesa, Vasco, América-MG, Fluminense, Resende, Figueirense, Madureira, Fluminense

Reservas: Cabofriense (6ª rodada), Bangu (8ª rodada)

Misto: Atlético-PR e Volta Redonda

O Flamengo fez o primeiro jogo oficial da temporada após dois amistosos em que teve que viajar e atuar com alta temperatura, assim ficam as perguntas:  Por que não usar reservas contra o Boa Vista? E mais, por que esperar até a sexta rodada do Carioca, oitavo jogo oficial da temporada, para usar um time reserva? E por que terminar a maioria dos jogos com substituições a fazer?

Esse estilo boleiro dos treinadores brasileiros é um obstáculo que duas semanas no Barcelona não resolvem. Muricy, assim como é de praxe por aqui entre treinadores, não gosta de rodar o plantel por que isso desagrada o jogador. Pra não “perder o vestiário” mantém no time titular os líderes do elenco, dá prioridade na reserva aos amigos dos líderes e usa os reservas o mínimo possível. Nas entrevistas usa o discurso de fatalidade, culpa o cansaço das viagens e até de modo disfarçado o excesso de datas de competições e, se for pôr a culpa em alguém, de modo discreto elege um garoto que está subindo para não respingar no elenco.

O que é um time ofensivo para Muricy?

Essa pergunta precisa ser feita para entendermos a lógica por trás da escalação e substituição nos jogos e o porquê de o time não render. O esquema escolhido é o da moda: 4-1-4-1 defendendo e 4-3-3 atacando. E não, o problema não é deixar de usar o 4-4-2, apesar da torcida por costume e boas lembranças acreditar que este é o el dourado da tática futebolística.

O grande problema do Muricy é não entender o esquema tático e confundir agilidade e velocidade de ataque com correria desenfreada. Quando vemos competições europeias ou até o campeonato argentino, podemos ver que as linhas dos bons times caminham juntas, próximas, tanto no ataque quanto na recomposição defensiva e a isso chamamos compactação. Quando o time sobe em bloco, a bola circulando de pé em pé com direito a inversões de jogo e breves momentos de condução, vemos que há poucos passes errados por cair a dificuldade destes e que a defesa adversária tende a abrir, porque eles procuram cercar quem tem a bola.

Mas o Flamengo não é compacto por concepção e falta de trabalho. A escalação começa do 5, o homem entre as linhas de 4, pois é ele quem dará ritmo ao time. O 1° volante será o responsável por cobrir o meia central que estiver apoiando e, quando tiver a bola, fazê-la chegar rapidamente aos pés de quem vai criar a jogada, seja abrindo para o lateral que está subindo, tabelando com um meia que se aproxima para receber ou até lançando um ponteiro.

Cuéllar, neste ponto, é um achado. Se move para receber da linha de defesa e executa a saída para o meio/ataque com agilidade, além de executar coberturas com muita precisão. Mas a ausência dele é um problema crítico, pois os jogadores que mais se aproximam dessas características são o jovem Ronaldo e o experiente Canteros, ambos inexplicavelmente boicotados por Muricy. Simplesmente não há justificativas para escalar Márcio Araújo, que tem gravíssimos problemas de posicionamento e ainda retarda a saída de bola dando tempo para toda a defesa adversária se organizar.

Na linha central há outro problema crítico. O ideal é ter jogadores velozes e com boa condução de bola, além de boa visão de jogo, abertos nas pontas. Pelo meio, jogadores com repertório de passe, capazes de criar jogadas e eventualmente aparecer na entrada da área para finalizar, mas não é isso que Muricy faz. Temos geralmente um meio com 2 meias centrais que sobem e se colocam no ataque o tempo todo, despreocupando-se com a cobertura e mal voltando para ajudar na criação das jogadas, que geralmente acontecem pelas laterais.

No elenco temos em Mancuello o homem de criação, na sua ausência poderíamos ter Canteros, Alan Patrick e até o jovem Lucas Paquetá como opções. Ederson é muito mais um condutor, alguém para jogar aberto e não centralizado. E, apesar de alguns equívocos de escalação nesse sentido, o pior erro de Muricy está na escalação de William Arão pelo centro.

Arão não tem um repertório de passe que vá além do básico, sempre escolhe a jogada óbvia, mas o pior de tudo é que um condutor de bola por natureza. Peguem os melhores jogos dele e o verão carregando a bola, tabelando com alguém pela direita e dentro da área para finalizar. Tudo isso contra times de marcação frágil, que davam espaço. Funciona no Carioca contra a Portuguesa, mas não contra times de divisão superior como temos visto agora que o Flamengo enfrenta times mais preparados e que marcam forte como América-MG, Figueirense, Vasco, Fluminense… até o Madureira tirou espaços do Flamengo e anulou Arão.

Vejam bem, não estou perseguindo Arão ou dizendo que é um jogador ruim.

Porém, é essencial que na linha central um dos meias que atue por dentro segure mais para fazer a cobertura, auxiliando o 1° volante. Pode ser que haja revezamento entre a esquerda e a direita ou que os papeis sejam mais fixos com inversão pontual, mas nunca pode acontecer o que temos visto de ter toda a linha de 4 no ataque criando um vão no meio, que deixa o time exposto a contra-ataques e força o Cuéllar a correr por três.

Por fim, a primeira linha não é chamada de defesa à toa. A função principal do lateral é a mesma dos zagueiros: defender. Isso não significa que os laterais não possam apoiar ou chegar a linha de fundo, apenas que para fazer isso precisam que alguém cubra sua posição para não deixar a defesa exposta. É por isso que Jorge sobe pouco, pelo seu lado tem Sheik que pouco ajuda na marcação e o meia que cai por ali geralmente é o armador. Já Rodinei corre pra frente como um tarado e volta molengando para a defesa, o que junto ao posicionamento super adiantado de Arão, faz com que toda hora um adversário entre nas suas costas e fique no mano a mano com Wallace.

E como Muricy armou o time contra o Volta Redonda?

A escalação e o hábito de fazer poucas e óbvias substituições definiu o jogo. A partir dos 11 iniciais, qualquer um que acompanhe minimamente os jogos do Flamengo saberia como seria o comportamento dos dois times. E, para mostrar que é verdade, abaixo a imagem de tweets que publiquei antes da partida começar.

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Paulo Victor e os zagueiros César Martins e Wallace sabiam que teriam dor de cabeça com Rodinei e Chiquinho, dois alas que apoiam o tempo todo e recompõem mal, além de contarem com a “proteção” de Márcio Araújo, que sempre corre muito para compensar o posicionamento errado.

Já Felipe Vizeu deve ter entrado desanimado ao saber que passaria o jogo todo cercado por defensores do Volta redonda, tendo que se virar para alcançar os cruzamentos bisonhos. E, pior, sob pressão já que se não marcasse ao menos um gol seria o culpado por um possível resultado ruim.

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Foto: Gilvan de Souza / Flamengo

E o Volta Redonda seguiu o script direitinho. Se fechou fortemente no 1° tempo aproveitando a lenta saída de bola do Flamengo, deixando que ficassem com a bola até a sua intermediária, quando começavam a tentar desarmar os jogadores ou interceptar um dos vários passes ruins provocados pela soma da falta de qualidade do jogador com a pouca mobilidade do time rubro-negro. Já no 2° tempo se expôs um pouco mais, investiu em jogadores mais agudos e tentou atacar – o que abriu espaços em sua defesa -, mas o risco era calculado, já que o Flamengo continuava com dificuldade de fazer a saída de bola, Ederson tendo que recuar muito para tentar armar e os laterais e pontas se preocupando em errar cruzamentos e tacar bolas quadradas pro Vizeu.

Para não dizer que não fez nada, Muricy ainda colocou Alan Patrick (que sempre entra cansado) no meio, deslocando Ederson para a ponta esquerda. O mistério é entender o porquê tirar Gabriel – melhor jogador do 1° tempo e um dos melhores ao lado de Ederson – e deixar Cirino, que passou a maior parte do tempo dormindo em campo.

Mota, goleiro do Voltaço, fez algumas boas defesas, mas as finalizações rubro-negras raramente eram perigosas, geralmente fruto de uma finalização sem domínio e com marcadores bloqueando. Já Paulo Victor fez algumas grandes defesas com adversários que já tinham a bola dominada ou apareciam para completar sem marcação, como no lance do gol do jogo, fruto da defesa excessivamente exposta.

O que eu gostaria de ver daqui para frente?

Espero que a cobrança da torcida atinja os dirigentes e os façam cobrar de Muricy e dos jogadores não só resultado, como evolução. Quem entrar em campo precisa estar focado, disposto a dar 110% de si, precisa ficar puto com o companheiro fominha, com o companheiro que estiver molengando, se escondendo em campo. Também conto com um mínimo de autocrítica de Muricy para reavaliar suas decisões e passar a mexer mais no time, rodar mais o elenco, testar de verdade enquanto ainda há tempo de encontrar o time certo para o Campeonato Brasileiro.

Em tempo, meu time titular seria: Paulo Victor (alternando com Muralha) – Pará (ao menos sabe defender), Wallace (não tem outro), Juan, Jorge – Canteros (sabe se posicionar e tem passe qualificado) – Arão (aberto, onde poderá conduzir e ajudar na marcação), Cuéllar (tem mais velocidade que Canteros e bom passe), Mancuello, Ederson – Guerrero. Coringas para o 2° tempo, Gabriel e Vizeu são boas opções para variar o esquema ou substituir jogadores cansados.


Saudações Rubro-Negras

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